Cardeal Steiner: receber de Deus todos os bens

No 29° Domingo do Tempo Comum o Evangelho apresenta Jesus diante uma armadilha dos Fariseus: se deve pagar o imposto a César, o imperador romano, ou não. O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, esclareceu que se Jesus apoiasse o pagamento do tributo, seria acusado de colaborar com os romanos. No entanto, se contrário ao pagamento de imposto, seria acusado de revolucionário, inimigo do Império Romano. “Jesus, no entanto, apresenta a questão do senhorio de Deus. Ele supera a simples discussão acerca do pagamento ou não do imposto e apela para o reconhecimento de Deus de quem se recebe todos os bens. Jesus não afirma que o homem deve repartir equitativamente as suas obrigações entre o poder público e o poder religioso, mas evidencia a pertença a Deus e a entrega de toda a existência nas mãos de Deus”, esclareceu o cardeal. Libertar da dominação O arcebispo enfatizou que César é sinal da retirada de liberdade do povo. Ele representa a dominação e subjugação aos costumes romanos, com “outros templos, outros altares, ofertas e oferendas a deuses”. Por isso, devolver a César o que é negociado com a moeda dele. Nas palavras do cardeal, “Tudo o que fazeis com o modo de César, dai-lhe em tributo. Se aceitais o jugo de César, dai a ele o que é devido”. No entanto, se de Deus recebemos a liberdade, conduzidos e alimentados pelo deserto, a Deus oferecemos o que é de Deus. Nós fomos constituídos como povo de Deus, filhos e filhas de Deus. “Não haviam recebido os mandamentos, os comandamentos e ser feito povo de Deus? Não tinham atravessado o Mar Vermelho e o Jordão a pé enxuto? o que tinha o povo que não tivesse recebido do desvelamento matricial de Deus? Até a conquista de Jerusalém haviam recebido de Deus. Então, dai a Deus o que é de Deus”, refletiu o Dom Leonardo. Chamados por Deus Em sua reflexão o cardeal recordava a beleza de sermos chamados por Deus expressa por Isaías: chamei-te pelo nome. Esse chamamento feito por Deus nos configura como pertencentes “a povo que vive na liberdade de filhas e filhos de Deus”. Essa dinâmica estabelece uma relação individual de Deus com cada um de nós onde Ele é a primazia. “Ele nos toma pela mão, abre as portas, destranca os portões, concede a força, o vigor para as lides da vida. Somos todos chamados para a liberdade. Somos chamados para a irmandade. Fazemos parte da fraternidade em Jesus Cristo. O Evangelho há nos ensinar que Deus é a preferência fundamental e está sempre em primeiro lugar”, explicou o cardeal.  A partir dessa relação com Deus somos convidados a “assumirmos as responsabilidades na construção de mundo justo, fraterno e livre”. Por isso, não podemos viver “à margem da realidade social do país” e como “seguidores e seguidoras de Jesus, colaboramos na busca de mundo mais livre e libertado”. O cardeal Steiner sublinhou que devemos buscar “leis que ofereçam dignidade a todos”. Leis e obrigações  Além de respeitar as leis e cumprir com nossas obrigações tributárias, sem sucumbir aos “esquemas de corrupção”, não aceitar a dominação e a perda da liberdade. Na vivência do Evangelho, o cardeal enfatizou que construímos um mundo melhor e “uma sociedade mais harmônica, fraterna, solidária”. E hoje, em tempo de eleições, questionarmo-nos que sociedade queremos e se não estamos “substituindo Deus por outros deuses”. “O dinheiro, o poder, o êxito, a realização profissional, a ascensão social, o poder político, o poder sobre os outros. Esses deuses tomam o lugar de Deus e passam a dirigir e a condicionar a vida de tantas pessoas, às vezes também de nós mesmos. Essa troca, essa moeda traz escravidão, alienação, frustração, sentimentos de solidão, sentimento de orfandade. Perdemos Deus. E vamos percebendo que necessitamos de muito mais para sairmos da dependência. Então, demos a Deus o que é de Deus”, destacou o arcebispo. Política e religião Dom Leonardo refletiu que o ensinamento de Jesus apresenta a distinção entre a esfera política e religiosa, e a nossa missão de seguidores e seguidoras de Jesus na política. Nas palavras do cardeal, “não fazemos da religião motivo político, mas como pessoas religiosas participamos ativamente da vida política”. Sendo cidadãos ou Executivo, Legislativo e Judiciário, pagamos os impostos e devemos observar as leis justas do Estado, como a Constituição, sem esquecermos o primado de Deus. “Ao mesmo tempo, é necessário afirmar a primazia de Deus na nossa vida, na história pessoal, na história da nossa sociedade, na história do nosso país. A missão da igreja, a nossa missão como cristãos, é anunciar o reino de Deus, a presença de Deus e dar testemunho do reino de Deus junto aos homens e às mulheres com quem nós convivemos. Cada de nós pelo batismo e pela crisma é chamado a ser presença viva de fraternidade, de justiça, de perdão na sociedade”. Imagem e semelhança Santo Agostinho oferece uma leitura sobre esse Evangelho, que como César aparece na moeda, nós somos a imagem e semelhança a Deus. No entanto, pelo pecado essa imagem é corrompida e somente reestabelecida ao renascermos pelo batismo. No pensamento de Agostinho, César exige sua imagem na moeda, e Deus quer de nós “a alma iluminada e assinalada pela luz da face de Deus, pelo bem e pela bondade”. “Da pergunta dos fariseus, Jesus extrai uma interrogação mais radical e vital para cada de nós: o que podemos fazer a nós mesmos? A quem pertenço? Pertence a quem? A César ou a Deus? A família, a sociedade, os amigos, a escola, o trabalho, a política, o estado, sim, pertencemos a todos, mas primeiro pertencemos a Deus. Sim, sem dúvida, mas antes de tudo, nós pertencemos a Deus. Esta é a pertença mais fundamental e real” esclareceu o cardeal. Por isso, “animados pela força do Evangelho e pela força do Espírito Santo”, nossa missão é “construirmos a civilização do amor onde reina a justiça, a fraternidade e a bondade”. De maneira a “vivermos a dignidade e oferecermos dignidade a todos”…
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