O encontro da Diocese de São Gabriel da Cachoeira com o Papa

Numa audiência marcada pela simplicidade, pela partilha cultural e pelo uso fluido da língua portuguesa, o Santo Padre recebeu no sábado (3) a comitiva da Diocese de São Gabriel da Cachoeira. A Delegação recebida no Palácio Apostólico, no Vaticano, contou com a presença de dom Raimundo Vanthuy Neto, bispo de São Gabriel da Cachoeira, do bispo emérito Dom Edson Taschetto Damian, de irmã Letícia, e de sacerdotes do Colégio Pio Brasileiro de Roma. O encontro permitiu trazer o coração da Amazônia diretamente ao centro da Igreja Católica. Durante a conversa, foram expostas as proporções impressionantes da diocese: com uma área de 294 mil quilômetros quadrados, a diocese é geograficamente maior do que o estado de São Paulo, aproximando-se da dimensão territorial da Itália. Abrange cerca de 400 comunidades espalhadas pela bacia do Rio Negro, onde convivem 24 etnias indígenas diferentes e se falam 18 línguas distintas. Cerca de 94% da população local é composta por povos indígenas, que mantêm viva a essência de guardiões da floresta e da biodiversidade. Desafios Pastorais e Logísticos nas Águas do Rio Negro Dom Vanthuy destacou que a gestão pastoral de um território desta envergadura apresenta obstáculos logísticos consideráveis. Sendo uma diocese essencialmente fluvial, a locomoção depende de embarcações e canoas, exigindo dos missionários e bispos longas jornadas para superar as cachoeiras e alcançar as comunidades mais remotas. O processo de evangelização e formação assenta fortemente no papel fulcral dos catequistas indígenas. O bispo de São Gabriel da Cachoeira afirmou que para consolidar a fé e a liderança nas comunidades, realizam-se encontros formativos prolongados que chegam a durar 15 dias consecutivos, reunindo dezenas de indígenas vindos de várias regiões. Apesar das dificuldades econômicas e financeiras enfrentadas pelos povos coletores — que vivem essencialmente da caça e da pesca em comunidades onde o dinheiro circula escassamente —, o trabalho pastoral continua a expandir-se com o apoio de congregações religiosas e diocesanas. Dom Vanthuy disse que questionado sobre projetos e apoios financeiros, o Papa indicou caminhos de abertura e soluções para dar continuidade à missão na Igreja do Rio Negro. A preservação da Amazônia e o diálogo intercultural Um dos pontos altos do encontro com o Santo Padre foi a reflexão sobre a preservação ecológica. Dom Edson e Dom Raimundo sublinharam perante o Pontífice que a região do Rio Negro é uma das áreas mais bem preservadas de toda a Amazônia, com menos de 10% da sua floresta derrubada. Os povos indígenas, através da sua cultura e sabedoria ancestral, assumem-se como os verdadeiros protótipos dos “guardiões da terra e da floresta”. Esta realidade dialoga de perto com os ensinamentos da Igreja, nomeadamente documentos como a exortação Querida Amazônia (fruto do Sínodo para a Amazônia), que valoriza a “semina Verbi” (as sementes do Verbo já presentes nas culturas antes da chegada dos missionários). O respeito pelas tradições, pelos casamentos interétnicos e pela vida comunitária reflete valores profundamente humanos e cristãos partilhados por estes povos. Símbolos da Amazônia e gestos de afeto no Vaticano O encontro ficou também marcado pela troca de presentes significativos que transportaram a identidade amazônica até ao Papa. Uma mitra tecida com palmeira de tucum e decorada com sementes de açaí; paramentos litúrgicos (cálice, patena e cibório) fabricados em pau-brasil, provenientes de uma das raras regiões onde a espécie permanece protegida graças à tutela indígena; cachecóis e peças artesanais produzidas por comunidades locais e pelo artesanato peruano. Dom Vanthuy e dom Edson destacaram que num ambiente de grande proximidade e simplicidade, o Papa interagiu afetuosamente com todos os membros da comitiva em português, manifestando interesse profundo pelas fotografias, pelas realidades locais e pelas sugestões pastorais deixadas pelos bispos. Esta visita histórica reforça os laços entre a Igreja universal e as periferias geográficas e existenciais da Amazônia, reafirmando o compromisso mútuo com a fé, a dignidade humana e a defesa da Casa Comum. A memória salesiana, o papel das mulheres e os desafios da Amazônia profunda Durante a entrevista nos estúdios da Rádio Vaticano – Vatican News, a Irmã Letícia, Filhas de Maria Auxiliadora”, natural da região norte (com raízes familiares em Boa Vista, Roraima) e de ascendência agostiniana, destacou a emoção de reviver a história missionária do Rio Negro. A religiosa relembrou a convivência próxima com a Irmã Cleusa Rodi Coelho, a grande mártir do Rio Purus, sugerindo que o seu processo de canonização deveria avançar pelo exemplo marcante de entrega e dedicação que deixou à Igreja. A conversa também evocou a chegada dos missionários salesianos a partir de 1915 e das irmãs salesianas em 1923, que se diferenciaram de outros colonizadores por escolherem morar com os povos indígenas, protegê-los contra a exploração econômica abusiva e partilhar conhecimentos. Foi recordada ainda a importância de figuras históricas e intelectuais como o pesquisador indígena Gersen Baniwa — autor da tese doutoral A Educação Escolar Indígena no Alto Rio Negro: Entre a Utopia e a Realidade —, que documentou a chegada dos missionários e o impacto ambíguo dos antigos internatos na preservação ou abafamento das línguas nativas. O protagonismo feminino e a educação na Bacia do Rio Negro A presença feminina foi apontada como um dos pilares fundamentais da ação pastoral na região. Se no passado as mulheres eram frequentemente relegadas a planos secundários, hoje a realidade transformou-se de forma muito positiva. Irmã Letícia sublinhou que o Rio Negro oferece atualmente novas perspetivas de estudo, recordando que hoje temos indígenas com graus acadêmicos de mestrado e doutorado. As mulheres indígenas ocupam agora cargos de destaque como professoras e diretoras de escolas e colégios e lideram frentes cruciais no auxílio à catequese e no suporte comunitário, contrariando o tradicional machismo cultural da região. O diálogo com o Papa Com mais de vinte minutos de escuta atenta por parte do Pontífice, dom Vanthuy descreveu a audiência como um momento de enorme simplicidade, espontaneidade e proximidade no Palácio Apostólico. O bispo de São Gabriel da Cachoeira pediu ao Papa uma bênção especial para a Igreja do Rio Negro, para os missionários e para o país durante o fim de semana…
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