Cardeal Steiner: Como em Jesus, Deus não nos abandona.

Tantos momentos em que pensamos que Deus nos abandonou, mas como em Jesus, não nos abandona. Foram as palavras do cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, ao presidir a missa do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor (28), início da Semana Santa, na qual celebraremos os mistérios da Paixão, morte e Ressurreição de Cristo. A celebração, com grande número de fiéis e a presença do arcebispo emérito, Dom Luiz Soares Vieira, iniciou com a bênção dos ramos, na praça em frente à Catedral Metropolitana de Manaus. Em seguida, uma procissão até a igreja, recordando a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém para o mistério da morte-ressurreição. Solidário com as nossas solidões Em sua homilia, o arcebispo recordou o grito de Jesus: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, que reflete a proximidade com o Pai, mas também um eco da “humanidade abandonada”. Segundo o cardeal, o grito e o gemido de Jesus são por não “compreender o abandono do Pai”, assim como nós em “tantas situações desesperadoras”, não entendemos o porquê “do abandono e do sofrer, ou porquê das mortes, dos assassinatos, das guerras”. Nas palavras do cardeal Steiner, essa experiência de total abandono e desolação foi “por nós, para servir-nos”. Ele recordou que Papa Francisco nos ensinava meditando esse grito de Jesus na perspectiva do “abandono dos seus, que fugiram”. Nesse “abismo da solidão”, experimentado por Jesus, “restava-lhe, porém, o Pai” a quem se dirige nas palavras de um Salmo (cf 22,2).  “Porque quando nos sentimos encurralados, quando nos encontramos num beco sem saída, sem luz nem via de saída, quando parece que não Deus responde, lembremo-nos que não estamos sozinhos. Jesus experimentou o abandono total, a situação mais estranha para Ele, a fim de ser em tudo solidário com as nossas solidões. O fez por mim, por ti, por cada um nós”, afirmou o cardeal. No grito de Jesus, o grito da humanidade Ao comentar a primeira leitura, cardeal Steiner destacou, citando o livro de Isaías, o alento de ter o Senhor Deus como “meu auxiliador, por isso não deixei abater o ânimo”. Nessa perspectiva “da dor e da destruição da humanidade”, disse o cardeal, “Jesus se faz intimidade como Pai, exclama, grita não me abandones, de ti vim, para ti desejo voltar, não me abandones. E não o abandonou”, e assim também nós somos alcançados pelo auxílio de Deus em Jesus. “Porque Jesus diz: tudo o que Eu tenho, o que me resta, eu te dou o meu espírito. No grito de Jesus ouvimos a humanidade desesperada: dor, fome, fuga, imigração, guerra, a morte”, explicou o cardeal. Jesus transforma a nossa humanidade Ao refletir sobre a segunda leitura, onde Paulo aponta a condição de esvaziamento de Jesus que assume a “condição de escravo e tornando-se igual aos homens”, o cardeal aponta que “assim é Deus-cruz no qual reluz a nossa humanidade transformada”. Isto porque “Deus esvaziou-se, não se assegurou na sua divindade, mas se humilhou, trilhou o caminho da morte, se fez morte”. Essa atitude de Jesus nos permite ver “na morte a nossa salvação”. “Em Jesus nos vemos, em Jesus Crucificado nos lemos, n’Ele nos cremos. Participamos da sua sorte, isto é, da mesma morte, da vida. Na mesma morte, na mesma sorte de sermos perpassados pelo mistério da dor e da morte que nos desperta para vida da eternidade. Mistério da dor e da morte no qual nos movemos todos os dias, ora com mais intensidade, ora suavidade. Mas sempre envoltos por esse mistério incompreensível, mas que Jesus crucificado nos indica o horizonte, o sinal, a redenção, a salvação” explicou o arcebispo. O cardeal também indicou um caminho possível para trilhar na Semana Santa: “deixarmos tomar pelo mistério da morte como plenitude da vida”. Esse caminho, ajuda a compreender o “jogo de morte no qual Deus mesmo se inseriu e experimentou” como indicativo de que “no amor tudo se transforma”. E reforçou que a grandeza do abandono aponta não “uma piedade conformista, mas de um itinerário e caminho único de quem na fraqueza a possiblidade de transformação, de salvação”, capaz de iniciar uma vida nova com o Pai. Oferecer os frutos da conversão O arcebispo também recordou que a contribuição na Coleta Nacional da Solidariedade é a oferta dos “frutos do nosso caminho de conversão, do encontro com Jesus que deu sua vida por nós”.  Ela expressa um “desejo de identificação com Jesus”. E por fim, o cardeal agradeceu e aos irmãos e irmãs que, no período quaresmal, foram ao encontro dos necessitados continuando “o caminho de caridade”. A vida, morte e ressurreição de Jesus nos atrai e nos faz consolação. Em nome de todas as irmãs e todos os irmãos que receberam e receberão ajuda, a minha gratidão. “O Senhor das dores nos ajude no caminho desta Semana. Ele nos mostrará na dor e na morte não o reino dos mortos, nem o Reino dos mortos-vivos, nem dos vivos-mortos, mas apenas na morte o Reino dos vivos, o convívio o mais precioso e suave com o Pai. Entremos com Jesus em Jerusalém e experimentemos o que pode fazer de nós o Amor”, finalizou o cardeal.