O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, presidiu o 6° Domingo da Páscoa, 10 de maio, na Catedral Metropolitana de Manaus. Em sua homilia, o cardeal destacou que no Evangelho de hoje, Jesus apresenta “uma espécie de testamento de Jesus. Ele prepara os discípulos para caminharem na força do Consolador e confirma a sua presença: não os deixarei órfãos! Aos discípulos inquietos, Jesus promete o “Paráclito”. Será o Espírito Santo a conduzir a comunidade cristã em direção à verdade e levá-la a uma comunhão cada vez mais íntima com Jesus e com o Pai. Dessa forma, a comunidade será a “morada de Deus” no mundo, como ouvimos na liturgia do domingo passado, e dará testemunho da salvação que Deus quer oferecer a todos”, escreveu o cardeal.
O testamento entregue por Jesus é o amor! “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. É o amor a fundar e fundamentar os mandamentos que visibilizam a relação nova e renovadora, a dinâmica na qual somos convidados a ingressar e permanecer. “Ele nos ensinou a amá-lo, ao nos amar primeiro e até à morte de cruz. Por seu amor e sua dileção, suscita nosso amor por ele, que nos amou primeiro e até o fim. Foi assim mesmo: vós nos amastes primeiro para que vos amássemos. Não tínheis necessidade de ser amado por nós, mas não poderíamos atingir o fim para o qual fomos criados se não vos amássemos” (Guilherme de Saint-Thierry).
Sim, amar como Jesus nos amou e no seu amor guardar os mandamentos. Como nos ensina São João: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele” (Jo 14,23). “Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costume. (…) Se assim guardares a Palavra de Deus, certamente ela te guardará” (São Bernardo de Claraval).

O amor é a base de tudo
“Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade.” Como nos encanta as palavras de Jesus que ao viver o mandamento do amor atrai o Espírito Santo. Não é comovente percebermos que ao nos deixarmos mover e direcionar pelo mandamento do amor atraímos o Espírito Santo? Ele movimenta, ilumina e consolo as nossas comunidades, o caminho pessoal de cada seguidor e seguidora de Jesus. Papa Francisco ensinava que “Se me amardes”, observardes, é a lógica do Espírito. Muitas vezes pensamos ao contrário: se observarmos, amamos.
Estamos habituados a pensar que o amor deriva, essencialmente, da nossa observância, da nossa perícia, da nossa religiosidade; ao passo que o Espírito nos lembra que, sem o amor na base, tudo o mais é vão e que este amor não nasce das nossas capacidades, este amor é dom d’Ele. Ele nos ensina a amar, e devemos pedir este dom. É o Espírito de amor que põe em nós o amor, é Ele que nos faz sentir amados e nos ensina a amar. Ele é o «motor» da nossa vida espiritual. É Ele que move tudo a partir de dentro de nós. Mas, se não começamos do Espírito ou com o Espírito ou por meio do Espírito, não se consegue caminhar” (cf. Homilia 05/06/2022).
Testemunhas do Consolador
O “Paráclito” permanece sempre conosco. “Paráklêtos”, significa o advogado, auxiliar, defensor, o consolador, o intercessor. Jesus ensinou, protegeu, guiou, orientou, defendeu os discípulos, enquanto esteve com eles. Ele enviará o Espírito Santo, o “Paráclito”, o consolador e, no viver o mandamento do amor, o Espírito estará com eles, os guiará, os fortificará, transformará, os firmará na fé a ponto de darem a vida pelo Evangelho.
Também nós somos chamados a dar testemunho no Espírito Santo, a tornar-nos paráclitos, isto é, consoladores. Sim, o Espírito pede para darmos corpo à sua consolação, visibilizarmos, aproximando-nos das pessoas, sendo proximidade, compaixão! O Paráclito nos envia a anunciar que hoje é o tempo da consolação. É o tempo do anúncio do Evangelho, pois da consolação.
É o tempo para levar a alegria do Ressuscitado, não para nos lamentarmos do drama da secularização. É o tempo para derramar amor sobre o mundo, levando consolo. É o tempo para testemunhar a misericórdia, mais do que para inculcar regras e normas. É o tempo do Paráclito! É o tempo da liberdade do coração, no Paráclito (cf. Papa Francisco, idem).

O Paráclito conduz a Igreja
O Espírito ensinará e cuidará dos seguidores e seguidoras, das discípulas e discípulos de Jesus. O Espírito Santo conservará a memória da pessoa e dos ensinamentos de Jesus, iluminando-nos para interpretar a Boa Nova diante das realidades e desafios que vamos desvendando. É Espírito que guia, defende, aclara para enfrentar as contrariedades, as incertezas, as hostilidades. O Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não vê, nem o conhece, alimenta a esperança, fortalece o amor, confirma a fé. Contemplando a história da Igreja vemos que o Paráclito a conduz e a conduzirá até o fim dos tempos. O Defensor permanecerá sempre conosco.
“Não vos deixarei órfãos”! Não nos sentiremos órfãos ao vivermos do amor e com a certeza de que o Espírito permanece entre nós e está em nós. Ele em nós, não nos sentiremos privação: desamparados, carentes, separados, desiludidos, perdidos, desprezados, na orfandade. Ele, no aquecimento do amor, no consolo, na proximidade, a nos firmar e confirmar na pertença à filiação do Pai, à fraternidade do Filho. Nunca sós! jamais abandonados! Mesmo nas maiores dificuldades, nos desacertos e contradições, o Espírito a nos guiar, iluminar e aquecer.
A orfandade pode levar a uma verdadeira degradação nas relações. “Pouco a pouco, nos vamos degradando, já que ninguém nos pertence e nós não pertencemos a ninguém: degrado a terra, porque não me pertence; degrado os outros, porque não me pertencem; degrado a Deus, porque não lhe pertenço; e, por fim, acabamos por nos degradar a nós próprios, porque esquecemos quem somos e o «nome» divino que temos. A perda dos laços que nos unem, típica da nossa cultura fragmentada e desunida, faz com que cresça esta sensação de orfandade e, por conseguinte, de grande vazio e solidão.
A falta de contato físico (não o virtual) vai cauterizando os nossos corações, fazendo-lhes perder a capacidade da ternura e da maravilha, da piedade e da compaixão. A orfandade espiritual faz-nos perder a memória do que significa se filho, ser filha, ser netos, ser pais, ser avós, ser amigos, ser crentes; faz-nos perder a memória do valor da diversão, do canto, do riso, do repouso, da gratuidade” (Papa Francisco, Homilia 1º/01/2017). O Espírito que em nós está e nos vivifica vence a nossa orfandade, a solidão. Ele nos oferece o gosto do pertencimento, a graça da proximidade e cuidado para com aqueles que vivem sem a beleza de serem amados.
Razão da nossa Esperança
Nos Atos dos Apóstolos ouvimos que os samaritanos receberam a graça do conhecimento de Jesus. Mas foram plenamente inseridos na força do Evangelho pela imposição das mãos e a invocação do Espírito Santo por Pedro e João. O Espírito nos liberta da orfandade, ele nos consagra e insere na vida e na comunidade de fé.
É pela ação do Espírito Santo que somos levados a dar a razão da nossa esperança, como nos dizia Pedro na segunda leitura. Diante das dificuldades, diante da difamação, diante da morte, do sofrimento, deixar-se guiar pelo Espírito da mansidão, do respeito, da justiça, da bondade. O Espírito que nos concede a graça de “sofrer praticando o bem, se esta for a vontade de Deus, do que praticando o mal” (1Pd 3,15-18).
Ao celebrarmos hoje o Dia das Mães, recordamos que Deus fez da maternidade o caminho para o encontro com a humanidade. Pela força do Espírito Santo, Deus se fez um de nós no ventre da Virgem. Ele sabedor da graça de ter uma mãe, nos entregou a todos como filhas e filhos à sua Mãe e pediu, em São João, que a recebêssemos como mãe. Hoje, recordamos as nossas mães vivas e falecidas. A todas a nossa gratidão pelo cuidado materno e generoso dom da fé. Sejam na Igreja na sociedade a presença materna de Deus.

Oração: Bem sabíeis ó Deus, que o amor não pode ser imposto, mas que é necessário estimulá-lo no coração humano. Porque onde há coação não há liberdade e onde não há liberdade também não há justiça. Quisestes, assim que vos amássemos, pois não poderíamos ser salvos com justiça sem vos amar; e não poderíamos amar-vos sem receber de vós esse amor. Nós vos amamos com o afeto do amor que pusestes em nós. Mas, vosso amor, vossa bondade, é o Espírito Santo que pusestes em nós (cf. Guilherme de Saint-Thierry). Abençoe as nossas mães. Amém.
Texto integral do Cardeal Leonardo Steiner, Arcebispo de Manaus e presidente do Regional Norte 1 da CNBB, para a Homilia do 6° Domingo da Páscoa, 10 de maio de 2026.



