“É a celebração da radicalidade da nossa vida. Porque Jesus foi ao mais radical da nossa existência humana, que é a morte”. Foram as palavras do cardeal Leonardo Steiner ao meditar as leituras da Celebração da Paixão do Senhor nesta Sexta-Feira Santa (3). O arcebispo de Manaus reforçou que o sentido dessa celebração é compreender que Jesus, ao vencer a morte, inaugura um “horizonte novo”, da morte como um processo de completude da vida. A celebração aconteceu no Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora de Fátima, no bairro Praça 14.
Desejados por Deus
Em sua reflexão, o cardeal destacou que a Sexta-Feira Santa é um privilégio para nós cristãos católicos. Nela, é possível perceber “o quanto fomos amados desejados por Deus” e como Ele “se entregou por cada um de nós” em sacrifício. Isto porque “o sumo sacerdote agora é Jesus”, explicou o cardeal, “que se oferece como sacrifício por todos nós, por toda a humanidade. Nós até poderíamos dizer para todo o universo”.
O arcebispo sublinhou que na Sexta-Feira Santa “recordamos o silêncio do mundo diante da morte”. Esse silêncio permite que ouçamos “mais facilmente o choro, o soluço”, mas também “repercute dentro de cada um de nós, especialmente quando se trata dos entes queridos mais próximos”. Essa repercussão, transfigura a sensação de perda dentro de nós no horizonte “extraordinário da ressurreição”, tornando-nos participantes na morte de Jesus.
“Vivemos desta certeza, de que Jesus morrendo na cruz, Nos trouxe a vida. Que Jesus crucificado nos indica a vida maior. Aquele que morreu na cruz, indica que a morte é incapaz de vencer a vida. Que a morte jamais pode vencer a vida. Porque Cristo morreu. Deu a vida por nós. E ressuscitou como celebraremos amanhã na vigília” explicou o cardeal.

Participar no sofrimento de Jesus
Para ilustrar “os nossos sofrimentos” e “as mortes” como participações no sofrimento de Jesus”, o cardeal Steiner recordou que ao encontrar um enfermo o convida a “pedir a Jesus que ele deixe você participar do seu sofrimento para a salvação do mundo”. Essa sugestão provoca um estranhamento inicial, mas, em seguida, a pessoa “é capaz de dizer: ‘eu gostaria de participar dos sofrimentos de Jesus’”. Pois, segundo ele, “os nossos sofreres são participações no sofrimento de Jesus”.
“Eu fico imaginando, por exemplo, tantas guerras que temos tido ultimamente só por cobiça de dinheiro. Quantas mães sofrendo? Quantas crianças sofrendo? Quantas crianças se tornaram órfãs? No mundo, eu fico olhando, meditando e pensando, todas elas participam da cruz de Jesus. E mesmo que elas não queiram, participam da nossa salvação”, enfatizou o arcebispo.

Olhar para Jesus crucificado
Evocando a memória de Papa Francisco, o arcebispo salientou que inúmeros santos e santas meditavam olhando para Jesus crucificado e a conversão de São Francisco de Assis aconteceu diante de uma cruz. Nessa perspectiva, o santo de Assis se tornou o amante da cruz, compreendendo que “era preciso reconstruir os corações”. Também em São Paulo, ao dizer “eu não anuncio, eu anuncio o Cristo crucificado, se encontra a radicalidade da fé cristã.
“Aqui está a grandeza da nossa fé. Devagarinho irmos tentando sondar, compreender, meditar, contemplar a morte, mas como vida, como eternidade, como participação na vida de Deus”, disse o cardeal.

Essa compreensão da grandeza de nossa fé perpassa as palavras de Jesus lidas no texto do Domingo de Ramos: “nas suas mãos eu entrego o meu espírito”. Porque nela está contida a participação na vida de Deus. Como disse o cardeal “sem nada mais. Tudo perdido. Tudo sofrido”, e no abandono “até o Pai” diz antes de expirar: “olha, o que eu tenho ainda te dou: o meu espírito”.
No recolhimento que antecede o Sábado Santo, os presentes retornaram à Catedral em procissão com a imagem do Senhor morto para veneração.



