Na última terça-feira, 7 de julho, aconteceu o lançamento do livro “Memórias das lutas à construção do indigenismo encarnado”, de Egydio Schwade. O Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), representado por Dom Zenildo Lima, bispo auxiliar de Manaus, marcou presença nesse importante espaço de construção e manutenção da memória de lutas dos povos originários na perspectiva do indigenista. Na mesa de abertura, Dom Zenildo Lima destacou que livro vai além das perspectivas acadêmicas e culturais, pois expressa uma radicalidade na vivência de todos aqueles e aquelas que lutam pela causa indígena. Uma realidade que foi, e ainda é, tão vergonhosamente violentada com consentimento do Estado. “Falar desta experiência de um comprometimento, indigenismo encarnado, a gente usa essa expressão, a gente está falando, evidentemente, de vidas, de iniciativas, mas de processos históricos. A nossa pátria e a história da nossa pátria é marcada por decisões desastrosas no que diz respeito à vida das nossas populações originárias. Desastrosas, mas não ingênuas. Desastrosas, mas sistematicamente articuladas”, enfatizou o bispo. História de resistência Embora esse modo brutal de tratar os povos indígenas seja tão evidente, Dom Zenildo Lima destacou que povos nativos “tem uma história de resistência”. Esse histórico de luta surge de uma inteligência que lê a própria história, e nela encontra homens e mulheres comprometidos em “dar outros rumos para a vida das nossas populações indígenas”. E entre esses nomes comprometidos com a causa, está o senhor Egydio Schwade, que testemunha para toda a sociedade que a “luta continua” viva e pulsante, mesmo diante de tantas incoerências humanas. “Temos sensação de que esses movimentos, tão reacionários, essas iniciativas tão violentas e tão intolerantes, parece ir dominando o cenário e ocupando os espaços, quase que nos sufocando. Mas fazendo memória do que tem sido a peregrinação, fazendo memória do que tem sido a expressão de tantas iniciativas, de tantas lutas, a gente tem uma esperança renovada e a gente tem um comprometimento renovado também”, disse o auxiliar. Experiência da memória O bispo auxiliar de Manaus recordou que fé cristã é constituída pela “experiência da memória”. Essa característica nos conduz a contar histórias e narrar os fatos das lutas pela perspectiva da resistência e das vitórias, que contribuíram para que os povos originários permanecessem. Ao narrarmos e escrevermos nos fazemos memória daquilo que é importante e necessário. “É preciso que a gente conte a história, é preciso que a gente narre os fatos, é preciso que a gente retome as lutas e é preciso que as lutas sejam contadas a partir da nossa perspectiva também. Senão a gente vai ter a impressão que ao falar da vida dos nossos povos, estamos contando lutas de lutas, de derrotas, e não é bem assim. Nós estamos contando histórias de resistência, nós estamos contando vitórias”, acrescentou o bispo. Uma vida dedicada aos povos indígenas O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo Metropolitano de Manaus e presidente do Regional Norte 1 e do Conselho Indigenista (Cimi), enviou uma mensagem de agradecimento pela construção da memória das lutas dos povos indígenas na Amazônia e também no Cimi. O livro traz memórias, reflexões e análises sobre a trajetória de vida de Egydio Schwade dedicada à defesa dos direitos dos povos indígenas. Entre as temáticas retratadas, encontramos a dinâmica de renovação do indigenismo e a relação da Igreja Católica com os povos, o surgimento do movimento indígena e das entidades de apoio aos povos originários, além dos impactos provocados pelos projetos desenvolvimentistas na Amazônia, como a construção da rodovia BR-174. A rodovia, construída no período da Ditadura Militar, liga as capitais Manaus a Boa Vista e foi a grande responsável pelo massacre dos Waimiri-Atroari. Sem esquecermos da construção da Hidrelétrica de Balbina e da exploração mineral na região. Além disso, a obra aponta o distanciamento entre as políticas públicas e as especificidades das populações locais, evidenciando os processos de degradação ambiental, social e cultural que marcaram diferentes períodos da história recente brasileira. Publicada pela Alexa Cultural, de Embu das Artes (SP), a obra apresenta um testemunho histórico sobre a construção do indigenismo contemporâneo no Brasil e a participação de Schwade em mais de 60 anos de atuação profética junto aos povos indígenas. Segundo infirmações dos organizadores, haverá um laçamento do livro na cidade de Manaus. Durante o lançamento, conferimos a prévia do documentário “O Silêncio dos Kiña”, dirigido por Heraldo Daniel, que expõe o genocídio de mais de 2 mil indígenas Waimiri Atroari durante a Ditadura Militar e a construção da rodovia BR-174. Ele retrata as memórias e traumas do contato forçado dos Waimiri Atroari com o homem branco. As filmagens aconteceram entre novembro de 2023 e setembro de 2024, nas cidades de Manaus, São Paulo, Brasília, Vila de Balbina e Presidente Figueiredo, onde Egydio Schwade mora com a família há mais de 40 anos. Fotos e texto: Emmanuel Grieco.