O cuidado da casa comum é uma urgência, especialmente na Amazônia. Um chamado que em 2025 está sendo redobrado pela COP30 e pela Campanha da Fraternidade, que teve como tema “Fraternidade e Ecologia Integral”. Na arquidiocese de Manaus, um gesto concreto dessa Campanha foi a despoluição e saneamento dos igarapés de Manaus.
Uma proposta ousada, mas necessária
“Uma proposta ousada, mas necessária”, segundo salientou o vice-presidente da Cáritas Arquidiocesana da Manaus, padre Alcimar Araujo, na Abertura do 31º Grito dos Excluídos e Excluídas 2025 de Manaus, realizada no Parque Municipal do Mindu, na tarde do dia 29 de agosto, onde foi lançada a “Carta Compromisso, Água e Lixo não combinam”.

Uma iniciativa interdisciplinar, que quer ser o início de um processo de mudança com a participação de mais de 40 entidades, segundo enfatizou o vice-presidente da Cáritas Manaus. Entre os assinantes da Carta, além do arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Steiner, representantes do poder público, instituições ligadas à defesa do meio ambiente, ONGs, igrejas cristãs, povos indígenas, associações ambientais e partidos políticos.
Mais do que uma soma de estrategias
Uma iniciativa que “não é só uma soma de estratégias”, segundo o bispo auxiliar da arquidiocese de Manaus, dom Zenildo Lima. Ele enfatizou o que chamou de antropológico, “um dado de relação”, lembrando suas vivências infantis como manauara. O bispo disse que “a história da urbis em Manaus é uma história de relação com os igarapés”, que foram vistos como “empecilho para um projeto arquitetônico urbano”, o que levou a “soterrar, canalizar, fazer sumir os igarapés”.
Segundo dom Zenildo Lima, “isso entrou na vida da gente”, que lembrou que ele tomou banho ou seu pai pescou no Igarapé do 40, que atravessava sob uma ponte para ir para a aula. Na aula ele disse ter aprendido que “a água é um líquido sem cor, sem cheiro e sem sabor”, algo que no igarapé do 40 não era bem assim, em um tempo em que o lixo era despejado em qualquer lugar ou queimado no fundo do quintal.

Superar a visão negativa do igarapé
Uma realidade que fez com que fosse construído “um ethos, sempre criando polos e sempre criando relações, ora equilibradas, ora desequilibradas”, disse o bispo. Ele recordou que “a gente foi aprendendo a ter medo do igarapé, foi aprendendo a interpretar o igarapé como uma realidade negativa.” A partir dessa relação histórica entre os igarapés e a população de Manaus, o bispo auxiliar advertiu sobre a necessidade de tomar cuidado “para não criar novos inimigos”, recordando o lema da campanha “Lixo e igarapé não combinam”, dado que os resíduos devem ser vistos como matéria que pode ser aproveitada.
Nessa perspectiva, dom Zenildo Lima se situou como parte “dessa grande massa de manauaras comuns que tem que ser envolvidos neste processo.” Isso porque “se esta fosse uma luta apenas da sociedade organizada, a gente vai atingir alguns intelectos. Mas se tornar uma luta de um povo, a gente vai ter que atingir corações também.” Daí a importância da linguagem nessa iniciativa, disse o bispo, que afirmou que “nós estamos lidando com realidades sagradas”, recordando as palavras de louvação da Criação nos Salmos ou as palavras de São Francisco no Cântico das Criaturas.

Uma aliança interinstitucional
A Carta pretende “promover uma visão holística do meio ambiente e da justiça social, inspirada na Encíclica Laudato Sí do Papa Francisco”, e se tornar “uma aliança interinstitucional pela despoluição e saneamento dos igarapés de Manaus”, com objetivos e planos de trabalho coletivos. Parte de uma introdução, que explica o sentido do texto e relata a realidade social e ambiental, especialmente em Manaus, “localizada no coração da maior floresta tropical do mundo”, e quer ser “um documento que busca o compromisso de toda a sociedade juntamente com seus poderes constituídos, para a preservação e recuperação dos igarapés da cidade”.
Nessa perspectiva são propostas 11 ações, pedindo promover a educação ambiental; criar a Aliança Global Pela Despoluição e Saneamento dos Igarapés de Manaus; exigir o cumprimento da Lei sobre os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário em Manaus; reta aplicação de recursos públicos em políticas sociais e ambientais; acompanhar o cumprimento do Plano Municipal de Saneamento Básico; colaborar com a criação de um Programa Integrado de Saneamento e Despoluição de Igarapés construído de forma interinstitucional; políticas urbanas capazes de reduzir gradativamente a poluição dos igarapés; realizar a 1ª Conferência Municipal sobre os Igarapés de Manaus; fortalecer o Fórum das Águas; Projeto de Lei de Iniciativa Popular para aplicação de políticas públicas ambientais; fomentar a participação cidadã e a fiscalização. Um caminho longo, segundo reconhece a Carta, mas que não hesita no total compromisso os assinantes.



