Cardeal Steiner: a dinâmica do Evangelho possibilita compreender a realidade amazônica
O cardeal Leonardo Steiner, Arcebispo Metropolitano de Manaus e presidente do Regional Norte 1, presidiu a missa de encerramento do Curso de Extensão Universitária ‘Realidade Amazônica’. Em sua reflexão, o cardeal recordou que o Evangelho é profundamente dinâmico, o que possibilita compreender a realidade, a estrutura e a nossa missão. O curso é realizado anualmente pela Faculdade Católica do Amazonas, em parceria com o Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Norte 1). A celebração aconteceu na capela do Centro de Formação Maromba, em Manaus. Dom Leonardo Steiner utilizou duas situações para ilustrar a forma como podemos compreender o caminho da vivência missionária: a escolha do vinho e o oleiro que produz vasos cerâmicos. Na escolha do vinho, buscamos olhar a data de sua produção. Isto porque o tempo de fermentação torna o vinho mais saboroso. E oleiro, é aquele que gasta tempo para dedicar-se no molde dos vasos para que assumam o formato desejado. Assim é o caminho de seguimento ao Evangelho que vai ganhando sabor e nos permite caminhar e crescer na criatividade. O arcebispo destacou que a missionariedade é o modo de Deus ir nos moldando para o despertar da beleza que ainda não víamos. É a presença do Verbo encarnado que nos impulsiona a seguir caminhando e saborear o amor de Deus. E assim, sermos cada vez mais desejosos de anunciar o Reino de Deus. Um bispo entre nós A presença do bispo auxiliar de Manaus, Dom Frei Samuel Ferreira, como aluno do curso repercutiu positivamente entre os participantes. Sua visível disponibilidade em aprender com grupo sobre complexa rede de relações que fazem da Amazônia um lugar ímpar, deu ânimo aos colegas. Para a professora Elisângela Maciel, é um sinal de humildade “estar conosco, esse caminhar conosco”. Porta de entrada A professora Drª Elisângela Maciel, coordenadora de Extensão, Pesquisa e Pós-graduação da Faculdade Católica Amazonas, apontou que o curso recebe missionários do Brasil e do mundo para atuar na Amazônia desde 1991. Em suas palavras, explicou que o curso é “a porta de entrada” para aqueles que vêm conhecer, experimentar e trabalhar na Amazônia. Essa pluralidade torna cada turma em uma experiência singular. “Cada turma, como eu disse, vem de cantos diferentes e cada experiência, cada ano é uma experiência diferente. A forma como eles se relacionam, como eles se integram, o que eles experimentam quando vão para atividade pastoral, a partilha que eles fazem, cada curso tem o seu diferencial, cada turma tem o seu diferencial. E essa turma chegou um pouquinho devagar e depois foi se enturmando”, acrescentou a professora. Na última etapa do dia 30 de junho, cada participante teve a oportunidade de partilhar sua avaliação de final do curso. Esse momento foi uma oportunidade de ouvir o retorno de cada um. Foi espaço de perceber quais os frutos colhidos na experiência vivida, o impacto nas suas vida e forma como darão continuidade em suas áreas de engajamento missionário. Engajamento missionário Durante os 10 dias de curso, os 21 participantes vindos da Etiópia, Itália, Camarões, Quênia e outras regiões do Brasil, vivenciaram um recorte do serviço missionário no chão amazônico. Ao final das atividades, os missionários e missionárias são convidados a um novo olhar para as suas vidas e áreas de missão. A maior parte já está engajado nas missões, mas agora retornam com um diferencial que os direciona para o caminho evangelizador da Igreja na Amazônia em sintonia com a realidade dos territórios. “E é isso que o curso quer, fazer a diferença na vida dos missionários, e que os missionários possam fazer a diferença na vida das comunidades. Sem imposição, sem uma Igreja que vem de cima para baixo, não. Uma igreja que se emana com o povo. Uma igreja que busca a sinodalidade que a gente tanto trabalha e vem trabalhando ao longo desses tempos”, explicou a professora Elisângela Maciel. O curso permitiu aos missionários sentirem que “pisar na Amazônia é diferente”, disse a professora. Mesmo que cada um tenha muitos anos de atuação missionária em outras regiões, “fazer a experiência da igreja na Amazônia é diferente”. A professora apontou que sentiu no relato do grupo que “eles abraçaram, se permitiram conhecer, permitiram-se aprender”. Por isso, a expectativa é que eles se entrelacem de fato com a vida da Amazônia” e que futuramente outros também partilhem dessa experiência. Fronteiras A irmã Maria Eliana Modena, da Congregação das Irmãs da Providência de Gap, considerou o curso como “divisor de águas” que ajudará a aprofundar a escuta, o acolhimento e as vivências em nossa querida Amazônia. Em sua fala, a missionária mineira destacou o trabalho desenvolvido na missão em Pacaraima, município no extremo norte de Roraima, fronteira com a Venezuela, na Diocese de Roraima: “Meu trabalho é com os migrantes, de um modo bem particular, com mulheres e crianças em situações de vulnerabilidade. Fazer esse curso já é um sinal de grande respeito missionário por essa realidade tão particular e tão especial. Nós pudemos, nesses dez dias, presenciar, vivenciar e aprender o particular dessa realidade amazônica e de um modo especial todas as lutas, as resistências, todo o empoderamento que essa Igreja teve que fazer ao longo dos anos”, destacou irmã Maria Eliana. A religiosa enfatizou que o trabalho pastoral dos missionários também precisa considerar a valorização do bioma, tendo em vista que as riquezas naturais da Amazônia despertam cobiça de outros países. É necessário que se construa uma integração de toda a realidade amazônica para melhor corresponder àquilo que emerge diante de nós e assim vivenciar “esta realidade com todo o respeito que ela merece”.
