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Dia: 11 de novembro de 2022

REPAM toma postura diante da COP27, “um percurso de hipocrisia climática”

Um momento de comunhão com os povos de diferentes pontos do mundo, que estavam em sintonia com aqueles que na noite do dia 10 de novembro, dento do Comitê Ampliado da Rede Eclesial Pan-Amazônica, realizado em Manaus os dias 10 e 11 de novembro, se reuniram para refletir sobre a COP27. Uma sintonia que nasce do fato de “sentir como nós sentimos que a Amazônia está no centro do mundo”, segundo o Padre Dário Bossi. Um momento em que se fizeram representantes de outras igrejas, que na mesma data realizaram em Manaus o encontro “Amazônia de todas as Lutas”, organizado pela Coordenadoria Ecuménica de Serviço (CESE), que reuniu uma diversidade enorme de povos originários de toda a Amazônia Legal para escutar o clamor que vem dos povos originários, as suas lutas, as suas dores, os seus enfrentamentos, as suas resistências. Algo que a Pastora Sônia Mota, Diretora Executiva da CESE considera “um manancial, porque nos desinstala, porque nos incomoda, porque nos tira também do nosso chão e faz com que cada vez mais a gente se conecte uns com outros, umas com as outras, pelo cuidado da casa comum” Pessoas que se sentem parte de um mesmo objetivo, o cuidado da casa comum, a “oikomene”, o que se faz realidade na caminhada em comum entre a REPAM e a CESE, nascida no Fórum Pan-Amazônico, onde foi criado um tapiri ecuménico, um tapiri interreligioso, que levou a “escutar os gritos da Amazônia, e como é que a gente enquanto comunidade de fé, enquanto pessoas que ouvem o Deus que cria, que nos dá para cuidar desta casa comum, qual é a nossa responsabilidade diante de um mundo que clama que quer respirar”, afirmou a pastora. “Diante de uma natureza tão degradada, de uma natureza tão vilipendiada, qual é a nossa responsabilidade?”, se questionou, chamado a se perguntar o que temos feito como sal da terra e luz do mundo que somos. Uma COP27 que tem provocado uma grande insatisfação, sendo definida por alguns como “um percurso de hipocrisia climática”, segundo Padre Bossi, que lembrou as palavras do Secretário da ONU, Antônio Guterres, que diz que “o risco é de tornar a COP um slogan, uma campanha de mercado, uma cerimonia esvaziada”. O religioso Comboniano lembrou a força de outras COP, como Paris, logo depois da publicação da Encíclica Laudato Si´, o que provocou um entusiasmo, uma expectativa, metas bastante concretas de exigência, mas que não só não foram cumpridas, senão que hoje são vistas como inalcançáveis. Num mundo que hoje vive uma insegurança energética que levou países desenvolvidos e tecnologicamente sofisticados, como a Alemanha, a retomar os combustíveis fósseis como fonte de energia, isso faz mais difíceis os acordos. Diante disso, o Padre Bossi fez ver que a COP continua porque “é conveniente oferecer falsas soluções, construídas e propostas por aquele próprio sistema que causou o aquecimento”. Daí denunciou que “o sistema capitalista agora sugere a venda dos créditos de carbono”, e junto com isso o fato de qualquer país do Norte Global poder seguir poluindo a condição de investir para um país do Sul Global absorver o CO2 que produz. Um fenómeno que denomina “a financeirização da natureza”, considerando “dramático poder calcular quanto pode valer uma árvore, um rio, uma população indígena”, um perigo quando se buscam essas falsas soluções, insistiu. Aos poucos a sociedade civil foi deixando de se posicionar frente à COP, algo que tem a ver com o fato desta COP ser realizada no Egito e a próxima na Arábia Saudita, dois países bem conhecidos pela sua falta de liberdade de expressão e perseguição de líderes ambientalistas. Isso faz com que as pessoas se sintam COP em diferentes lugares do mundo, insistindo em que “a solução à crise climática vem da sofisticada tecnologia dos povos em seus territórios, ela vem daquela experiencia amadurecida ancestralmente, de uma convivência equilibrada com a natureza, onde ninguém domina ninguém. Mas essa solução é tão distante do modelo que temos construído que não convém propô-la e defendê-la”. Uma situação que levou o Padre Dário a pedir uma reforma das Nações Unidas, “para que os povos tenham voz, acima inclusive da economia e dos governos”. Diante de tudo isso, a REPAM tem tomado posição, com uma Declaração de Manaus diante da COP27, “para seguir gritando junto com o Papa Francisco, por seu sonho de uma Amazônia que luta por seus direitos, os direitos dos mais esquecidos”, denunciando a situação da terra, dos rios, do ar, “numa corrida desenfreada rumo à morte”, e exigindo “mudanças radicais e urgentes”, para evitar consequências catastróficas para todo o planeta. Por isso, deixa claro que “Sem a Amazônia, não há vida nem humanidade possível”. Uma realidade que leva a REPAM a dar um basta diante de acordos que ficam como letra morta, da falta de uma promoção eficaz dos direitos humanos, sobretudo dos povos da Amazônia. Um mundo chamado a olhar para os verdadeiros sábios e sábias sobre a água, a terra, as árvores e as plantas, ainda mais diante de uma atitude que Querida Amazônia chama de “injustiça e crime”. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Dom Leonardo: “O Reino de Deus se visibiliza quando os nossos povos originários começam a ser respeitados”

No Evangelho Jesus é perguntado pelo Reino de Deus, “o Reino de Deus que sonhamos, o Reino de Deus que nos atingiu, o Reino de Deus que se tornou nosso horizonte,  o Reino de Deus que se fez nossa esperança, o Reino de Deus que se fez nosso viver, o Reino de Deus que é a razão de estarmos aqui, de juntos tentarmos sempre de novo, a través de todos os meios, tornar visível o Reino de Deus”, afirmou o Cardeal Leonardo Steiner no Comitê Ampliado da Rede Eclesial Pan-Amazônica que está sendo realizado em Manaus os dias 10 e 11 de novembro de 2022. Dom Leonardo ressaltou as palavras de Jesus no Evangelho, onde diz que “o Reino de Deus não vira ostensivamente, não virá com força, com violência”, denunciando o momento tão difícil que o Brasil está vivendo de tanta violência. O Arcebispo de Manaus afirmou que “o Reino de Deus tem uma suavidade enorme, não que seja frágil, ele tem um vigor próprio, o vigor da semente”. O cardeal insistiu em que “a vida que está por implodir, a vida que está por nascer, ela nunca nasce na ostensividade, nasce lenta, suave, cotidianamente, sempre, todo dia”. O Arcebispo insistiu em que “esse Reino de Deus que nós sonhamos, esse Reino de Deus que nos motiva, esse Reino de Deus que veio na suavidade da Cruz e na força da Ressurreição, que nos motiva e nos faz buscar todos os meios para que se torne visível”. Ele lembrou que “a REPAM, a CEAMA, as nossas comunidades, as nossas igrejas, o nosso estilo de vida, mas especialmente aquilo que diz Jesus das nossas relações, o Reino de Deus se torna visível através das relações”. O Cardeal da Amazônia ressaltou que “o Reino de Deus só acontece com relações novas, o Reino de Deus acontece quando nós nos abrimos realmente como irmãos e irmãs, nas diferenças, quando nos respeitamos profundamente, quando como nos diz o Papa Francisco em Querida Amazônia, quando nós sonhamos juntos os sonhos, temos um sonho só, de novas relações”. Dom Leonardo fez um chamado a que “a REPAM, a CEAMA, nos ajude a criar relações novas, jamais ter medo, jamais dar um passo atrás quando se trata de visibilizar o Reino de Deus”. O Reino de Deus se visibiliza, afirmou o Cardeal, “quando existe esta harmonia, quando os nossos povos originários começam a ser respeitados, na sua cultura, no seu modo de ser, na sua cosmovisão”, questionando “como nós como Igreja nos colocamos a serviço, que povos nos escutamos, quando escutamos e percebemos que as relações do Reino já estão presentes”, e chamando a “ser testemunhas de Jesus, testemunhas do Reino”. Dom Leonardo disse que “se desejamos um rosto amazônico, e o rosto amazônico ele é tão diverso, mas ele vai colorindo, vai dando um rosto único nas suas diferenças, suas diversidades, o mundo urbano, sua vida cultural, sua vida social, sobre o ambiente, vai dando devagarinho um rosto, tantos rosto, mas que só se torna um rosto verdadeiro quando é visibilizado pelo Reino de Deus, que não é nosso, que nós ganhamos, que nós recebemos, e que recebemos gratuitamente, do alto da Cruz pela Ressurreição”. O Vice-presidente da CEAMA se referiu ao rito amazônico, uma das propostas do Sínodo para a Amazônia, “que está fazendo a sua caminhada, nas discussões, reflexões, mas há necessidade de irmos junto aos povos originários buscarmos as expressões deles de religiosidade”, algo que está sendo feito em diversas regiões da Amazônia, no Brasil e em outros países, onde “nós sabemos que existe uma riqueza de religiosidade dos nossos povos”, destacou. Um trabalho que será realizado por dois pesquisadores que irão recolhendo diversas experiências muito interessantes que existem, relatando a vivida pelo Cardeal com o povo Xavante no tempo que ele foi Bispo da Prelazia de São Felix do Araguaia, com um rito próprio de iniciação à vida cristã e de celebração da Eucaristia, na própria língua, fazendo realidade aquilo que o Papa Francisco fala em Querida Amazônia, o Evangelho que se incultura, e não são eles que têm que se adaptar à nossa cultura. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

REPAM: Impulso do sujeito eclesiológico amazônico no processo de reforma da Igreja universal

Entender o caminho de Deus é sempre um desafio, porque aqueles que têm fé são chamados a assumir que é Ele quem está fazendo o caminho. Nesta caminhada, a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) vem formando uma família que avança em meio a alegrias, preocupações e desafios, com a consciência de estar nas mãos de Deus, o Criador. Um Deus que levou a REPAM a ouvir os gritos do povo como um compromisso, assumindo o desafio de ser uma Igreja sinodal e missionária como o Papa Francisco nos pede que sejamos. As palavras de Dom Rafael Cob na abertura do Comitê REPAM ampliado que se realiza em Manaus nos dias 10 e 11 de novembro, o primeiro encontro presencial após a pandemia, onde também há participantes on-line, ajudam a começar a trabalhar e continuar avançando do espírito vivido no Sínodo para a Amazônia, como um instrumento importante para continuar interpretando os sinais dos tempos. Isto em uma Igreja que não é estranha à dor da Amazônia e de seus povos, uma Igreja que o presidente da REPAM, eleito em agosto passado, chama a continuar sonhando, junto com o Papa Francisco, a quem agradece seu compromisso com os cuidados de nossa casa comum. Um encontro que chama a REPAM para “colocar-nos diante da história com um sentido de esperança”, nas palavras da Irmã Carmelita Conceição. A vice-presidenta da REPAM expressou sua alegria em acolher os participantes do encontro na Amazônia brasileira, “onde sentimos uma grande responsabilidade de cuidar da vida, especialmente dos vulneráveis, daqueles que vivem nas profundezas da Amazônia“. Um encontro que é uma oportunidade de “trazer a realidade de nossas lutas e cultivar o sentimento de esperança, amor e cuidado com a vida e a natureza”. Palavras dos membros da presidência que assumem maior força a partir da realidade que vem dos territórios e da situação sociopolítica e eclesial. A REPAM é desafiada a caminhar com respeito pelas culturas, como assinalou a Irmã Ana Maria, missionária Laurita no Vicariato de Pucallpa, na Amazônia peruana, de onde ela denuncia os novos colonizadores e escravocratas, presentes em grandes empresas e megaprojetos, a ponto de confirmar as palavras do Papa Francisco em Puerto Maldonado em relação à Amazônia: “Nunca na história a vida foi tão ameaçada como hoje”. Segundo a religiosa, isto se concretiza no fortalecimento de estratégias para acabar com os povos indígenas, o que desafia a defesa dos direitos humanos, ainda mais diante das ameaças ao bem viver e ao território, explicitadas no tráfico de drogas, no desmatamento e na falta de defesa dos povos por parte do poder público. Mas também devido à falta de compromisso e de compreensão dos processos por parte de alguns atores. Em um momento histórico em que a emergência climática é cada vez mais evidente, com metas que não estamos alcançando, como denunciou Padre Dário Bossi, a REPAM é chamada a reagir a fenômenos como o desmatamento e a redução da biodiversidade. Ainda mais diante do fenômeno da guerra, que aumentou a ameaça de novos ataques extrativistas, mas também do aumento da violência, consequência de uma maior presença do crime organizado, especialmente nas fronteiras, do neocolonialismo, impulsionado por um modelo político contrário à hegemonia dos povos, uma extrema direita ligada ao agronegócio. Diante disso, Padre Bossi destaca novas perspectivas de esperança na atitude dos povos indígenas do Equador em relação ao governo, à Assembleia Constituinte no Chile, e aos novos governos na Colômbia e no Chile. A partir daí, ele destacou a importância de alianças fora da Igreja, citando como exemplos o Fórum Pan-Amazônico (FOSPA), a COICA, as Assembleias da Terra, promovendo assim caminhos de interesse para a Igreja e para a sociedade civil. Algo que a REPAM conseguiu é contribuir para “a evolução do sujeito eclesiológico amazônico no processo de reforma da Igreja universal“, afirmou Mauricio López, que lançou o desafio de assumir o comando e sustentar as reformas, encorajando-as a serem processos que permanecem, questionando se as mudanças que a REPAM provocou são irreversíveis. Maurício lembrou as palavras do Cardeal Claudio Hummes nas quais ele disse que “a Igreja não terá cumprido sua missão até que o povo seja o sujeito de sua história“, e o chamado do Papa Francisco para não ter medo de falar, para colocar o que é desconfortável, os desafios e o que pode nos levar a novos caminhos. A partir daí ele chamou a entender que o denominador comum no processo da Igreja na América Latina é o Povo de Deus como centro, algo que vem se consolidando há 60 anos desde o Concílio Vaticano II. Evangelii Gaudium é vista por Mauricio López como um modelo de conversão pastoral, considerando a REPAM, que abriu processos presentes na Igreja hoje, fruto dessa conversão pastoral, algo que nasceu em Aparecida. Além disso, a REPAM se baseia na única crise de que fala Laudato Si’, embora tenha denunciado o fato de a Igreja ter abandonado a opção por Laudato Si’. Da mesma forma, ele se referiu ao Sínodo Amazônico como uma experiência que marcou um modelo de escuta, produzindo mudanças irreversíveis na sinodalidade, algo que tem servido no processo da Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe ou no Processo de Renovação do Celam. A REPAM é regida por um Plano Pastoral composto por 4 orientações pastorais, que defendem a escuta do grito dos povos e da Terra, a luta pelos direitos e a promoção da dignidade; a promoção dos diálogos interculturais e o ser Igreja com rosto amazônico; o cuidado com a Casa Comum e a promoção da justiça socioambiental e do bem viver; a tecelagem de redes, a construção de alianças e o fortalecimento da sinodalidade e da eclesialidade. Isto gera forças que têm a ver com a participação em eventos internacionais, trabalho conjunto e articulado, novas alianças dentro e fora do território, dentro e fora da Igreja, um posicionamento mais forte em relação ao cuidado da casa comum. Mas também apresenta desafios em relação à maior visibilidade das ações das REPAMs Nacionais, a falta de recursos…
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