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Dia: 27 de outubro de 2022

“Alarga o espaço da tua tenda”: horizontes para o avanço da sinodalidade na Etapa Continental

Quando falamos de sinodalidade, pensamos sempre em caminhar juntos, em criar espaço para os outros. Uma atitude que nos deve levar a ouvir um pedido: “Alarga o espaço da tua tenda“. A frase do profeta Isaías dá o título ao Documento de Trabalho para a Etapa Continental (DEC) do Sínodo sobre a Sinodalidade (Baixar aqui o Documento em português), apresentado a 27 de outubro pela Secretaria do Sínodo. Um Sínodo que avança, como dizem as primeiras palavras da introdução ao Documento, com uma participação que superou todas as expectativas, em que milhões de pessoas em todo o mundo estiveram envolvidas, consideradas “verdadeiros protagonistas do Sínodo“, querendo ajudar a concretizar ” aquele ‘caminhar juntos’ que permite à Igreja anunciar o Evangelho”. Um processo que “alimentou neles o desejo de uma Igreja sempre mais sinodal“, que deu um rosto concreto à sinodalidade, o que podemos dizer sem medo é o desejo do Papa Francisco. De tudo o que foi vivido, são dados exemplos concretos no texto, fruto de quase duas semanas de intenso trabalho de uma equipe de especialistas, que não quiseram produzir um documento “mas abrir horizontes de esperança para o cumprimento da missão da Igreja”. Para o fazer numa tenda que “é um espaço de comunhão, um lugar de participação e uma base para a missão“. O Documento está dividido em 4 capítulos, começando com “uma narração, à luz da fé, da experiência de sinodalidade vivida até aqui, com a consulta ao Povo de Deus”. Um segundo capítulo que “oferece uma chave para uma interpretação dos conteúdos do DEC à luz da Palavra”. Um terceiro momento para articular palavras-chave e frutos da escuta em torno de 5 tensões: a escuta, o impulso para a missão, um estilo baseado na participação, a construção de possibilidades concretas para viver a comunhão, e a liturgia. Finalmente, um olhar para o futuro, numa perspectiva espiritual e metodológica. Um caminho pelo qual é necessário ler o DEC “com os olhos do discípulo, que o reconhece como o testemunho de um percurso de conversão para uma Igreja sinodal”. O Documento da voz “às alegrias, às esperanças, aos sofrimentos e às feridas dos discípulos de Cristo”, recolhendo com vários exemplos “os frutos, as sementes e as ervas daninhas da sinodalidade“, resultantes do método de conversação espiritual. Mas também não se escondem as dificuldades em avançar no caminho da sinodalidade, entre elas ” os medos e as resistências da parte do clero, mas também a passividade dos leigos, o seu temor a exprimir-se livremente”, bem como escândalos como os abusos ou guerras em alguns países. Um Documento que destaca, e isto é a chave para progredir na sinodalidade, “a dignidade batismal comum”. Isto numa experiência que traz novidade e frescura, o que ajuda a recuperar a identidade. Elementos peneirados da escuta das Escrituras, onde a Igreja aparece como uma tenda, no centro da qual está o tabernáculo, a presença do Senhor, apoiada por estacas que estão a ser estabelecidas em terreno novo, e que se ergue na base de um discernimento correto. Uma tenda que se alarga quando acolhe outros, dá lugar à diversidade, o que ajuda a construir “relações mais ricas e laços mais profundos com Deus e com os outros“. Isto em vista de avançar “a uma Igreja sinodal missionária“, que se concretiza numa “Igreja global e sinodal que vive a unidade na diversidade”, não se deixando envolver em conflitos e não se separando espiritualmente. O que se procura é ” uma Igreja capaz de uma inclusão radical, de pertença mútua e de profunda hospitalidade segundo os ensinamentos de Jesus”. Isto requer uma “escuta que se faz acolhimento”, aceitando “ser transformados por esta escuta”, ainda mais face à “falta de processos comunitários de escuta e discernimento”. Existem situações de preocupação: solidão e isolamento de muitos membros do clero, que não se sentem ouvidos, apoiados e apreciados; presença escassa da voz dos jovens no processo sinodal; falta de estruturas e formas adequadas para acompanhar as pessoas com deficiência. Mas há também experiências positivas: empenho do Povo de Deus na defesa da vida frágil e ameaçada em todas as suas fases; compreensão da sinodalidade como um convite para ouvir aqueles que se sentem exilados da Igreja (os divorciados e casados de novo, pais solteiros, pessoas que vivem em casamentos poligâmicos, pessoas LGBTQ). Daí surge o apelo a viver a missão como irmãs e irmãos, procurando o diálogo, também com aqueles que professam outra religião. Uma Igreja que sofre as mesmas feridas do mundo, o que leva a “o profundo desejo de ouvir o grito dos pobres e o da terra”. Sobre este ponto, reconhece a importância da Igreja nos “processos de construção da paz e reconciliação“, o desejo de avançar em profundo compromisso ecuménico, ainda mais face ao crescimento do número de famílias inter-religiosas e inter-religiosas. O DEC nota a diversidade dos contextos culturais em que a Igreja proclama a sua mensagem, com “declínio da credibilidade e da confiança de que gozam por causa da crise dos abusos”, mas também com cristãos que vivem o martírio. Um Documento que apela “a uma abordagem intercultural mais consciente”, desafiando a ” reconhecer, comprometer-se, integrar e responder melhor à riqueza das culturas locais, muitas das quais têm visões do mundo e estilos de ação que são sinodais”, com ênfase nos povos indígenas. Afirmando que “a missão da Igreja realiza-se através da vida de todos os batizados“, o Documento apela à “comunhão, participação e corresponsabilidade”, superando o clericalismo, definido como ” uma forma de empobrecimento espiritual, uma privação dos verdadeiros bens do ministério ordenado e uma cultura que isola o clero e prejudica os leigos”. Apela também a “repensar a participação das mulheres”, muitas vezes “na primeira linha das práticas sinodais”, salientando a necessidade de serem valorizadas e de entrarem em espaços de decisão, pedindo o acompanhamento da Igreja face ao sofrimento, que pode ser visto na pobreza, violência e humilhação. Isto numa Igreja com uma diversidade de “carismas, vocações e ministérios”, e exemplos de promoção da corresponsabilidade e do reconhecimento…
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Fé ou ideologia: se você é cristão pense o que lhe faz confirmar seu voto

Neste domingo o povo brasileiro está diante de uma eleição histórica, uma situação motivada por uma polarização que aumenta a cada dia e que nos depara com cenas impensáveis tempo atrás. Ninguém pode ignorar que o voto tem consequências e que a gente paga a conta daquilo que a maioria escolheu. Uma conta que nos acompanha durante 4 anos, mas que desta vez poderia se perpetuar por muito mais tempo. Graças a Deus no regime democrático o povo pode fazer suas escolhas, sempre legítimas, mesmo que elas não agradem todo mundo e muita gente diga que o povo não sabe votar. Isso de não saber votar deveria levar a sociedade brasileira, também as igrejas a se questionar sobre a pouca importância que a maioria da população brasileira dá à Política, mas Política com P maiúsculo, que é aquela que se preocupa em fazer realidade um mundo melhor para todos e todas, e não só para quem está na panelinha. Um dos elementos que tem dominado a campanha política, sobretudo no segundo turno, é a corrida dos candidatos à Presidência da República atrás do chamado voto religioso, um elemento que está sendo objeto de análise, inclusive fora do Brasil. Em um país laico, mas com um forte sentimento religioso, a fé tem se tornado objeto de disputa. Fé e ideologia como algo que deve nos levar a refletir e nos questionar o que domina na nossa vida, inclusive na vivência da nossa relação com Deus, em nossa religião. Tenho certeza de que as palavras do Papa Francisco na audiência geral de ontem, 26 de outubro de 2022, quando ele disse: “Peço a Nossa Senhora Aparecida que proteja e cuide do povo brasileiro, que o livre do ódio, da intolerância e da violência”, tem provocado múltiplas reações de ódio, violência e intolerância em muitos brasileiros, inclusive em muitos que se dizem católicos. Aí a gente se questiona o que impera na mente de muitos “católicos”, e sublinho católicos entre aspas, na hora de tomar decisões em sua vida, também na hora de confirmar seu voto. Se deixam guiar pela fé? As palavras da Igreja, do Papa, levam à reflexão ou provocam sentimentos de ódio, de intolerância, de violência? Será que a ideologia, ideologizamos até as palavras do Papa, mesmo que elas sejam uma súplica à Padroeira do Brasil, domina nossa fé? As ideologias exacerbadas têm provocado sofrimento ao longo da história. Quando nós olhamos o decorrer histórico, podemos comprovar que aquilo que é conhecido como guerras de religião, na verdade não tinha nada a ver com a fé e sim com ideologias ou interesses políticos que foram distanciando pessoas com um sentimento religioso inspirado no Deus cristão. É bom lembrar o mandamento fundamental do cristianismo, amar a Deus e ao próximo. Quando a gente vive desde a fé, o amor prevalece e faz realidade a fraternidade, quando a gente vive desde ideologias exacerbadas, o ódio, a intolerância e a violência tomam conta da sociedade e das igrejas. Por isso é bom se questionar sobre o que está falando mais alto no coração de cada um, de cada uma. As escolhas que nascem da fé não enfrentam, algo que tem que nos levar a entender que se você confirma na urna com um sentimento de ódio, você já ficou longe de Deus, mesmo se achando o melhor dos cristãos. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1 – Editorial Rádio Rio Mar