No
domingo laetare, domingo da alegria, Dom Leonardo Steiner começou sua homilia
citando o texto evangélico: “És tu
aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?” Ele lembrou que “estamos
a caminho de Belém”, definindo o Advento, como “a espera do Filho de Deus!”.
Lembrando
o Evangelho do domingo passado, que “nos mostrava João que batizava às margens
rio Jordão”, afirmou que “o mesmo João que hoje encontramos na prisão ouvindo
falar das obras de Jesus, envia os discípulos com a pergunta: ‘És
tu aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?’”
O
Arcebispo de Manaus vê João Batista como alguém “estranho”: “João o preparador,
o anunciador, o aplainador das colinas, o endireitador dos caminhos, não sabe
mais. Havia dito que não sou digno nem mesmo de carregar as suas sandálias e
agora não sabe mais. Ele havia tocado, havia batizado, seu Senhor e agora não
sabe mais. Ele agora se pergunta: é ele que devia vir ou devemos esperar um
outro? João não sabe mais”.
“O
que não faz a prisão… a solidão…! Não mais rodeado pelas multidões, não
mais discussões, não mais pregações, nem mesmo o batismo de conversão. Nada
para anunciar, nada para preparar, nada para endireitar. Só, na solidão o
comedor de gafanhotos e de mel do campo se interroga. Abandonado, sem o vestido
de pelos de camelo, sem o cinturão de couro em torno dos rins, sem os
gafanhotos e o mel, agora se interroga, ele agora na dúvida! Ele no desejo da
confirmação de uma presença nova, aquela que batiza no Espírito. Ali sem
resposta à sua inquietação e interrogação se pergunta e manda perguntar: és tu
ou devemos esperar por outro”, é visto como a causa da pergunta do Batista.
Um
João que segundo o cardeal Steiner se faz perguntas: “Seria ele o esperado e
desejado das nações, o implorado e rezado a séculos, o Deus conosco, o Deus da
história, o Deus de nossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Issac, o Deus de
Jacó? É ele? Ele o nascido em Belém, no quase relento, sem casa, no lugar do
recolhimento das ovelhas? É ele o esperado, ele o meu primo, o da minha raça, o
do meu sangue, o da minha parentela? Ele o filho de Maria e de José? Ele o de
Nazaré; ele como eu, como um dos outros, como um qualquer! É Ele? E a prisão e
a solidão e a desilusão se embatem na interrogação. João deseja um sinal”.
Dúvidas
para João, que deseja ver: “É ele aquele que devia vir ou devo esperar um
outro?”. Por isso seus questionamentos: “Ele seria apenas um grande profeta,
ele um grande curador e anunciador? Seria demais, impossível, que o desejado,
implorado, esperado por tantas gerações fosse justamente ele o da minha carne,
do meu sangue, da minha parentela, o filho de Maria, o de Nazaré. E eu que o
anunciei, aqui abandonado, solitário, à espera da morte. O melhor mesmo é
perguntar a ele mesmo”.
Daí
que “os discípulos de João, se colocam a caminho e entregam a Jesus a
interrogação-inquietação nascida na prisão: ‘És tu aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?’”. E daí a
resposta do Senhor: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os
cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os
surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados. Feliz aquele
que não se escandaliza por causa de mim!”
Citando
os sinais que aparecem no Evangelho, Dom Leonardo os vê como “o sinal
inconfundível de que era Ele e não havia necessidade de esperar por outro. Era
a vida nova que estava por pulular em todos as partes, a alegria do Emanuel, um
novo Reino. A transformação, a realização da presença de um Espírito novo
estava se tornando visível. Sim era ele
e era inútil esperar por um outro”. Milagres que ele vê como “os sinais do
cuidado e desvelo de Deus, a aproximação de Deus a dar olhos, a dar liberdade,
a conceder corpos limpados”.
Segundo
o cardeal, “Deus está cuidando, se aproximou dos necessitados, dos esquecidos:
os cegos, os surdos, os paralíticos, os leprosos. Os pequenos, os necessitados,
os que morreram recebem a visita de Deus e os enche de vida, os renova, os
liberta, os coloca sobre os próprios pés; eles caminham com os próprios pés,
veem com os próprios olhos, ouvem com os próprios ouvidos, vivem e não vegetam
mais. Vivem na purificação da própria limitação de humanidade, porque Deus
mesmo se fez nossa humanidade. Na verdade, irmãs e irmãos, não de si mesmos,
mas da benevolência de Deus ter-se feito nossa humanidade e fragilidade”.
Dom
Leonardo insistiu em que “sim, era ele e não necessitava esperar por um outro.
Por mais estranho que seja, por mais próximo que seja, por mais nosso que seja,
por mais humano que seja, era ele. Somente um Deus humanado poderia cuidar
assim dos cegos, dos coxos, dos leprosos, dos surdos, dos mortos, dos pobres.
Sim, João, sou eu, o de tua parentela, o filho de Maria e de José. Sou eu
aquele o esperado, o implorado, o desejado, o ansiado a séculos. Sou eu não
precisas anunciar, esperar por nenhum outro!”
Algo
que aparece no texto do profeta Isaias na primeira leitura, que nos leva
reconhecer nas palavras de Isaías, “a presença que alegra, transforma,
purifica, vivifica. Nele, se alegra a terra que era deserta e intransitável, agora
exulta a solidão e floresça de alegria e louvores… A solidão de João, o
Batista, floresceu de alegria quando ouviu as transformações, as purificações:
visão nova, ouvidos sensíveis, corpos purificados, relações vivificadas, os
descartados alimentados pela palavra da esperança”.
Isso
nos leva a afirmar com João: “não esperamos um outro!”, se questionando se “ainda
estamos a esperar um outro Deus?”. Daí Dom Leonardo disse: “gostaríamos tanto
que fosse um outro, mais forte, mais retumbante, mais guerreiro, mais… Um
Deus de meus sonhos e necessidades, um Deus dos meus pedidos e promessas. Mas
não! Jesus é o Deus próximo, o aproximado, o de Belém, o filho de Maria, o
nosso filho, carne da nossa carne, sangue do nosso sangue”.
“Porque
esperar por outro, se Ele veio na nossa condição humana e nos enche de alegria
e esperança?”, se questionou Dom Leonardo, que respondeu que “é Ele mesmo e não
outro. Por mais que estejamos na espera de um outro, ele vem sempre como o de
Belém, como o do nascido do ventre de Maria”. Ele lembrou do texto que diz: “Então
feliz ‘aquele que não se escandaliza por causa de mim!’”, o que quer
dizer: “feliz daquele que não se afasta da mim, feliz de quem não desvia o
olhar de mim, feliz daquele que se aproxima de mim, feliz daquele que toca em
mim, feliz de quem me acolhe assim como um filho. Feliz de quem em Jesus
encontro as irmãs e os irmãos”.
O
Arcebispo de Manaus insistiu em que “não necessitamos
esperar por um outro, pois Jesus nos indica o encontro com as necessidades mais
fundamentais de nossos irmãos e irmãs: ouvir, falar, andar, vida nova,
saúde do corpo e do espírito. A fé em Deus que veio e está no meio de nós, ‘se encarna na
vida concreta. A fé não é uma teoria abstrata, uma teoria generalizada, não! A
fé toca a carne e transforma a vida de cada um’”, citando as palavras do Papa
Francisco.
Com o Salmo, Dom
Leonardo lembrou os motivos para o Senhor vir, chamando a “deixarmo-nos
tocar por Aquele que veio e, porque não necessitamos esperar por outro, façamos
em nossas casas um pequeno presépio”. E junto com isso a dizer: “Vem Deus
criança, alimenta nossa esperança. Vem Menino Deus reconcilia-nos,
humaniza-nos, ajuda-nos ser irmãos, irmãs em Ti!”.
Finalmente,
ele fez ver que “só Deus é capaz suscitar em nós a alegria transbordante que
une céu e terra. A alegria de celebrarmos o seu nascer e podemos ver a
dignidade da nossa humanidade e fragilidade”. Daí, o cardeal pediu que “nossos
passos se agitem e nosso coração entre em ânsia por estamos a caminho rumo a
Belém para ver o que Deus reservou para aqueles que o amam”, convidando a ir a
Belém e ver “Aquele que não é diferente de nós, o Emanuel, Deus conosco”.