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5º Domingo Tempo Comum: Ser sal e luz é entrega gratuita ao Reino de Deus, é doar a vida pelo outro e por uma causa

No 5º Domingo do Tempo Comum a Ir. Rose Bertoldo nos faz ver que “o simbolismo do sal e da luz são extraordinários: o sal não pode salgar a si mesmo.  Sua capacidade não lhe é útil para nada. Mas é imprescindível para os outros. É para ser acrescentado a outro alimento, é para ressaltar seu sabor. O sal é feito para os outros, ele garante o sabor, com a condição de que se dissolva”. A religiosa do Imaculado Coração de Maria coloca “o desafio de sermos sabor na vida dos outros, aquilo que dá sentido desde as simples e pequenas coisas do cotidiano”. Em relação com a luz, a Secretária Executiva do Regional Norte1 da CNBB disse que “o tema da luz é muito frequente na Bíblia.  A importância da Luz para o desenvolvimento da vida. Não só porque a luz é imprescindível para a vida, mas porque o ser humano não pode desenvolver-se na escuridão. A luz símbolo da vida, ‘caminhar na Luz’. A luz sempre indica caminho”. Segundo a Ir. Rose, “a liturgia desse domingo nos convida a iluminar, ser luz e dar e ser sabor. Ser luz nestes tempos tão sombrios, diante de tantas violências, mortes, genocídio dos povos indígenas, destruição das florestas… Ser luz é repartir o pão com o faminto, é acolher nos nossos espaços o pobre, o peregrino, o migrante, a pessoa violentada, excluída”. Por isso, a religiosa afirma que “ninguém é ‘a luz’, mas cada um de nós tem um pouco de luz. Todos nós compartilhamos mutuamente a luz que vem de Deus. Nossa pequena luz reforça e ativa a luz presente no outro”. “A liturgia deste domingo nos convida a rezar a nossa presença e nossa atuação na realidade cotidiana e no encontro com os outros”, destaca a Secretária Executiva do Regional Norte1. Segundo ela, “Ser sal” e “ser luz” significa vida descentrada, servidora. E junto com isso, nos faz ver que “vale lembrar, o sal, para salgar, tem de desfazer-se, dissolver-se, deixar de ser o que era”. Em relação com a luz, convém lembrar que “a lamparina ou a vela produzem luz, mas o azeite ou a cera se consomem”. Por isso, “ser sal e luz é entrega gratuita ao Reino de Deus, é doar a vida pelo outro e por uma causa. Seguir Jesus é deixar que a Luz d’Ele transpareça em nossa vida”. Lembrando a Festa da Apresentação do Senhor acontecida no dia 2 de fevereiro, Dia Mundial da Vida Religiosa Consagrada, a religiosa afirmou que “centra-se na missão e incentiva a alargar a tenda. A missão alarga o espaço de nossa tenda e ensina-nos a crescer em sincera harmonia, fortalecendo os nossos laços, caminhando juntos, com a solicitude de Maria e com a sua profunda alegria”. A religiosa também lembrou do 8 de fevereiro, Dia Mundial de Oração contra o Tráfico de Pessoas, “convite a caminharmos juntos no enfrentamento ao crime que cerceia a vida de tantas pessoas”. A Ir. Rose, que faz parte da Rede um Grito pela Vida, que se dedica ao combate da exploração sexual de crianças e adolescentes, convidou a rezarmos “nesta semana que se inicia em comunhão com todas as pessoas que lutam para erradicar esse crime que atinge principalmente crianças, adolescentes e mulheres”. Junto com isso, a Ir. Rose pediu que “nos unamos em oração na festa litúrgica de Santa Bakhita padroeira de todas/os que sofrem pela violência do tráfico de pessoas. Ela nos inspira a rezar e nos conscientizar sobre esta ‘ferida aberta no corpo de Cristo, no corpo de toda a humanidade‘, que nos diz o Papa Francisco”. Por isso, finalizou pedindo que “sejamos sal que dá sabor e luz que ilumina o caminho”. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Todas as vezes que fizestes isso a um destes yanomami…

O Evangelho nos ilumina e nos desafia, nos confronta com aquilo que Deus através de sua Palavra vai nos propondo como caminho a ser seguido. Como batizados e batizadas, enxergar a presença de Deus naqueles com quem a gente se depara é um desafio, nem sempre fácil. O capítulo 25 do Evangelho de Mateus é um desses textos que tem que ser assumidos como condição indispensável para podermos dizer que nós somos discípulos e discípulas de Jesus. Ele nos diz: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequeninos, que são meus irmãos, a mim o fizestes“. Esses pequeninos aparecem cada dia na nossa frente, são o rosto de Jesus que procura e pede a nossa compaixão. Viver a samaritaneidade é um constante desafio, um termómetro que marca até que ponto nosso coração está aquecido. Só um coração aquecido tem a capacidade de se deixar interpelar pelo sofrimento alheio, de enxergar que nos pequeninos é Jesus, é o mesmo Deus que está ao nosso lado. Ver os corpos doloridos dos yanomami, escutar os relatos de tantas situações que vivem em seu dia a dia, é algo que tem que mexer com nossa humanidade, mas também com nossa fé cristã. O Deus cristão não é alguém que fica distante, lá no céu, o Deus de Jesus Cristo é aquele que se faz gente, que se faz pequeno, aquele com quem nós nos deparamos cada vez que a vida coloca na nossa frente um destes pequeninos. Não podemos ignorar as mulheres, as adolescentes, que no meio da floresta estão sendo estupradas, violentadas, levadas ao suicídio. Tem que mexer com a gente os corpos de inocentes que boiam no rio porque não aceitaram a “lei do garimpo”. As crianças que sofrem desnutrição porque o povo yanomami já não pode mais plantar sua roça, tem que mexer conosco. As vítimas da malária porque os mosquitos se instalaram nas balsas de garimpo espalhadas na mata, não podem nos deixar impassíveis. É Ele que está nos olhando e é com Ele que a gente se tornou insensível. É Ele que está sofrendo, que está sendo crucificado na Cruz do lucro, na Cruz do Ouro, na Cruz da Injustiça, na Cruz de uma sociedade que virou as costas para esses pequeninos, para esses yanomami. Nunca esqueça que eles são seres humanos, que eles são filhos e filhas de Deus, que eles são nossos irmãos, nossas irmãs, que eles e elas são o próprio Cristo, que questiona minha consciência e me diz: enxerga minha presença, eu estou neste corpo sofrente, eu estou esperando por sua compaixão. Aprendamos a olhar com o coração, tenhamos um olhar humanizado, um olhar de fé, uma fé concreta, que não se dissipa em sentimentalismos, mas que mexe com nossos sentimentos e com nosso agir. Naquela aldeia distante, na beira daquele rio no meio da floresta, Deus está gritando, Jesus está me dizendo: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequeninos, que são meus irmãos, a mim o fizestes”. Será que tenho vontade de escutar seu clamor, seu grito de dor? Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1 – Editorial Rádio Rio Mar

Faculdade Católica do Amazonas: Fazer Teologia na Amazônia, lugar teológico onde Deus se manifesta de forma inculturada

O Sínodo para a Amazônia insiste na importância da formação na Igreja da Amazônia. Na Querida Amazônia, o Papa Francisco diz que “é oportuno rever a fundo a estrutura e o conteúdo tanto da formação inicial como da formação permanente dos presbíteros, de modo que adquiram as atitudes e capacidades necessárias para dialogar com as culturas amazónicas. Esta formação deve ser eminentemente pastoral e favorecer o crescimento da misericórdia sacerdotal”. Nesse caminho formativo, a Faculdade Católica do Amazonas, apresentada no dia 23 de setembro de 2022, inicia sua caminhada formativa no próximo dia 6 de fevereiro com uma Aula inaugural ministrada pela Dra. Marilene Corrêa da Silva Freitas, da Universidade Federal do Amazonas, que falará sobre “Educação e Ciência no Amazonas: Desafios e esperanças em tempos de ataque e democracia”, e o Padre Adelson Araújo dos Santos, SJ, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, que refletirá sobre “Teologia, Ecologia, espiritualidade e Cosmovisão Indígena: Ecos da Laudato Si e Querida Amazônia”. Segundo o Padre Adelson “esta nova Faculdade Católica do Amazonas é um dos frutos do Sínodo para a Amazônia, porque se nós vamos ler o número 114 do Documento Final do Sínodo, ali há esse claro pedido dos padres sinodais para que se pensasse numa Universidade Católica na região da Pan-Amazônia”. Mesmo estando localizada no Brasil, no Estado do Amazonas, “já é um sinal muito visível de que a Igreja daqui de Manaus, do Regional Norte1 da CNBB, busca responder a esse apelo do Sínodo que a gente acredita é inspirado pelo próprio Espírito Santo, que conduziu todo esse processo, desde a preparação até a sua realização e tudo o que veio depois, a Querida Amazônia, a criação da Conferência Eclesial da Amazônia”. O professor da Gregoriana, nascido em Manaus, reflete sobre as pontes que podem ser estabelecidas entre Roma, neste caso a Universidade Gregoriana e o ensino da Teologia e das Ciências Humanas na Amazônia, na Faculdade Católica de Manaus. Segundo o jesuíta, “tem a dar e receber entre ambas as partes. A Amazônia, ela leva um ar de renovação, um ar de novidade, um sopro novo do Espírito, próprio da forma como se vive a Teologia na Amazônia, não esquecendo que a Amazônia é um lugar teológico, um lugar onde Deus se manifesta de forma muito concreta, inculturada. E por outro lado, uma universidade com a tradição da Gregoriana, que tem toda uma solidez, uma experiência no ensino da Teologia, que poderá contribuir muito para integrar essa formação das lideranças das nossas igrejas locais, não só os padres e seminaristas, mas também os nossos leigos e leigas, também a Vida Consagrada, a Vida Religiosa, a Vida Missionária presente aqui na região”. O Sínodo, segundo o perito sinodal, “nos recordou a importância de que a nossa Teologia, o nosso estudo teológico, ele não seja um estudo abstrato, mas ele parta do que foi a própria experiência do Nosso Senhor Jesus Cristo, que se inculturou e se encarnou numa realidade, num contexto histórico cultural concreto e também anunciou o Reino de Deus a partir disso, de uma cultura própria, de uma situação geográfica, histórica, política, económica própria”. Daí, o Padre Adelson insiste em que “se nós queremos fazer uma Teologia com rosto amazônico não podemos virar as costas para as culturas presentes na Amazônia, e de modo particular as culturas dos povos ancestrais, dos povos originários, com todo seu saber, com toda sua experiência acumulada por milhares de anos”. O doutor em Teologia ressalta que “todo seu saber, a sua cosmovisão, a sua espiritualidade, a sua relação com a Criação, é algo que nós podemos como cristãos nos enriquecer bastantes”. Por isso, ele abouga em “estabelecer um diálogo de respeito, de enriquecimento mútuo e tudo isso é fazer Teologia a partir de um lugar concreto”. Nesse sentido, “um programa teológico voltado para a Amazônia tem que levar em consideração isto”, disse o Padre Adelson. O perito sinodal faz um chamado a “ajudar aos nossos seminaristas e padres da própria região amazônica, mas também missionários que venham de fora a aprender a como se relacionar com a própria geografia amazônica, que é bem diferente de outras partes do Brasil e do mundo”. Diante disso, ele coloca o desafio de “aprender a como nós vivermos numa região dominada por rios e por florestas, onde isso impõe até um ritmo diferente do tempo, as distâncias enormes, e tudo isso nos leva a aprender a ler a própria Palavra de Deus, a meditar a Palavra de Deus, a ação desse Espírito Santo presente aqui nessa região de um modo que é bem do jeito com que os nossos ribeirinhos, as nossas populações autóctones já vivem. E nós temos que saber fazer Teologia também a partir disso”.  Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Cardeal Steiner: “Sem a retirada do garimpo, sem a reestruturação da saúde, o Povo Yanomami não terá futuro”

Neste momento tão difícil do Povo Yanomami, O Cardeal da Amazônia se fez presente para visitar os indígenas e impulsar caminhos que já estão sendo trilhados pelas organizações indígenas e pela Igreja católica. Uma voz firme e profética, que deixou claro que “sem a retirada do garimpo, sem a reestruturação da parte da saúde, o Povo Yanomami não terá futuro”. Uma agenda apertada, mas que foi oportunidade para visitar os doentes, se encontrar com as lideranças indígenas, cada vez mais organizadas, com representantes da Diocese de Roraima, sempre presente na defesa dos povos originários, e com a imprensa local, nem sempre interessada na pauta indígena, mas que segundo o Cardeal Leonardo Steiner tem um papel decisivo na construção de uma sociedade justa e fraterna. A todos chamou a se dar as mãos e trabalhar juntos, para assim ajudar que não morram mais crianças indígenas, que são a riqueza e o futuro dos povos. Na Diocese de Roraima moram mais ou menos 120 mil indígenas, deles 80 mil vivem nas 32 terras indígenas homologadas, segundo informou o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ao Cardeal Steiner. Uma população que é vítima de uma situação muito complexa, mas que não é nova e que tem sido denunciada inúmeras vezes. As causas estão no garimpo, sustentado na violência, que levou a se tornar algo comum o farto de ver corpos boiando nos rios, e no abandono da Saúde Indígena, aumentando exponencialmente os casos de malária e desnutrição. Junto com isso, a exploração sexual no garimpo, inclusive de menores, e a morte violenta de mulheres indígenas, visando a desaparição dos povos originários e suas culturas, uma realidade que denunciada pelos próprios indígenas, tem impactado fortemente a Dom Leonardo. De fato, as estatísticas dizem que 70% das mulheres assassinadas em Roraima nos últimos anos morreram no garimpo, uma realidade forjada na violência e controlado pelo crime organizado chegado de outras regiões. Uma violência que é reproduzida na cidade de Boa Vista, que tem como consequência uma sociedade cada vez mais dividida e omissa. Conhecer essa realidade foi agradecido pelo Cardeal Steiner, que destacou a importância de juntar a documentação em vista da abertura de um processo. Dom Leonardo chamou a viver este momento difícil e desafiante desde uma experiência de fé e com um sentimento de esperança, que o Cardeal vê numa Igreja atenta e disposta ajudar os indígenas, que se faz presente no fato de hoje contar com os indígenas, algo que ele considera um passo enorme e que se faz presente no fato de que hoje existe o Ministério dos Povos Indígenas, dirigido pelos próprios indígenas, e a FUNAI também está dirigida por indígenas. Dom Leonardo chamou os membros do CIMI e das Pastorais Sociais, para quem pediu que Deus lhes dê ousadia e coragem, a se juntar aos indígenas e dá-los o protagonismo, a contar com sua cultura e modo de ser, buscando junto com eles saídas, também em diálogo com o novo governo, mas sabendo que o governo não faz tudo. Nesse sentido, a Igreja é desafiada a fazer pressão em favor dos povos indígenas como testemunho do Evangelho, desde uma atitude samaritana. Uma Igreja que crê na forças dos pequenos e que em Roraima sempre viveu em tensão por estar ao lado dos pequenos, uma Igreja que lembrando as palavras de Dom Pedro Casaldáliga é chamada a viver esperançada. Uma visita para comprovar a extrema dificuldade do Povo Yanomami, que sofre com a desnutrição, segundo o Cardeal pode ver, mas também é vítima do garimpo que invadiu suas terras e da falta de saúde. Tudo isso consequência de um governo que não cumpriu com sua responsabilidade diante dos povos indígenas, fechado ao diálogo e que tentou invisibilizar aos povos indígenas, provocando um verdadeiro desespero, um verdadeiro genocídio, insistiu Dom Leonardo. Algo que representa um chamado para o governo, as organizações indígenas e a Igreja, desde uma sensibilidade evangélica, a poder “levar alento, mas também ajudar no futuro”, que passa pela retirada do garimpo, e a reestruturação da Saúde. Sempre em vista de que “nós não possamos no futuro passar por uma catástrofe tão grande em relação aos povos originários como está a acontecer com o Povo Yanomami”. Para isso se faz necessário “abrir os olhos para perceber a necessidade de estar mais próximos como Igreja”, uma proximidade que também deve fazer parte da agenda do governo. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Proximidade e solidariedade do Cardeal Steiner em visita ao Povo Yanomami em nome do Papa Francisco e da Presidência da CNBB

A Igreja da Amazônia foi mais uma vez ao encontro dos povos indígenas, eternas vítimas de um sistema que não duvida em colocar o lucro acima da vida das pessoas. Dom Leonardo Steiner, o Cardeal da Amazônia, chegou em Boa Vista, capital do Estado de Roraima, para mostrar em nome do Papa Francisco e da Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sua solidariedade com o Povo Yanomami. O Cardeal da Amazônia, que foi acompanhado pelo Padre Lúcio Nicoletto, administrador diocesano de Roraima, e o Padre Corrado Dalmonego, um dos grandes conhecedores do mundo yanomami, afirmou vir a Boa Vista “para me encontrar com lideranças indígenas para um diálogo, para uma escuta, para assim podermos como Igreja ainda estarmos mais presentes”. Depois de visitar doentes na Casa de Saúde Indígena Yanomami em Boa Vista, o Arcebispo de Manaus insistiu em que “a Igreja católica sempre se fez muito presente junto aos povos indígenas, e nesse momento de dificuldade aqui no Estado de Roraima, especialmente junto ao Povo Yanomami, nós queremos marcar essa presença”. Sua visita na SESAI, foi momento em que ele esteve “conversando, dialogando, vendo as necessidades e realmente a situação de desnutrição é muito grande, é preocupante”. Segundo o Cardeal Steiner, “os motivos todos nós já sabemos, o por que da desnutrição, mas em diálogo agora com algumas lideranças, nós percebemos que existem diversos elementos onde nós podemos dar a nossa contribuição, ajudar”. Ele ressaltou que de parte da Igreja católica, “nós queremos ser solidários, são filhos e filhas de Deus, são pessoas que vivem em regiões distantes, que são povos desassistidos pelo governo nos últimos anos e nós sabemos que a dificuldades que estamos a ver não é nova”. O Arcebispo de Manaus destacou o trabalho de denúncia realizado pela Igreja nos últimos anos, sobretudo através do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que “durante muito tempo tem denunciado, tem falado, tem publicado inclusive relatórios e nós queremos neste momento mostrar a nossa proximidade, nossa solidariedade e vermos com os governos o que podemos fazer para que esses povos possam continuar a viver, mas possam especialmente viver e viver bem”. A visita de Dom Leonardo em Boa Vista continuou com um encontro com lideranças indígenas na sede do Conselho Indígena de Roraima (CIR). O Cardeal, que recebeu o informe “Yanomami sob ataque”, um relatório sobre a violência contra o Povo Yanomami, entregue em abril de 2022 aos 3 poderes, executivo, legislativo e judiciário, onde são recolhidos depoimentos e dados que mostram os efeitos devastadores do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, enfatizou a necessidade de articulação das organizações indígenas, que na atualidade contam com pessoas muito bem-preparadas e altamente organizadas. Dom Leonardo fez saber às lideranças indígenas o apoio do Papa Francisco, a quem enviará um relatório de sua visita, e da Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Posteriormente foi escutando as dores do Povo Yanomami, que segundo as lideranças se resumem em quatro elementos: garimpo, desnutrição, fome emergencial e malária. Eles reconhecem o apoio histórico da Igreja de Roraima aos povos indígenas, insistindo em que não é novidade o que está acontecendo. Diante desse cenário alarmante, as organizações indígenas, que se reconhecem mais estruturadas para enfrentar, denunciam a tentativa da mídia de esconder a realidade e afirmam que a maior bandeira é defender a vida dos povos. Segundo as organizações indígenas, boa parte do Povo Yanomami está morto espiritualmente pela destruição da floresta, pelos assassinatos e ataques de todo tipo que sofrem, humilhações, estupros, roubo de crianças, suicídios, todos eles consequência do garimpo, que tem levado 120 comunidades Yanomami a estar em situação de grave calamidade. As lideranças não duvidam em dizer que “quem está matando é o garimpo, que está na Terra Indígena e na cidade”, insistindo em que “o garimpo está banhado de sangue”, algo que acontece à vista de todos em Roraima. Por isso, eles pedem, como tem pedido em todas as instâncias, inclusive governamentais, a retirada imediata dos garimpeiros, a proteção do território e das lideranças indígenas. Um desafio a longo prazo, que pode provocar muita dor no povo, e que tem que começar com a identificação e punição dos verdadeiros culpados, dentre eles os membros dos diferentes poderes e as redes de criminosos que apoiam e financiam o garimpo, o que demanda estratégias de proteção e segurança. De fato, as pessoas que denunciam são ameaçadas e cada vez são mais os jovens yanomami que envolvidos em atividades ilícitas apoiam os criminosos. As lideranças indígenas agradeceram ao Cardeal Steiner sua presença na região em um momento muito difícil para os povos indígenas de Roraima. Eles insistiram em que não foi por falta de aviso, suplicando que “nos ajudem, não nos deixem passar mais por essa situação. Vocês agora têm conhecimento do que nós estamos passando”. Um pedido que encontrou eco no Cardeal da Amazônia, que reconhecendo que as exposições das lideranças tinham lhe ajudado muito, lhes mostrou o desejo da Igreja de caminhar junto aos povos indígenas. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Seminaristas indígenas: “Muitas vezes temos vontade de estar no seminário, mas as pessoas pensam que a gente não tem capacidade”

Fomentar e cuidar as vocações indígenas é um desafio para a Igreja da Amazônia. Aos poucos essas vocações vão surgindo e vão avançando em seu processo formativo. Genilson Morais e Hércules Vitorino são seminaristas da Diocese de Alto Solimões. Nascidos no município de São Paulo de Olivença, Genilson é do Povo Kokama e Hércules do Povo Ticuna. Ambos vão começar o 3º Ano de Filosofia no Seminário São José da Arquidiocese de Manaus, onde se formam os seminaristas das 9 dioceses e prelazias do Regional Norte1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Hércules vê o ser seminarista como “um espelho para o indígena”, e junto com isso poder mostrar “como fazer realidade um padre indígena”, poder “mostrar a fé do povo ticuna e mostrar a fé ao povo ticuna”. “Mostrar para as pessoas que a gente tem coragem de ser seminarista”, acrescenta Genilson, que diz que o seminarista indígena “muitas vezes tem vontade de estar no seminário, mas as pessoas pensam que a gente não tem capacidade”. Ele insiste na importância do seminarista indígena estar no meio de outras pessoas “para também dar coragem aos outros, para também eles se sentirem tocados e descobrir que eles são capazes de entrar no seminário”. Diante da possibilidade de um dia ser padre indígena ticuna, Hércules destaca como é legal “quando a gente volta para a aldeia, o povo fica olhando para o seminarista que retorna para ser padre”. Ele destaca a importância dos padres indígenas no trabalho evangelizador desde a interculturalidade, algo que considera diferente ao trabalho de outros padres não indígenas. Nesse sentido, Hércules destaca as mudanças que acontecem a partir da cultura, mesmo reconhecendo que o Espírito de Deus é o mesmo. Genilson destaca como o povo de suas comunidades fica bem animado quando eles voltam. Mesmo sendo de outro povo, ele ressalta que “as pessoas ficam bem felizes porque sentem tocados, um de nós está lá, e agora é padre”, o que leva o povo todo a ficar animado, segundo o seminarista do Povo Kokama. Algo que mexe com as outras pessoas, que as leva a sentir interesse para que seus filhos sejam padre, sejam tocados pelo chamado de Deus. Um padre indígena que está mais presente com sua comunidade, ajudando, a comunidade fica também animada quando tem um padre indígena, que entende a sua cultura, que estende os seus rituais. Daí a importância de se formar para isso, destaca o seminarista Genilson. Os seminaristas estão sendo fonte de inspiração vocacional para outros jovens indígenas, algo que leva o seminarista Hércules, tendo em conta o 3º Ano Vocacional que está sendo realizado no Brasil, a falar da importância de chamar os jovens para ser vocacionados, seminaristas, religiosos, mas também para outras vocações, pois “esse chamado de Deus é a situação mais importante que existe”, segundo Hércules, que diz que “eu que vou animar eles, eu que vou dar um conselho para eles, desde a cultura e as comunidades do Alto Solimões onde eu vivia”. “A Igreja também anima as comunidades para se despertar para encontrar vocações”, afirma Genilson, que vê essa animação vocacional como oportunidade para conhecer as diferentes vocações. De fato, o seminarista diz que “a comunidade também ajuda para despertar vocações”, algo que acontece nas convivências vocacionais, onde “você se sente tocado a viver essa experiência vocacional e cada dia mais focar no chamado de Deus”. Recentemente os dois seminaristas participaram I Experiência Vocacional Missionária “Pés a Caminho”. Hércules diz em relação com esse momento que “eu me despertei que um dia se Deus quiser vou ser padre”, sendo essa uma oportunidade para pensar em como organizar o jeito de Jesus que ensina o povo, onde Jesus pregava o Evangelho, onde Jesus foi, como Jesus vai conhecendo, o que o levou a pensar em sua vida e caminhada, que o leve a estar mais próximo de Deus e ter a vontade de realizar a missão. Nas visitas durante a experiência missionária e nos testemunhos escutados, Genilson diz que “esse testemunho me despertou cada dia mais para continuar enfrente, porque vendo o testemunho na experiência vocacional, desperta cada dia o chamado ardente de Deus”. Também destaca que foi oportunidade de conviver e conhecer a realidade do povo, para despertar o sentido de sua caminhada vocacional e sempre continuar em frente nessa caminhada. Refletindo sobre o trabalho que está sendo realizado com o Povo Ticuna pela paróquia São Francisco de Assis de Belém do Solimões, onde a dimensão intercultural está sendo muito valorizada, o seminarista Hércules diz que na sua paróquia é muito importante que nas comunidades, como acontece na sua, é o povo mesmo que faz parte do grupo dos missionários e missionárias, algo que tem se espalhado nas comunidades. Segundo ele, “a vontade de Deus, o ensinamento de Jesus é muito valorizado na minha aldeia”. Um trabalho pastoral durante o ano que no caso do seminarista Genilson. Que acompanha realidades indígenas na cidade de Manaus, faz com que ele possa ir “conhecendo muitas realidades diferentes”, insistindo em que “a vida dos povos indígenas em Manaus ajuda a gente a estar unido em um laço”, destacando que vai sendo um trabalho diferente para que “também eles possam compreender que nós da Igreja católica fazemos uma catequese desde o conhecimento de cada um”. Um trabalho que ajuda na sua vocação, conhecendo a realidade de cada povo, que tem sua cultura e tradição, algo que é incentivado a realizar para que não acabe sua cultura, para que continuem suas danças, músicas e tradições. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Missionários Ticuna evangelizando o Povo Ticuna

Missionários indígenas evangelizando os próprios indígenas. Nessa frase poderia ser resumida a Missão Ticuna realizada de 9 a 27 de janeiro de 2023 na comunidade Mari-Mari, da Paróquia de Tonantins, e na comunidade Patiá, na Paróquia de Santo Antônio do Iça, na Diocese de Alto Solimões. Estamos diante de mais um exemplo daquilo que nasceu do Sínodo para a Amazônia, o protagonismo indígena nos processos de evangelização. O trabalho realizado pelos 7 missionários e missionárias do Povo Ticuna, chegados das comunidades de Belém do Solimões, Vendaval, Piranha e Nupune, durante quase três semanas mostra sua doação e o compromisso com o Reino de Deus. A missão, coordenada pelo diácono Antelmo Pereira Ângelo, o primeiro diácono permanente do Povo Ticuna, que foi acompanhado pela sua esposa Lucinda, é um dos compromissos assumidos pelo Povo Ticuna na 3ª Reunião Geral Diocesana de Pastoral Ticuna, realizada 4 a 8 de janeiro de 2023, na Paróquia São Francisco de Assis de Belém do Solimões, buscando avançar numa evangelização intercultural, em fazer realidade uma Igreja com rosto amazônico e rosto indígena. Naquele encontro, ao longo de 5 dias de intenso trabalho, os participantes do encontro foram trabalhando em grupo e recebendo formação em torno aos 4 pilares que sustentam as Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária. Ao longo do tempo de missão, foi realizado um trabalho de formação, teórica e prática sobre a Palavra de Deus, a Catequese, o Dízimo, a Celebração Dominical da Palavra, a Vocação, um elemento que cobra especial importância neste tempo em que a Igreja do Brasil está realizando o 3º Ano Vocacional, a Ecologia, que faça realidade um maior compromisso no cuidado da Casa Comum, e a sobriedade, uma luta importante diante das ameaças do alcoolismo e as drogas. Segundo os missionários e missionárias tudo foi muito bem acolhido pelas comunidades, desde as crianças até os idosos. Uma acolhida que tem muito a ver com o fato de ser um trabalho missionário realizado em língua Ticuna e do jeito Ticuna, tendo em conta a própria cultura e cosmovisões. Tudo isso apareceu nas orações, nas dinâmicas, nos ajuris de limpeza, na partilha dos alimentos, ajudando assim a superar os desafios das longas viagens de motor rabeta, com fortes chuvas e sol quente. Mas sempre com a alegria presente na vida de cada missionário e missionária, que nasce do Amor de Deus e do povo. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1 Com informações e fotos do Blog Povo Ticuna de Belém do Solimões

Cardeal Steiner denuncia “A catarata da insensibilidade da alma que já não vê as necessidades do espírito e do corpo”

“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se… começou a ensiná-los em marcha os pobres de espírito”. Com as palavras do Evangelho de Mateus começou o Cardeal Leonardo Steiner sua reflexão do 4º Domingo do Tempo Comum. Lembrando também a segunda leitura, ele disse: “Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus”. O Evangelho, segundo o Arcebispo de Manaus, nos mostra que “somos vocacionados a uma vida de plenitude”, lembrando que nas Bem-aventuranças “porque chamados a viver o Reino de Deus, de sermos com Jesus, pobres em espírito, consolo, mansos herdando a terra com bondade, termos fome e sede de justiça, sermos misericordiosos, puros de coração, provedores da paz, herdeiros do Reino de dos Céus. Nas Bem-aventurados, no alegrai-vos e exultai, nos damos conta, da vocação a que fomos chamados: viver a graça do Reino de Deus, o modo de Deus”. Dom Leonardo identificou a Bem-aventurança com a perseverança “pelo deserto da injustiça, da perseguição”, mas também aqueles que são “perseverantes e caminhantes na santificação e misericórdia”, no consolo e na mansidão, na liberdade e na pureza de coração. Um caminhar sem “jamais deixar de seguir Jesus”, em um caminho onde “nos perfazemos bem-aventurados, bem-aventuradas, felizes!”.  Segundo o cardeal, “as Bem-aventuranças definem nosso modo de viver, de seguir a Jesus, de sermos os seus discípulos”. Para isso, temos que entender que “sermos discípulos, discípulas de Jesus, é ser chamado a ser bem-aventurado, bem-aventurada. Perseverar, caminhar, ousar fidelidade, não olhar para trás quando na aflição, na pobreza, na fome, na perseguição, no desconsolo, na injustiça. Perseverar, caminhantes no semear a paz, no espargir misericórdia, no habitar a mansidão. Movermos os pés e o coração quando os olhos já não enxergam mais a Deus, ofuscados pela violência, ambição, paixão. Serão purificados nossos olhos”. O desafio é viver “a lógica que o Reino de Deus nos oferece, pois oferece a misericórdia, a sinceridade de coração, a luta pela paz, a perseverança diante das perseguições, a pureza que deixa ver Deus”. Mas diante disso, ele questiona: “O que soa aos nossos ouvidos na cotidianidade?”, respondendo que é “a importância do eu, o egocentrismo, a força do dinheiro, do mercado, a comodidade, o poder, a segurança, a ganância, o acúmulo, bem-estar. A felicidade apresentada uma verdadeira ilusão, pois poder, liberdade aparente, não satisfazem a existência de uma pessoa”. Frente a isso a proposta de Jesus: “em espírito generoso, acolhedor, solidário, realmente livre!”.  Refletindo sobre a realidade, Dom Leonardo disse que “a vida nos é apresentada cheia de sorrisos, de danças, de prazeres. Um lugar onde não existe nem fome nem dor, nem choro nem lamento, sem aflição. Um mundo onde não há motivo e necessidade de chorar”. Isso contrasta com o felizes “os aflitos, porque serão consolados”. Segundo o Arcebispo de Manaus, “somos sempre necessitados de consolo e seremos felizes se formos consolo”. Diante do fato de vermos “que a força, a agressão, a violência são apresentadas como solução da convivência humana”, Dom Leonardo lembrou o que nos diz Jesus: “os mansos, possuirão a terra”, insistindo em que “os que realmente habitam, moram na terra, no Reino de Deus são os mansos, não os agressores”. Frente às “insinuações da injustiça com suas artimanhas e depredações”, fez ver a proposta de Jesus: “Felizes os que trilham o caminho da justiça e nela perseveram”. Numa sociedade onde “somos tocados pela realidade das ofensas, das agressões, o desprezo pela reconciliação, a surdez para com o perdão, a dureza com a fraqueza do outro”, Jesus nos diz: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”, vendo a felicidade naqueles que se deixam comover pela miséria e pelo sofrimento dos outros.   O cardeal denunciou a “catarata da ignorância, da insensibilidade”, que tomou conta dos nossos olhos. Ele insistiu em que “o Mistério não conta. Se significa algo, conta ideologicamente como imposição de ideias, perdendo a grandeza da fé, o crer”. É por isso que Dom Leonardo denuncia “a catarata da insensibilidade da alma que já não vê as necessidades do espírito e do corpo”, algo que podemos ver no que “está a acontecer com nossos irmãos e irmãs Yanomami”, que comparou com o acontecido no holocausto contra os judeus, dizendo abertamente que “perdemos nossa humanidade. É que perdemos o coração, vendemos a nossa alma. Só os puros de coração veem a Deus e veem a dignidade da pessoa humana e suas necessidades”. Em nossos dias a força, a violência, é “vista como solução; a guerra como dominação, subjugação”. Diante disso a proposta de Jesus é a paz, o que o leva a questionar: “Porque a guerra, a destruição, a violência? Por que essa matança?”. Em relação com a justiça do Reino, Dom Leonardo disse que “gera muitas vezes desconforto, desalojamento, perseguição. Mas, enquanto a justiça do Reino for nossa causa, estamos umbilicalmente ligados e alimentados pela força do Reino da verdade e da graça, do amor, da justiça e da paz”. Refletindo sobre o ser felizes dos que tem espírito de pobre, Dom Leonardo os identifica com “os que sabem viver com pouco, com o suficiente, com o que concede dignidade, confiando sempre em Deus”. Ele destacou a felicidade das “comunidades eclesiais com a força e alma de pobre, porque estará atenta e a serviço dos necessitados e viverá do Evangelho com mais liberdade”. Também, em relação aos sofridos, vê felizes àqueles “que vivem com coração benévolo, cordial e clemente”. Isso o levou a ver felicidade nas “comunidades eclesiais cheias de mansidão e acolhimento, pois serão uma dádiva para o nosso mundo agressivo e violento”.   Sobre a felicidade dos que choram, dos que padecem “injustamente sofrimentos, rejeição e marginalização”, Dom Leonardo disse que “com eles pode-se criar um mundo melhor, mais digno, mais fraterno”, algo que também destaca nas comunidades eclesiais que sofrem por ser fiéis a Jesus. O cardeal identificou os que tem fome e sede de justiça nos que “não perderam o desejo de ser justos e solidários, nem a força de construir um mundo mais digno e justo”, mas também nas “comunidades eclesiais que…
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Yanomami E Nós

“Ter de resisti à dor, à dor. Sem compreender por que à dor, à dor. Ter de suportar viver à dor, à dor. E sem merecer à dor, à dor. Se é esse o meu destino, quem é o algoz que me traçou. Quem me contaminou. Quem me doou a dor.” (Milton Nascimento) A dor e a revolta que afloram quando os olhos são agredidos pelas fotografias de crianças Yanomami esqueléticas, meio moribundas, lembrando as imagens da Biafra e do Holocausto! Humanos, esqueletos ambulantes, quase esquecidos dos passos. Aquelas imagens do passado acusavam a nossa desumanidade, a incapacidade de compadecimento, a perda da alma. As imagens de hoje a denunciar a segregação, a injustiça, a morte lenta de um povo, a perda de nossa alma. Alma no dizer do poeta: “quando a alma não é pequena”. Tudo pela ideologia do mercado, do dinheiro: ouro. O ser humano que ali habita não conta. São envenenados. Como lembra Davi Kopenawa: “Os Yoanomami nunca morreram de fome. Estou aqui, tenho 66 anos e quando era pequeno, ninguém morria de fome. Agora o garimpo está matando o meu povo e também os parentes Munduruku e Caiapó. Quando os indígenas ficam doentes, eles não conseguem trabalhar ou caçar.” Eis a causa da desnutrição, da morte. É pouco dizer do descaso das pessoas responsáveis pelos órgãos que deveriam preservar as terras, as águas, a “casa”, a cultura, a vida dos povos indígenas. As mais de 500 crianças mortas clamam por justiça! A justiça poderá resgatar a alma da nossa humanidade, da indiferença e agressão em relação aos que aqui habitavam antes da chegar dos europeus. Os bispos do Regional Norte I da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, manifestaram a sua indignação e solidariedade: “estarrecidos e profundamente indignados, estamos vendo as imagens dos corpos esqueléticos de crianças e adultos do Povo Yanomami no Estado de Roraima, resultado das ações genocidas e ecocidas do Governo Federal anterior, que liberou as terras indígenas já homologadas para o garimpo ilegal e a extração de madeira, que destroem a floresta, contaminam as águas e os rios, geram doenças, fome e morte. Mais de 570 crianças já perderam a vida.” (Presidência CNBB Norte I) Com Milton Nascimento repetimos a pergunta acusatória: “quem é o algoz que me traçou. Quem me contaminou. Quem me doou a dor.” As imagens não podem percorrer as trilhas do esquecimento e da indiferença. A dor é grande demais para que as autoridades e a sociedade brasileira se deixem tomar pelo momento e depois ingresse no tempo de um passado esquecido. Há necessidade urgente de responsabilização! A quanto tempo se está a denunciar a situação dos povos indígenas, a quanto tempo os indígenas a clamar por direito de viver e, no entanto, ignorados pelas autoridades e mesmo pelos grandes meios de comunicação. Como se não fosse Brasil, como se não fossem pessoas, como se não fossem filhos e filhas de Deus. Ou como diz o poema de Nascimento: “Homem não existe para ser só animal. A sua história é mais que corporal.” A esperança a guiar nossos desejos e propósitos, o horizonte da convivência e dignidade. Esperança, pois vemos que os indígenas assumem o Ministério e os Órgãos que devem estar a serviço desses povos. Esperança de que o Supremo Tribunal Feral julgue o quanto antes a RE 1.017.365 de repercussão geral. Indefinição sobre marco temporal abre brecha para perseguir lideranças indígenas, invasões, violência, morte… Vale lembrar que não é eles ou nós, nem eles e nós. Somos Yanomami E Nos!   Cardeal Leonardo Steiner Arcebispo de Manaus

Dom Evaristo Spengler: Vou para Roraima “em espírito de serviço e de prontidão para aquilo que Deus quer”

Nomeado Bispo da Diocese de Roraima num momento em que “estava pronto para continuar essa missão por muito tempo aqui no Marajó”. Mas em obediência à Igreja e com alegria, Dom Evaristo Spengler se dispõe para assumir sua nova missão. Essa nova caminhada, ele quer fazer de modo sinodal, enfrentando os desafios que fazem parte da realidade local, migrantes, indígenas, mas sabendo que “são desafios muito grandes, que não se podem enfrentar apenas a nível de Igreja, mas em comunhão com todos”. Em Roraima, Dom Evaristo chega “com grande espírito de escuta, com os olhos abertos, com os ouvidos atentos”, querendo se integrar numa Igreja marcada por um “espírito de descoberta do que Deus quer de nós a cada momento”. Sempre caminhando juntos, em unidade, buscando “o fortalecimento das nossas comunidades”. O senhor acaba de ser nomeado Bispo da Diocese de Roraima. Em sua primeira mensagem ao povo de Deus da sua nova Diocese o senhor mostra sua surpresa diante dessa nomeação. Como está vivenciando este momento em sua vida pessoal, mas também em sua vida como Bispo? Eu estou apenas seis anos aqui no Marajó e quando fui nomeado para a Amazônia vim com muita alegria. Nós iniciamos um processo sinodal na Prelazia no início do ano 2020 para preparar uma assembleia do povo de Deus que acontece a cada quatro anos, e fomos interrompidos pela pandemia, e só conseguimos após uma longa escuta nas comunidades fazer a assembleia agora em julho de 2022, e aí começamos a fazer o Plano de Pastoral, que foi aprovado em janeiro de 2023, há poucos dias. Haviam sido feitas novas nomeações para coordenações pastorais e estava pronto para continuar essa missão por muito tempo aqui no Marajó. Mas Deus apresenta suas surpresas, e quando o Núncio disse que o Papa Francisco havia me nomeado para a Diocese de Roraima, eu acolhi com muita disponibilidade e apertura de coração e com atitude de serviço. Eu sou franciscano e sempre quero ter essa obediência à Igreja, e vou com alegria a acolher esses novos irmãos que Deus me dá na Diocese de Roraima. Uma diocese que tem uma história, da qual o senhor é consciente. Como o senhor valoriza o que já foi vivido na Igreja de Roraima ao longo de mais de um século de prelazia e diocese e de mais de três séculos de evangelização? Eu sou muito grato a todo o trabalho realizado por todos os bispos, padres, religiosas, lideranças das comunidades e vou agora a me integrar nessa caminhada. Não vamos começar uma nova história, mas vamos continuar a história que já tem mais de cem anos e eu quero aprender com o povo, com os padres, aprender da realidade, estar atento ao que Deus quer para essa missão na Diocese de Roraima. É a soma dos dons, a soma dos valores, sempre na escuta dos sinais que Deus nos dá é que nós vamos fazer uma caminhada sinodal, caminhar juntos como povo de Deus. Uma diocese marcada por uma realidade social às vezes conflituosa, às vezes complicada, garimpo, povos indígenas, migrantes, desafios grandes para alguém que está chegando. Como o senhor pensa que podem ser enfrentados esses desafios? Eu já teria feito uma visita a Roraima, juntamente com a Comissão de Enfrentamento ao Tráfico Humano, em 2018. Infelizmente não pude estar lá, porque naquele período faleceu uma irmã minha e fui para o funeral. Mas sempre tive um acompanhamento próximo de toda a migração venezuelana que chega até Roraima, o trabalho feito na diocese, um trabalho grandioso, um trabalho competente, um trabalho que merece todo o nosso respeito e a nossa consideração. Também tenho acompanhado de muitos anos a questão dos indígenas yanomami. Eu lembro que a primeira vez que me chamou a atenção, estava fazendo um curso de seis messes no Chile e lá a gente ouvia muito poucas notícias do Brasil. Naquele tempo ainda não tinha a facilidade da internet e dos meios de comunicação como temos hoje. Eu assistia o principal jornal do país e durante seis messes só teve três notícias do Brasil, uma delas foi o massacre dos indígenas yanomami. A partir daquilo começou a me chamar a atenção a história desse povo, comecei a estudar mais, comecei a conhecer melhor. Agora recentemente essa tragédia humanitária que se desenvolve em relação a esse povo yanomami, pelo qual tenho grande respeito. A Igreja sempre esteve ao lado desse povo, e também eu chegando quero me colocar ao lado deles para estar resgatando cada vez mais junto com todos a dignidade, o respeito, ao nosso povo yanomami. A própria CNBB me fez uma comunicação de que está fazendo uma doação de cestas básicas, alimentação para o povo yanomami através da Diocese de Roraima. A Igreja está muito atenta, são desafios muito grandes, que não se podem enfrentar apenas a nível de Igreja, mas em comunhão com todos os homens e mulheres de boa vontade e também com todos os organismos institucionais poderemos ajudar o nosso povo a ter mais vida e vida em abundância. Pastoralmente, a Diocese de Roraima sempre foi uma Igreja viva, comprometida, com grande presença missionária. Dentro da dinâmica da sinodalidade que a Igreja está vivendo hoje, como o senhor pensa que pode ser continuado esse trabalho evangelizador? Eu vou com grande espírito de escuta, com os olhos abertos, com os ouvidos atentos, a toda a realidade do povo, à história já construída, a todas as forças que ajudam a esta Igreja a ser mais viva, e eu quero me integrar. Então vamos trabalhar com certeza com um espírito de sinodalidade, e é nesse espírito de descoberta do que Deus quer de nós a cada momento que vamos fazendo nosso caminho conjunto para frente. Caminhar juntos é muito importante, caminhar na unidade, caminhar de fato na busca do projeto de Deus. Caminhar na unidade não significa que todos pensem da mesma forma, mas com pensamentos diferentes. Com atitudes que convivem, o Deus que nos chama nos envia em missão para dar uma…
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