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Dia: 11 de novembro de 2021

Violência Estrutural: “Se a dor do outro não doe em mim, vou me desumanizando”

“Refletir sobre o fenômeno da violência estrutural como processo de construção histórica e ideológica, dentro e a partir do momento histórico em que nosso país se encontra”, foi o objetivo da “Conferência Interdisciplinar sobre Violência Estrutural: Reflexões para uma agenda de processos humanizadores”, organizada pelo Seminário São José de Manaus e o Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia (ITEPES). Diante de uma realidade em que “a violência estrutural sacrifica vidas todos os dias em nosso país”, a conferência abordou essa problemática desde a psicologia, a filosofia, a pastoral e a teologia. Em representação do Seminário São José, o padre Jardson Sampáio destacou a importância de os jovens refletir sobre esta temática. O diretor do ITEPES, o padre Ricardo Castro, afirmou que “o conhecimento não é só teórico, mas é um conhecimento para realidades invisibilizadas ao longo da história, que neste momento da história se tornam gritantes”. Elayne Cardoso abordou a questão da violência estrutural, refletindo sobre a relação entre violência e saúde, que segundo a psicóloga se tornou problema de saúde pública. A violência tem se convertido em algo normalizado, parte de nossos atos e modos de nos relacionarmos, segundo Elayne, que citou vários fatores que provocam violência, que considera a violência como algo que funciona em espiral, como algo que tende a crescer. A psicóloga afirmou que a violência nunca é justificável por si mesma e sempre serve alguns interesses. Segundo ela, a violência cria inimigos, o que naturaliza as ações e justifica a violência. A sociedade chegou numa situação em que a violência foi internalizada como padrão de relação social, uma realidade que no Brasil pode ser dito que se tornou violência de Estado. A realidade da violência a partir do existencialismo foi a abordagem do professor Arthur Hidalgo, tendo como referentes Franz Kafka e sua obra “O Processo”, e “A Peste” de Albert Camus, um escrito que cobrou nova relevância com a pandemia da Covid-19. Mostrando elementos da vida de ambos autores, o professor da Faculdade Salesiana Dom Bosco, de Manaus, apresentou o existencialismo como uma corrente filosófica que tem a liberdade como princípio. Em palavras do professor, “o ser humano faz suas escolhas”, insistindo em que “somos livres para escolher, mas também responsáveis por nossas escolhas. Seguindo os postulados do existencialismo, ele afirmou que segundo essa corrente filosófica, “a vida humana não tem sentido, a não ser o sentido que se dê a ela”. A partir daí, o homem é definido como ser humano em projeto, afirmando que a vida humana tem sentido quando ela tem um projeto. Para abordar a violência, se faz necessário ter presente o horizonte da construção da cultura da paz. Segundo a Ir. Rose Bertoldo vivemos numa sociedade que “não nos deixa sentir e pensar a dor do outro”. Segundo a religiosa, “se a dor do outro não doe em mim, vou me desumanizando”. A partir do trabalho na Rede um Grito pela Vida, a Ir. Rose afirmou que “a violência sexual contra crianças e adolescentes é um crime com autor conhecido”. De fato, os números são assustadores, insistindo em que não são números, são vidas, situações que afetam diretamente o desenvolvimento do ser humano. A religiosa se perguntava: “o que fazer para quebrar os ciclos de violência?”. Ela fazia algumas propostas para isso: denunciar, capacitar os profissionais, garantir a presença das crianças na escola, ajudar as crianças a identificar as violências, fortalecer a rede de proteção… Desde a teologia e a religião, o padre Ricardo Castro salientou que somos movidos pela cultura, que é o que nos torna humanos. Segundo ele, é de Deus que emanam as compreensões do ser humano. O diretor do ITEPES insistiu na necessidade de compreender a estrutura da religião para não se converter em instrumento de violência. Ele abougou pela capacidade de fazer uma autocrítica e a necessidade de promover diálogos, seguindo as propostas e atitudes do Papa Francisco, que tem assumido essa disposição para o diálogo como postura vital.

Pobreza: uma pandemia que se supera desde a compaixão

A pobreza é uma realidade com presença secular na vida da humanidade. Podemos dizer que a pobreza tem diferentes causas, mas também somos desafiados a assumir que superar a pobreza é possível. Para isso se faz necessário estarmos dispostos olhar os outros com sentimentos diferentes, deixando para trás o egoísmo, que pode ser considerada como uma das causas da pobreza, e assumindo a partilha. A gente partilha quando sente compaixão pelos outros, uma pergunta que coloca na nossa frente a Jornada Mundial dos Pobres deste ano. Instituída pelo Papa Francisco, neste próximo domingo, 14 de novembro, acontece a quinta edição. Na sua mensagem para esta Jornada, o Papa Francisco nos lembra que “toda a obra de Jesus afirma que a pobreza não é fruto duma fatalidade, mas sinal concreto da sua presença no nosso meio”. O Santo Padre insiste em que “os pobres são verdadeiros evangelizadores”. Isso acontece, nos lembra a mensagem pontifícia, “porque permitem descobrir de modo sempre novo os traços mais genuínos do rosto do Pai”. Além das ações, o Papa pede atenção para com os pobres, se preocupar com eles, partilhar a sua sorte, a exemplo de Jesus. Nos envolvermos diante do sofrimento dos outros, especialmente dos vulneráveis e descartados, pode ser considerado como um termómetro que mede nossa capacidade de viver a compaixão, que pode ser considerada atitude indispensável na vida dos discípulos. A partilha é uma atitude que deve ser assumida, como algo que gera fraternidade, reforça a solidariedade e cria as premissas necessárias para se alcançar a justiça, segundo a mensagem do Papa Francisco. Num momento histórico em que a pobreza no Brasil está aumentando, devemos nos questionar sobre o que fazer para superar essa realidade que cada dia mais atinge a pessoas próximas da gente. A pandemia pode ser considerada como uma das causas do aumento da pobreza, mas não podemos negar que as decisões políticas também contribuem para o aumento da pobreza. A falta de políticas públicas, o recorte dos direitos trabalhistas, o aumento da inflação, sobretudo dos produtos de primeira necessidade, está fazendo com que a vida dos mais pobres fique cada dia mais difícil. A fome, a população de rua, o desemprego, e outros indicativos da pobreza aumentam a cada dia, e isso faz com que seja urgente a toma de medidas para superar uma realidade cada vez mais cruel. Ver pessoas procurando comida num caminhão de lixo não pode nos deixar indiferentes. Fazemos parte de uma sociedade que cria guetos, que considera os pobres como pessoas aparte. Na verdade, é a própria estrutura social que produz a pobreza, e isso demanda respostas concretas, fomentando a solidariedade social e a generosidade. Mas somos capazes de fazer isso? Desde a fé nossa resposta tem que ser clara: a compaixão nos faz felizes e nos ajuda a entender que salvar o outro, especialmente aquele que sofre, é nos salvarmos a nós mesmos. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte 1 – Editorial Rádio Rio Mar