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Categoria: Artigos

Dom Altevir no Dia das Comunicações Sociais: “Utilizar os meios de comunicação com responsabilidade”

No 59º Dia Mundial das Comunicações Sociais, “uma data instituída pelo Papa Paulo VI em 1967 e vivenciada pela Igreja no dia da festa litúrgica da Ascensão do Senhor”, o bispo da prelazia de Tefé, dom José Altevir da Silva, enviou uma mensagem. Segundo ele, “é um momento de reflexão sobre o papel fundamental da comunicação na evangelização e no fortalecimento da comunhão entre os fiéis”. Dom Altevir lembrou que na prelazia de Tefé, “contamos com a graça de termos a Rádio Rural de Tefé, rádio de longo alcance que nos permite levar a Palavra de Deus a muitos corações, atingindo lugares distantes e aproximando-nos daqueles que, por diversas circunstâncias, não podem estar fisicamente presentes na comunidade, e também aos comunitários que sempre estão ligadinhos ouvindo nossos programas. A comunicação é, assim, um instrumento valioso para espalhar o amor, a fraternidade e a esperança”. O bispo lembrou o tema deste ano para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, proposto pelo saudoso Papa Francisco, “Partilhai com mansidão a esperança que está em vossos corações”. Segundo ele, “nos convida a refletir sobre a importância de comunicar com verdade e mansidão, especialmente em um mundo onde a desinformação e a concentração do controle das redes sociais ameaçam a autenticidade das relações. E neste dia da Solenidade da Ascensão do Senhor ao céu, dia que a Igreja celebra o Dia Mundial das Comunicações Sociais, somos chamados a ser testemunhas da esperança, a utilizar os meios de comunicação com responsabilidade e a promover um diálogo sincero e respeitoso”. Finalmente, ele pediu aos párocos e membros dos Conselhos Paroquiais, que “possam motivar, apoiar e criar onde ainda não tem, a PASCOM, oferecendo os meios, equipamentos e formação necessários de modo que possamos, como Igreja, renovar nosso compromisso com a comunicação inspirada pelo Evangelho, promovendo um ambiente de escuta, acolhimento e partilha”.  Para isso, o bispo pediu, “que o Espírito Santo nos guie para sermos instrumentos da verdade e da paz em todos os espaços onde nos comunicamos”.

Desrespeito a Marina Silva, mais um exemplo de uma economia que mata

O cuidado da casa comum, o cuidado da Amazônia, deve ser um compromisso de todos, ainda mais quando estamos comemorando 10 anos da encíclica Laudato si’. O desrespeito com a Ministra de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas acontecido no Senado Federal na última terça-feira, 27 de maio de 2025, é algo inaceitável. Além dos 10 anos da Laudato si’ o Brasil sedia no próximo mês de novembro a COP 30, uma conferência que tem como desafio fazer com que as decisões tomadas em outras conferências sejam assumidas de fato. Uma atitude que não tem muitos políticos brasileiros, que em vez de promover o cuidado da casa comum se empenham em promover uma economia que mata, segundo dizia Papa Francisco. Que representantes do povo da Amazônia, dentre eles senadores do Estado do Amazonas, tenham essas atitudes, é algo que deve levar os amazonenses a pensar em quem depositam sua confiança. O compromisso da ministra Marina Silva com o cuidado da Amazônia é algo que não pode ser questionado, uma atitude que claramente não está presente naqueles que a atacaram e desrespeitaram. No atual momento histórico e diante das graves consequências das mudanças climáticas, que tem provocado o aumento das temperaturas e estiagens cada vez mais prolongadas, o Poder Público, sobretudo o Poder Legislativo, cada vez mais dominado por grandes grupos econômicos, não pode continuar promovendo leis que aceleram o sofrimento da humanidade, especialmente dos mais pobres. Ainda mais usando argumentos mentirosos que tentam manipular a consciência das pessoas. A Boa Política, uma realidade cada vez mais incomum entre aqueles que em vez de cuidar do bem comum fazem politicagem, se fundamenta na capacidade de servir ao próximo, segundo Papa Francisco. Frente a isso, nos deparamos com políticos que procuram benefícios pessoais ou corruptos. A Ministra Marina Silva é alguém que faz política a partir de sua história de vida e de sua fé cristã. Ela conhece as condições de vida dos mais pobres da Amazônia a partir da própria experiência pessoal e sabe que o sofrimento daqueles que a sociedade descarta é muitas vezes consequência das decisões tomadas por grupos políticos aliados ao poder econômico. Junto com isso, como mulher de fé e conhecedora da Bíblia, a ministra entende que respeitar a Criação de Deus é uma exigência para todo ser humano, mas especialmente para aqueles que dizem ter fé. Não podemos continuar olhando para o outro lado, não podemos deixar passar batido esse tipo de atitudes. Os senadores são obrigados a ter atitudes respeitosas. Episódios como o acontecido com a Ministra Marina Silva no Senado, algo que se repete constantemente nos diferentes níveis do Poder Legislativo, desrespeitam a democracia e fazem com que o povo, aos poucos, perca seus direitos, que são trocados pelos interesses de uma economia que mata.

10 anos da Laudato si´: Impulsar a necessidade de cuidar a Casa Comum

No dia 24 de maio completa 10 anos da encíclica Laudato si´, um documento que impulsou a necessidade de cuidar da Casa Comum. Papa Francisco nos ajudou a ter maior consciência dos clamores da Terra e os clamores dos pobres, a perceber que sem o necessário cuidado, o futuro da humanidade, especialmente dos mais pobres, cada vez é mais complicado. O texto que agora completa 10 anos tem nos ajudado a entender que a salvação da humanidade e do Planeta exige o compromisso de todos. Nessa perspectiva somos chamados a fomentar a vida em comunidade, superando o individualismo que nos distancia dos outros, mas também nos afasta do mundo, criado por Deus não para ser dominado e sim para ser cuidado. Para isso se faz necessário entrar no caminho da conversão ecológica, uma proposta que Papa Francisco faz em Laudato si´. A grande questão é se nós queremos entrar nesse caminho de conversão, de mudança de vida que nos aproxime da ecologia integral, que tem em conta o cuidado do ambiente, mas também o cuidado das pessoas. Um chamado que é para toda a humanidade, mas que cobra uma força maior na Amazônia. Uma região que só aparece citada uma vez na Laudato si´, mas que inspira o texto escrito por Papa Francisco. A vida que flui na Amazônia, nos seus rios, florestas e povos se faz presente na primeira encíclica de Papa Francisco. Ele foi o Papa que voltou os olhos da humanidade para a região amazônica. O desafio é como dar continuidade a essa dinâmica do cuidado, como nos envolvermos cada vez mais na defesa da Amazônia e dos povos que a habitam. A Laudato si´, 10 anos depois de sua publicação, continua sendo um espelho onde nos olharmos como humanidade, como cristãos, mas também cada um e cada uma de nós, pessoalmente. Assumir a proposta de vida que aparece nas palavras de Papa Francisco é uma demanda que tem plena atualidade hoje. É tempo de olhar para frente, de continuar sonhando, seguindo a proposta de Papa Francisco na Querida Amazônia, uma exortação que nos ajuda a, reconhecendo os aportes do passado, construir um futuro melhor, sustentado no bem viver. Uma proposta de vida que tem acompanhado os povos originários a construir um modo de vida que enxerga a presença do Criador em todas as criaturas. Continuemos sonhando com as propostas de Laudato si´, com um modo de vida fundamentado no cuidado do ambiente, no cuidado das pessoas, no cuidado de toda criatura. Continuar sob a guia da Laudato si´ é o melhor modo de continuar o processo iniciado pelo Papa Francisco. Não desistamos no cuidado, pois isso nos faz melhores criaturas e a reconhecer a mão do Criador em tudo e em todos.

Cardeal Prevost – Leão XIV: Combate aos abusos e avanço na proteção dos vulneráveis

Sobre a questão do abuso “há uma continuidade absoluta, embora com nuances, nos últimos quatro papas”, diz Jordi Bertomeu, Oficial do Dicastério para a Doutrina da Fé e Enviado Pessoal para Missões Especiais. Uma luta contra os abusos que o Cardeal Robert Prevost, agora Leão XIV, assumiu, sem sombra de dúvida. São inaceitáveis as tentativas de difamá-lo e colocar em dúvida sua integridade, originadas em círculos próximos ao Sodalicio de Vida Cristã, com a colaboração da mídia relacionada, que chegou ao ponto de entrar nas congregações gerais antes do Conclave e assediar o então Cardeal Prevost. Medidas pastorais e não canônicas De acordo com Bertomeu, na década de 1980, a Igreja na América do Norte percebeu que o direito penal canônico, embora consagrado no Código de Direito Canónico de 1983, não estava sendo aplicado. Desde o Concílio Vaticano II, optou-se por resolver problemas graves de indisciplina com medidas “pastorais”, distinguindo-as das “canônicas”. Na maioria das dioceses, havia uma falta de estrutura judicial e de pessoal treinado, algo que foi percebido pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Ratzinger, a partir das visitas ad limina de bispos do mundo de língua inglesa e da Europa Central. Particularmente nos Estados Unidos, os bispos costumavam resolver os problemas causados por padres pedófilos fazendo acordos financeiros com as vítimas, mas logo perceberam que era quase impossível remover esses padres e diáconos do estado clerical. Diante dessa situação, Ratzinger pediu ao Papa João Paulo II, em 2001, uma mudança na legislação, lembrando a toda a Igreja que havia crimes muito graves reservados à Santa Sé, especificamente à Congregação para a Doutrina da Fé. O Cardeal Ratzinger estava, portanto, seis meses à frente da explosão do Spotlight em 6 de janeiro de 2002. Na primeira década do século atual, os principais casos a serem tratados serão nos Estados Unidos e na Europa Central, sociedades com maior qualidade de democracia e maior litigiosidade. Gradualmente, a inquietação das vítimas crescerá em outras partes do mundo, à medida que elas perceberem que também precisam de justiça. Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores e Vulneráveis Após o pontificado de Bento XVI, veio um papa latino-americano. Francisco, assim que chegou, deu um passo adiante e criou a Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis. Isso mostra que a Igreja leva o abuso a sério. Um divisor de águas ocorreu em 2018, com a crise que eclodiu no Chile. Lá, o Papa descobriu que, além do abuso, havia em muitos lugares um problema de encobrimento por parte de alguns bispos. Francisco, depois de conhecer pessoalmente as três vítimas de Karadima, reagiu pessoalmente. Como admitiu mais tarde a um jornalista, ele havia se convertido. Ele enviou o bispo Scicluna e o bispo Bertomeu ao Chile para investigar. Mais tarde, eles seriam seus olhos e ouvidos em muitas outras missões especiais. Em sua Carta ao Povo de Deus de 20 de agosto de 2018, Francisco colocou todos os abusos na Igreja no mesmo nível de compreensão: sejam eles sexuais, de poder ou de consciência. Depois, em fevereiro de 2019, ele também convocou os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo em Roma, talvez em uma tentativa de fazer com que toda a Igreja deixasse de ser “surda” aos abusos e reagisse imediatamente, tomando o partido das vítimas. Três temas foram abordados: transparência, responsabilidade e prestação de contas. Evitando que as alegações caiam em ouvidos moucos A partir dessa cúpula, Francisco deixou clara a necessidade de uma lei para evitar, de uma vez por todas, que as denúncias caiam em ouvidos moucos. O Papa percebe que existe uma lei, mas ela não é aplicada porque as denúncias não chegam ao público. Assim, em junho de 2019, foi emitido o Motu Proprio “Vos Estis Lux Mundi”, que obriga todas as dioceses do mundo a ter um escritório para receber, investigar e lidar com denúncias. Junto com isso, a responsabilidade criminal é estabelecida no caso de negligência no recebimento de reclamações. Da mesma forma, o Papa percebe que esse problema não pode ser deixado apenas para a hierarquia. De fato, ele percebe que todo tipo de abuso, seja de consciência, espiritual ou sexual, é fruto do clericalismo e do elitismo, daqueles que se consideram uma casta com privilégios que ninguém lhes concedeu. Uma nova fase está iniciando, na qual os abusos estão começando a ser confrontados de forma sinodal. A razão para essa nova dinâmica está no fato de que Francisco, nas palavras de Bertomeu, “percebe que a Igreja tem sido surda à realidade do abuso, que o abuso nada mais é do que o poder exercido de forma tóxica”. Abuso sexual e abuso de poder De acordo com Bertomeu, “há abuso sexual porque há abuso de poder e esse é sempre um exercício tóxico de poder que, na Igreja, deveria ser puro serviço”. Diante disso, ele ressalta a necessidade de “todo o povo de Deus entrar em uma dinâmica de repensar como o poder é exercido na Igreja”, algo que deve ser feito não de forma ideológica, mas teológica, ou seja, pensando em si mesmo como um povo de batizados que se põe a caminho, desinstalando-se de seus confortos, para olhar suas vidas à luz do Espírito Santo como um lugar de revelação de um Deus que está próximo a eles. Dessa forma, consegue entender que é “todo o povo de Deus que participa da tomada de decisões, porque todos são batizados, porque todos participam do mesmo Espírito, mesmo que haja uma parte do povo de Deus que tenha recebido um carisma especial para conduzi-lo”, enfatiza Bertomeu. Ele não tem dúvidas de que, diante dos abusos na Igreja, Leão XIV dará continuidade ao que Francisco tem feito. Ele dá como exemplo o que aconteceu com o Sodalício, onde “o problema não é tanto o abuso sexual de menores, mas um abuso de poder e de consciência de adultos muito vulneráveis”. É por isso que, nos últimos anos, querendo combater todos os tipos de abuso, a Igreja…
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Um Papa comunicador, interlocutor, evangelizador, que leve a caminhar juntos

O projeto do Papa tem sido um processo no qual os cardeais têm progredido nos últimos dias. As congregações gerais, que terminam na terça-feira, têm esboçado perfis que estão sendo gradualmente revelados e estão se concretizando em nomes. O que é necessário, ou pelo menos esperado, é um Papa, ou melhor, um papado, que não faça ouvidos moucos ao que o povo de Deus. O sensus fidei fidelium, está pedindo que o sucessor de Pedro continue o legado de Francisco, sem esquecer que ele continuará uma caminhada de quase dois mil anos. Nem fotocópia nem ruptura Sem buscar uma fotocópia, eleger um Papa que não rompa com o anterior e se abra ao futuro para que essa corrente milenar continue a mover a vida da Igreja e da humanidade. Essa relação com a humanidade é um ponto chave. E nisso, ninguém pode negar, ou ignorar, o legado de Francisco, um ícone para os próximos papados do que é um rosto mais humano da Igreja. Entre as qualidades do primeiro Papa latino-americano estava sua capacidade de ser compreendido, de sair do roteiro, de lançar slogans, com seu sotaque característico de Buenos Aires, de traduzir a profundidade do Evangelho na linguagem simples dos pobres. Não nos esqueçamos de que quando a Igreja complica a linguagem, a maioria das pessoas desligam. Em Francisco, encontramos palavras que curaram os corações dos descartados, que foram um bálsamo samaritano para uma humanidade ferida. Palavras que construíam pontes, mesmo com aqueles que pensavam diferente, defendendo a diversidade como uma riqueza no caminho da unidade. Escutar, propor, não impor, abraçar Quem quer que ocupe a cadeira de Pedro não pode ignorar o fato de que a Igreja é fiel ao Deus de Jesus Cristo quando se encarna, quando escuta, quando propõe e não impõe, quando abraça, quando carrega a ovelha perdida nos ombros, quando não fecha as portas para ninguém. Esses são elementos-chave na missão da Igreja, que é seu alicerce, e que ela deve realizar no mundo, que nunca pode ser visto como um inimigo. Pelo contrário, é para o mundo que o próximo pontífice deve dar respostas que ajudem a humanidade a encontrar caminhos de paz, modos de acolher os migrantes, atitudes que garantam que todos sejam respeitados como pessoas. Isso nos leva a alguns princípios que marcarão o próximo papado: Um comunicador e interlocutor, com o poder político, com o universo religioso e com o mundo virtual e tecnológico; um evangelizador sem meias medidas, que seja testemunha da Boa Nova com coragem e parresia, sem medo de assumir novos métodos que ajudem a aprofundar a mensagem cristã; um promotor do caminhar juntos, que escuta, que se deixa aconselhar por pessoas de dentro e de fora da Igreja, que avança no caminho da ministerialidade, da transparência em todos os campos, também na gestão dos recursos. Poucas horas antes de se trancar na Capela Sistina, o mundo está olhando para o Vaticano. Mas também, e acima de tudo, o santo povo de Deus, que reza para que os 133 cardeais encontrem um pastor na semana em que a Igreja se prepara para celebrar o Domingo do Bom Pastor. Um pastor para conduzir as ovelhas, para continuar a confirmá-las na fé, como Pedro fez, como Francisco fez.

Não pode se descartar a possibilidade de um novo Papa latino-americano

Medellín, Santarém, Aparecida, Francisco, o Sínodo para a Amazônia, a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA). Muitos outros poderiam ser citados, mas esses são exemplos claros de que o atual momento eclesial tem muito a ver com um processo que começou há 60 anos na América Latina. O Vaticano II marca a vida da Igreja A Igreja do continente com o maior número de católicos, mais de 400 milhões, é, sem dúvida, a que melhor entendeu e colocou em prática a doutrina do Vaticano II. E, embora alguns digam o contrário, é verdade que poucos, o último concílio ecumênico é o que marca a vida da Igreja universal, mas especialmente da Igreja que vive sua fé na América Latina e no Caribe. Na América Latina e no Caribe encontramos uma Igreja viva e profética, uma Igreja onde o Batismo é entendido como um sacramento que é o fundamento da vida eclesial. É uma Igreja ministerial, com protagonismo leigo, especialmente das mulheres. Muitas mulheres deste continente são a força motriz da vida das milhares de comunidades espalhadas pelo continente. Nas serras andinas, no meio dos rios e das florestas da Amazônia, nas periferias de muitas cidades, a Igreja continua viva graças ao compromisso das mulheres. Uma Igreja com um caminho comum Uma Igreja que, embora não seja fácil, está comprometida com um caminho comum há 70 anos.  O Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (CELAM) tem sido uma luz que tem guiado a caminhada da Igreja no continente, uma colegialidade episcopal que não foi alcançada em outros continentes. O CELAM formou muitos católicos, não apenas clérigos e religiosos, mas também, e acima de tudo, leigos. Esse conselho episcopal tem sido uma voz profética em defesa dos descartados, dos povos originários, dos migrantes, dos afrodescendentes, de todos, de todos, de todos. Os 23 cardeais da América Latina e do Caribe que entrarão na Capela Sistina na tarde desta quarta-feira representam um número nunca antes visto. No conclave de 2013, no qual Francisco, o primeiro Papa latino-americano, foi eleito, havia 20 eleitores. Sabemos que esse não é um grupo decisivo, mas ninguém pode negar o peso que eles podem ter no processo de votação. Um conclave diversificado Tudo depende de sua duração, algo imprevisível no conclave mais diversificado dos últimos séculos, no qual a presença de curiais e italianos diminuiu significativamente, e o número de países representados aumentou para 71. Além disso, o número de eleitores subiu para 133, ultrapassando em muito o número de 120 determinado por Paulo VI. Esse número aumenta para 89 o número de votos necessários para ser eleito. Ninguém descartaria a possibilidade de um novo papa latino-americano. Isso significaria continuar o legado de Francisco, um sentimento amplamente aceito pelos cardeais eleitores. Poucos querem romper com o último pontífice, alguém em quem muitos veem aquele que encheu a Igreja de vida por meio do poder do Espírito. Um Espírito que está presente na Igreja latino-americana e que trouxe para o Vaticano e para a Igreja universal o primeiro papa vindo desse continente. Gratidão a Francisco Um Papa a quem a maioria do catolicismo e da humanidade expressa um sentimento de gratidão, reconhecendo o trabalho árduo e admirável de alguém que trabalhou até o último dia em defesa da paz, dos mais vulneráveis e da própria Igreja, sobretudo aquela que vive sua fé nas periferias. Eu não diria que entre os 23 eleitores latino-americanos há um clone de Francisco, já que o próximo pontífice virá, com toda probabilidade, dos 133 eleitores. O que ninguém pode negar é que vários desses eleitores latino-americanos dariam continuidade a um papado que tem sido capaz de responder aos desafios que a Igreja e a humanidade têm exigido nos últimos 12 anos. A necessidade de continuar nesse caminho está presente no pensamento da maioria dos 133 cardeais que elegerão o sucessor do primeiro papa latino-americano. A possibilidade de que seu sucessor venha novamente dessas terras é uma possibilidade que não se ousa descartar. O mundo aprovou e reconheceu o trabalho de Francisco, então por que não continuar na mesma direção por mais algum tempo?

Um Papa despojado, servidor, semelhante aos homens

O hino de Filipenses 2:5-11 poderia ser considerado um bom termômetro a ser usado pelos 133 cardeais que, na tarde de quarta-feira, 7 de maio, às 16h30, entrarão na Capela Sistina. Na tarde de terça-feira, eles terão que estar na Casa Santa Marta, isolados do mundo exterior, para o qual é proibido qualquer dispositivo que permita a comunicação com o mundo exterior. Os quartos e a bagagem dos purpurados serão revistados. Um Papa despojado O propósito é eleger o sucessor de Pedro, mas também, e ninguém pode se esquecer disso, o sucessor de Francisco. No último pontífice, podemos dizer que as palavras de Paulo aos Filipenses se tornaram realidade: “Ele se esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens”. Alguns de seus amigos, quando o encontraram, comentaram que haviam estado com Jorge. Uma maneira de se referir ao Santo Padre que de forma alguma desmerecia o que ele era, o Sumo Pontífice, embora ele mesmo gostasse de ser considerado o Bispo de Roma. Francisco foi um Papa de sinais, com muitos detalhes que deveriam ser levados em conta por seu sucessor. Esses detalhes sempre tiveram grande aprovação dentro do catolicismo e entre muitas pessoas que não eram católicas ou não tinham uma prática religiosa frequente. Embora alguns possam pensar que tinha uma forte oposição, foram poucos os que pensaram dessa forma, embora seja verdade que eles tinham poderosos instrumentos de difusão de suas teorias na mídia, especialmente nas redes sociais. Os sinais de Francisco Seus sapatos, suas roupas litúrgicas, sua maneira de se comunicar, não apenas com as palavras, mas também com os gestos, a maneira como se vestia, o modo como ele se locomovia, em carros populares, sua renúncia a privilégios, presentes, sempre insistindo em pagar suas contas… são sinais do que ele tinha em seu coração, que nos mostram sua determinação de se despojar, de ser um servo, de ser semelhante aos homens, de ser um entre muitos. Entre os cardeais escolhidos por Francisco, especialmente entre aqueles que vieram das chamadas periferias, encontramos muitos exemplos disso. Um papa que busca retornar a elementos que possam diferenciá-lo teria um impacto negativo em seu papado. A pompa é mal vista pela maioria das pessoas, e querer usar sinais que se refiram a isso, uma prática entre alguns cardeais, até mesmo entre alguns dos considerados papáveis, não seria o caminho a seguir. Nenhum papado autorreferencial Um papa que procurasse se divinizar estaria se distanciando Daquele que, sendo de natureza divina, assumiu a natureza humana. Um papado autorreferencial, vivendo em seu próprio mundo, com pouco contato com as preocupações do povo, distanciaria ainda mais a Igreja do mundo, que, não nos esqueçamos, é o destinatário do anúncio do Evangelho. Aqueles que acusaram Francisco de ser um populista são aqueles que fizeram campanha pelo retorno de uma Igreja distanciada do mundo, o que na realidade a tornaria uma Igreja ignorada pela grande maioria. Se pedirmos e esperarmos a presença do Espírito na Sistina, que seja o mesmo Espírito que inspirou as Escrituras, o mesmo Espírito em nome do qual o Ressuscitado enviou seus discípulos. Que nenhum discípulo, nem mesmo o próximo Papa, tenha medo de se abaixar, de servir, de assumir a condição humana. O Evangelho não pode ser imposto de cima para baixo, ele é compreendido e assumido melhor quando é proclamado olhando-nos nos olhos, quando descemos do pedestal no qual nos colocamos ou no qual gostaríamos estar.

Um Papa sem medo de sujar seus sapatos

A cada dia que passa, o ritmo cardíaco vai acelerando. A poucos dias do início de um Conclave incerto, embora haja nomes circulando, fala-se mais de atitudes, de maneiras de entender a Igreja e o papado. As poucas informações que saem da Sala do Sínodo, onde ocorrem as congregações gerais, dão origem a indagações, embora também possamos dizer que elas nos levam a sonhar. A missão é fundamento da Igreja Há elementos que não podem ser ignorados; eles são fundamentais para ser uma comunidade de discípulos e discípulas. Ninguém pode ignorar o fato de que a missão é o alicerce da Igreja. O mandamento de Jesus aos seus discípulos, incluindo todos nós que somos ou queremos ser hoje, obviamente todos os cardeais e o possível Papa, é “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”. Pode ser usado o argumento de que todos os cardeais consideram a missão como algo fundamental em suas vidas, mas quando se fala em missão, pensa-se em realmente ir até os confins da terra. Trata-se de chegar às periferias, como Francisco tanto disse, especialmente naqueles lugares onde você suja os sapatos e entre aqueles com quem você pode sujar as mãos. Um Papa samaritano Esse é um perfil que não falta entre os eleitores. Há vários cardeais sem pompa, homens simples que já percorreram muitos quilômetros em estradas empoeiradas, que nunca tiveram o menor receio de se misturar com os descartados, de levantar os vulneráveis, de se mostrar samaritanos. Para que a misericórdia se torne carne, estender a mão aos pequenos é uma premissa necessária. Estamos saindo de um papado que é acusado de não ter olhado para a parte interna, para a estrutura eclesiástica. Algo que, por outro lado, Francisco nunca escondeu, pois optou por uma Igreja em saída, uma Igreja pobre e para os pobres. Admitindo a possibilidade de um papado mais equilibrado, seria um erro alguém se preocupar demais com o bem-estar da Igreja, com a estrutura, com o que está dentro, com a sacristia. Não podemos nos esquecer de que o testemunho é válido quando deixamos transparecer as atitudes de Jesus de Nazaré. Uma Igreja que não tem medo de se expor Uma Igreja e um Papa com sapatos sujos nos ajudam a tornar presente Aquele que andou pelos caminhos da Galileia, que saiu para encontrar as pessoas, que não ficou trancado em sua zona de conforto. Uma Igreja que se coloca em campo aberto, que assume riscos, movida por sua confiança no Senhor, para ir aonde a maioria não quer ir, aonde o medo não nos permite chegar. As perguntas são claras: o estilo de vida de Francisco influenciará a escolha de seu sucessor? A Igreja em saída, pobre para os pobres, que suja e gasta seus sapatos, terá continuidade? É um tempo de oração, de espera pelo sopro do Espírito Santo. Mas sem ignorar o fato de que o próximo pontífice será aquele que obtiver dois terços dos votos dos 133 cardeais que entrarão na Capela Sistina na tarde de 7 de maio.

O túmulo de Franciscus: Uma Luz e uma Cruz para continuar acompanhando todos, todos, todos

Desde sua eleição em 13 de março de 2013, Francisco sempre foi um Papa surpreendente. Uma atitude que o acompanhou até o túmulo. A simples lápide embutida no muro de uma das quatro basílicas papais de Roma, a de Santa Maria Maior, é uma prova clara disso. As pessoas têm passado continuamente por ela desde que foi aberta à visitação, olhando para a lápide onde se lê “Franciscus”. A única companhia é a reprodução de sua cruz peitoral e uma rosa branca que parece ter ficado intacta. Uma luz na qual não são poucos os que veem a Luz do Ressuscitado, que sempre acompanhou a vida da Igreja, ilumina a atmosfera. Um túmulo escondido e pronto há dois anos Nada é improvisado. O túmulo de Francisco estava pronto há dois anos, ele mesmo havia dado sua aprovação e fornecido o dinheiro para a construção. Nada diferente do que sempre fez o Papa Bergoglio, que nunca aceitou não ser cobrado por suas contas. Era motivo de discórdia quando alguém não queria lhe cobrar. Um túmulo que pouquíssimas pessoas sabiam de sua existência. Passar em frente a ele é algo que toca o coração de todos nós que nos identificamos com o papado de Francisco. É uma mistura de tristeza e esperança. A fé nos diz que o último pontífice já está na casa do Pai. Nosso sentimento humano nos leva a sentir a falta de alguém que estava continuamente presente em nossos pensamentos, alguém em quem encontrávamos orientação. Olhando para o longo prazo Ninguém sabe o que Francisco levou com ele para o túmulo, mas também não sabemos o que ele deixou para continuar ajudando a Igreja. O Papa Bergoglio sempre teve uma visão de longo prazo, embora nunca tenha se esquecido do dia a dia, das curtas distâncias. Essa mistura de perspectivas, de pontos de vista, de sonhos, mas, ao mesmo tempo, nunca se esquivando dos problemas concretos, foi o que fez dele um Papa admirado por muitos. Ele sempre teve consciência de que não seria capaz de cumprir a tarefa que lhe foi solicitada pelos participantes do Conclave em que foi eleito. Mas ele sempre viu sua vida e os serviços que lhe foram confiados pela Igreja como parte de um processo. Um processo no qual ele se sentia como um elo em uma corrente que atravessa a história da humanidade e de uma Igreja de quase dois mil anos. Vaticano II seu roteiro Longe de qualquer protagonismo, o desafio que a Igreja enfrenta neste momento em que os cardeais precisam encontrar um sucessor é descobrir quem pode dar continuidade ao seu legado. Francisco tinha seu roteiro no Concílio Vaticano II, mas estava ciente de que ainda há um longo caminho a percorrer até que esse modo de caminhar seja compreendido e aceito por todos, todos, todos. Vivemos em um momento histórico em que a tentação de se deslumbrar com múltiplos elementos está presente em muitas pessoas. Diante disso, a meia-luz que envolve as laterais do túmulo de Franciscus nos ajuda a focar na cruz no centro. É a cruz peitoral que sempre o acompanhou em seu episcopado, primeiro em Buenos Aires e depois em Roma. É uma cruz onde a imagem do Bom Pastor se destaca, mostrando-nos a determinação que Jorge Mario Bergoglio sempre teve em carregar os mais vulneráveis, os descartados. Estender sua misericórdia Foram eles que mais se identificaram com ele, e são eles, os deserdados da terra, que estão aguardando impacientemente a chegada de alguém que não os ignorará. Alguém que tenha a misericórdia que lhe permita olhar para baixo e descobrir que há alguém jogado à beira da estrada. Alguém que não se apresse para o Templo, que não se apresse para cumprir com ritualismos dos quais os últimos poucas vezes conseguem participar. Franciscus continua a cuidar, daquele lugar escondido na parede, que aos olhos de muitos pode passar despercebido. É para lá que sempre irá aquele que se deixa iluminar pela luz que coloca no centro o sinal daquele que deu a vida por todos, todos, todos. Francisco, sabemos que seu corpo está escondido naquele lugar, mas seu espírito continua a inspirar muitas pessoas.

Francisco

Franciscus. O desejo expresso em seu testamento é a forma como ele deseja ser lembrado: “O túmulo deve ser no chão; simples, sem decoração especial e com uma única inscrição: Franciscus.” Essa escolha contrasta fortemente com nossa cultura, que, para fazer memória e marcar o espaço-tempo, recorre a monumentos, símbolos, placas e que, nas lápides, encontramos o nome completo, com data de nascimento e morte, alguma citação marcante, muitas vezes de origem duvidosa. Francisco escolheu uma única inscrição. E ele tem razão. Todo o resto é acessório. Talvez essa escolha radical nos questione sobre a própria natureza da memória. Ser lembrado por um nome, não seria a forma mais pura de perpetuar uma essência, livre das camadas de interpretação e dos adornos da história? Esse é o nome que ele escolheu para se apresentar diante de Deus. Não precisará de nenhuma alcunha ou complemento, nem de nenhuma carta de recomendação ou currículo. Não terá que comprovar experiência laboral. Será conhecido e reconhecido por ser Francisco. E nada mais. Despojar-se para permanecer a identidade. Ser reconhecido pela pura ressonância do nome, sem os títulos que o mundo lhe conferiu. O lugar do seu descanso terreno ficará no chão, pois teve os seus pés fincados no concreto da vida e nos ensinou que, para ser pastor de verdade, não se pode afastar da realidade. É o “pastor com cheiro de ovelhas”. Será simples e sem decoração especial, como ele, que continuou usando o mesmo sapato, o seu anel de bispo e a batina branca, por vezes com as mangas rotas. Não buscar erguer-se sequer na morte para subverter a lógica de ascensão e o desejo de poder. Li, especialmente nos últimos dias, muitos títulos dados a Francisco: o misericordioso, o de todos, o da paz, o da esperança e tantos outros. Concordo com todos eles. Estas são apenas facetas de um homem poliédrico; por isso, bastará Francisco. Não precisaremos mais distinguir Francisco de Assis e de Roma, como muitas vezes fizemos em alusão ao santo que o inspirou na escolha do nome. Não precisaremos fazer distinção, tampouco justificar, pois ele mostrou no corpo e no coração, nos gestos e nas palavras, que ele é Francisco. O seu semblante no domingo de Páscoa era o de um pastor mártir, tal como os antigos pastores, que selavam com a própria vida o cuidado do rebanho. As palavras de agradecimento ao seu enfermeiro pessoal foram sinceras e cheias de sentido. A gratidão pela última ida à Praça e seu último passeio no meio do povo eram o que faltava para viver a sua Páscoa. Nesse gesto derradeiro de encontro com o povo a essência de sua missão: um amor concreto e palpável pela humanidade que ele pastoreou. Sua Páscoa pessoal se completa no abraço derradeiro à sua comunidade. Dos braços do povo para os braços do Criador. No entanto, essa mesma bússola evangélica que guiava seus passos e suas palavras o colocou, por vezes, na mira de olhares desconfiados e condenatórios. Sua obstinação em dar voz e vez aos que a sociedade silenciava – os pobres, os últimos da fila, os descartados pela lógica do mundo, aqueles a quem faltava até mesmo um abraço – foi interpretada por alguns como desvio ou como heresia. Incomodou. A Igreja de portas escancaradas, em saída, acolhendo quem estava nas margens, incomodava quem preferia muros e distinções. Acolher quem estava nas margens mostrando que a margem é o centro. Estou seguro de que, para muitos, a lembrança mais vívida não resida nos seus discursos, mas em detalhes singelos: o desgaste de seus sapatos pretos a percorrer os caminhos do mundo, a cruz simples que portava como único ornamento e que mostrava a centralidade do Cristo Bom Pastor, um gesto de acolhimento para com um necessitado, um aceno de esperança em meio à multidão, um sorriso que irradiava uma paz profunda. Se assim for, se forem esses fragmentos de sua humanidade e de sua fé a permanecer na memória coletiva, terá sido o suficiente. Nesses pequenos sinais, nessa linguagem silenciosa do amor e da humildade, muitos terão vislumbrado, de forma inequívoca, o seguimento radical e apaixonado de Francisco a Jesus. Talvez não haja outro Francisco. Nossa lógica mundana, que muitas vezes busca comparações ou continuadores da tarefa, pode ser quebrada com isso. Talvez ainda levemos um tempo para assimilar tudo o que se passou nestes 12 anos de um homem chamado Francisco, que buscou viver com coerência o Evangelho. Eu não tenho dúvidas de que Francisco não descansará nem na eternidade. Continuará o mesmo Francisco, sem o seu corpo mortal, mas incansável, intercedendo pela Igreja a qual tanto amou. Marcus Tullius