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Categoria: Artigos

A Amazônia, o laboratório das reformas de Francisco

O pontificado de Francisco tem sido um tempo de processos, de dar passos que o levem a concretizar o modo de ser Igreja que responde às necessidades do momento histórico em que vivemos. Nesses 12 anos de pontificado, podemos dizer que a Amazônia tem sido o laboratório dessas reformas, sobretudo no que diz respeito aos conceitos-chave de seu Magistério: ecologia integral, os descartados e sinodalidade. A figura do Cardeal Hummes Uma das figuras mais importantes nos estágios iniciais de seu pontificado foi o Cardeal Cláudio Hummes, que nos últimos anos de sua vida desempenhou um papel de destaque na Igreja na Amazônia. Depois de retornar ao Brasil, após seu serviço como Prefeito da Congregação do Clero, ele assumiu a presidência da Comissão Episcopal para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, visitando muitas das igrejas particulares da Amazônia brasileira. Seria o Cardeal Hummes que inspiraria o nome de Francisco, sendo uma das poucas pessoas ao lado do novo pontífice quando ele recém-eleito se apresentou às multidões reunidas na Praça de São Pedro e ao mundo inteiro pela televisão. O cardeal brasileiro seria o primeiro presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), o relator geral do Sínodo para a Amazônia e o primeiro presidente da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA). Um dos colaboradores mais próximos e queridos de Francisco foi seus olhos e ouvidos em uma região única durante seu pontificado. O pulmão do mundo A Amazônia, o pulmão do mundo, é uma região que esteve muito presente nos pensamentos do Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si’. Trata-se de um documento em que ele faz um apelo explícito à conversão ecológica, a fim de evitar a catástrofe ambiental que está destruindo o planeta e que tem na Amazônia o exemplo de uma região atingida por uma economia que mata, que destrói a floresta e polui os rios em busca de dinheiro sujo, manchado com o sangue e o sofrimento das pessoas que habitam a região. Falar dos descartados na Amazônia nos remete aos povos originários e às comunidades tradicionais. Eles são as principais vítimas do atual sistema de destruição da região amazônica. Pouco a pouco, eles têm visto como seus territórios foram invadidos e suas culturas subjugadas de várias maneiras, perdendo gradualmente as visões de mundo que sustentaram suas vidas por séculos. A concretude da ecologia integral A defesa dos povos indígenas sempre foi uma das bandeiras do Papa Francisco. Neles, ele descobriu a concretude da ecologia integral, algo naturalmente assumido por povos que veem a Terra como sua própria mãe. Eles também são considerados um exemplo de vida comunitária, uma alternativa ao individualismo que prevalece cada vez mais na sociedade atual. Por isso, tiveram um papel de destaque no Sínodo para a Amazônia. Vários dos participantes do Sínodo repetiram várias vezes que o Papa Francisco, durante a assembleia sinodal, prestou atenção especial às intervenções dos homens e mulheres indígenas presentes. De fato, o Sínodo para a Amazônia marcou um antes e um depois na condução dos Sínodos dos Bispos. Um teste para a sinodalidade O Sínodo para a Amazônia foi o primeiro em que o processo de escuta foi um processo amplo e longo. Mais de 87.000 pessoas foram ouvidas e a assembleia sinodal contou com a participação de um bom número de não-bispos. Desde o primeiro dia, percebeu-se uma atmosfera diferente, tanto dentro da aula sinodal quanto nas atividades paralelas que ocorreram ao redor da assembleia, com grande presença dos povos da Amazônia. Esse sínodo pode ser visto como um campo de testes para o Sínodo sobre Sinodalidade e para avançar nesse modo de ser Igreja que promove o caminhar juntos. No encerramento dessa assembleia sinodal, Francisco deixou ver que as mulheres logo teriam direito ao voto, algo que se tornou realidade no Sínodo sobre Sinodalidade. A CEAMA também surgiu como uma proposta dessa assembleia, com representação de bispos, padres, vida religiosa, leigos e povos indígenas em sua presidência. Na realidade, a proposta era de um órgão episcopal em nível pan-amazônico, mas Francisco viu que isso deveria assumir a forma de uma conferência eclesial, algo que é claramente de natureza sinodal. Há muitos exemplos que, especialmente nesses campos da ecologia integral, dos descartados e da sinodalidade, podemos descobrir na Amazônia. Esses são elementos que não podem ser ignorados no futuro pela Igreja Católica, que precisa se concentrar nessa e em outras periferias, especialmente em seus povos e em sua Igreja, aberta ao diálogo com diferentes povos e culturas.

Morreu Francisco, o Papa da Amazônia

São muitos os destaques do pontificado do Papa Francisco, o primeiro Papa latino-americano, o Papa que reconheceu a necessidade da participação das mulheres em espaços de decisão, o Papa que mais decididamente enfrentou os abusos de todo tipo na Igreja católica, o Papa de uma Igreja em saída, o Papa da ecologia integral, o Papa dos migrantes, o Papa da sinodalidade… Mas, acima de tudo isso, destaco a figura de Francisco como o Papa da Amazônia. Uma relação que nasce em Aparecida Na Conferência de Aparecida, em 2007, onde sendo arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Bergoglio foi relator geral, escutou várias vezes falar sobre a Amazônia, seus povos e sua Igreja. Já nos primeiros meses de pontificado, no encontro com os bispos brasileiros em 27 de julho de 2013 no Rio de Janeiro, o Papa Francisco falou da Amazônia como um elemento “relevante para o caminho atual e futuro não só da Igreja no Brasil, mas também de toda a estrutura social.” O Papa disse que “a Igreja está na Amazônia, não como aqueles que têm as malas na mão para partir depois de terem explorado tudo o que puderam. Desde o início que a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos, e lá continua presente e determinante no futuro daquela área.” Ele lembrou as palavras do Documento de Aparecida, onde aparece “o forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse rudemente, mas para que tornasse ela um jardim.” O Papa fazia um chamado a formar um clero autóctone, a consolidar o “rosto amazônico” da Igreja. Foi se criando um caminho que levou até a convocação do Sínodo para a Amazônia, um dos momentos mais marcantes do pontificado de Francisco. Foi nesse Sínodo que foi se fraguando a sinodalidade, um modo de ser Igreja marcado pela escuta e o discernimento comunitário. O Papa convocou em Roma não só os bispos da Amazônia, também os padres, a Vida Religiosa, o laicato, e sobretudo os povos indígenas. Foi a eles a quem o Papa escutou com maior atenção e carinho em sua tentativa de novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Apaixonado pela Amazônia e seus povos Francisco se apaixonou pela Amazônia e pelos povos que a habitam, pelas causas da Amazônia e de seus povos. Sempre que ele encontrava os bispos da Amazônia, ele perguntava como estava sua querida Amazônia. Gostava de escutar as histórias, as vivências, os clamores de uma região castigada por uma economia que mata. Esses clamores, ele sempre os guardou em seu coração e estiveram presentes em sua oração. Que seu legado ajude à humanidade a sentir a necessidade de cuidar da Amazônia e dos povos que a habitam. Com sentimento de profunda e eterna gratidão nos despedimos de alguém que vai deixar uma marca profunda no coração dos povos da Amazônia. Eles se sentiram escutados e defendidos por um Papa com um coração amazônico, um coração indígena, um coração cuidadoso e respeitoso da mãe Terra, a mãe dos povos indígenas. Editorial Rádio Rio Mar

Viver sem Photoshop

Na semana passada viralizou uma imagem do Papa Francisco chegando na Basílica de São Pedro sem sua batina branca. O motivo de algo que escandalizou algumas pessoas, mas também teve muitas reações de aprovação, foi o pedido do Santo Padre para ser conduzido a rezar no túmulo de São Pio X enquanto passeava nos jardins vaticanos. Cuidar a imagem até o extremo Em uma sociedade onde a aparência é considerada superior à essência, onde a imagem é cuidada até o extremo, onde o photoshop se tornou instrumento para adaptar nossa imagem aos nossos desejos, a foto do Papa Francisco nos mostra que ele vai em outra direção. Francisco nos mostra que rezar é mais importante que as vestes que são usadas para nossa oração. Igualmente, ele não tem problema em mostrar sua fragilidade, não pretende esconder que ele está doente, que ele é gente. Santo Inácio de Loiola, o fundador da Companhia de Jesus, a congregação da qual o Papa fazia parte, insiste em que o padre, antes de ser ministro ordenado, ele é batizado, e antes de tudo isso, ele é pessoa. Um serviço à humanidade Francisco tem clareza de que seu ministério pontifício é um serviço à Igreja católica, mas também a toda a humanidade. Ele tem mostrado isso muitas vezes, mas sobretudo na Quinta-Feira Santa. Seu costume de lavar os pés aos vulneráveis, aos descartados da sociedade, inclusive a homens e mulheres não cristãos, nos mostra o modo dele entender seu pontificado. Ele sempre se coloca a servir, na simplicidade, sem muito interesse pela aparência. Francisco é alguém que não se preocupa em retocar sua imagem, ele testemunha o Evangelho com suas atitudes de vida, com sua disponibilidade para se colocar ao serviço, para escutar os clamores da humanidade e da casa comum, para ser voz daqueles que a sociedade faz questão de não escutar, de não deixar falar. Não responder a estereótipos A vida se torna exemplo para os outros, se faz testemunha, quando ela é verdadeira, quando a gente não esconde, não disfarça aquilo que nós somos. Muitas vezes nos deparamos com pessoas que se empenham em responder a estereótipos sociais, inclusive a estereótipos eclesiásticos. No atual pontífice, se faz visível a autenticidade de alguém que não se empenha em responder a esses estereótipos. Diante disso, ainda mais no dia em que fazemos memória da entrega de Jesus, somos desafiados a nos questionarmos sobre aquilo que determina nossa vida como pessoas. Mas também como cristãos, na medida em que dizemos ter fé no Deus que se fez carne em Jesus Cristo. Somos presença dele quando vivemos do jeito dele, quando não temos problema em mostrar nossa humanidade, quando queremos viver sem retoques, sem photoshop. Editorial Rádio Rio Mar

Taxas que não procuram o bem comum e sim o interesse de poucos

As taxas que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está impondo aos diferentes países, sobretudo à China, tornou-se a principal notícia nos últimos dias. Estamos diante de mais um exemplo da crescente divisão e enfrentamento presente na sociedade mundial nos últimos anos. As guerras, concretizadas de diversos modos, também no âmbito comercial, só aumentam, provocando graves consequências para a população mundial, especialmente para os mais pobres. Uma conta que pagam os pobres O menor crescimento económico, a inflação, a alta dos preços de artigos que fazem parte da vida da maioria das pessoas, se vislumbram como consequências a curto prazo. Uma situação que deve levar à reflexão sobre o que acontece quando alguém toma decisões que não pensam no bem comum, no bem da humanidade. Junto com isso, o veto aos imigrantes, a xenofobia, a expulsão dos estrangeiros, uma outra atitude do presidente Trump. Ele se orgulha em sua perseguição aos imigrantes, é claro que sempre que eles sejam pobres, ignorando a história de um país onde a imigração tem sido uma constante. Algo que tem ajudado a construir uma nação que não teria seu atual status sem a participação dos imigrantes. Usar o poder em favor dos pequenos Isso deveria nos levar a refletir sobre o exercício do poder nos diferentes âmbitos, que sempre deveria ser para promover o bem comum e favorecer aos pequenos. Nunca àqueles que já tem demais, seja poder econômico, sejam privilégios e mordomias, que geralmente só aumentam quando aparecem esse tipo de situações. Se fechar aos outros, impedir que os outros se aproximem é uma atitude cada vez mais presente. Mecanismos de proteção são cada vez mais presentes na sociedade atual, sobretudo aqueles que tem mais poder. Seja poder político, económico ou de qualquer tipo, nos deparamos com situações que nos desumanizam. Não esqueçamos que a desumanização é uma atitude que aparece quando deixamos de nos preocuparmos com a necessidade dos outros. Saber analisar a realidade São mecanismos que querem ser impostos como comportamento a seguir, tentando convencer a todos que esse é o caminho a seguir. De fato, nos deparamos com que pessoas que são prejudicadas por essas situações as defendem. Essa manipulação, consequência da dificuldade que cada vez mais gente tem para analisar a realidade, é cada vez mais presente. Diante disso, somos chamados a tomar postura como sociedade, mas também individualmente. Uma necessidade primeira é fomentar o pensamento crítico, que leve as pessoas a perceber aquilo que prejudica à maioria. Seguir o típico ditado brasileiro “Maria vai com as outras”, tem graves consequências. São atitudes que destroem o tecido social, destroem a sociedade como instituição que melhora a vida das pessoas. Editorial Rádio Rio Mar

Viver de mentira

O dia 1º de abril é conhecido no Brasil como “o Dia da Mentira”, mas além das possíveis brincadeiras relacionadas com esse dia, somos chamados a refletir sobre a atual sociedade, empenhada em viver de mentira, inclusive naquilo que tem a ver com elementos fundamentais na vida do ser humano: na política e na religião. A política, segundo o filósofo grego Aristóteles, é a ciência que se preocupa com a felicidade coletiva, que cuida do bem comum. Mas nos deparamos com políticos que mentem para cuidar do próprio interesse ou dos interesses dos grupos que representam. Políticos que se elegeram espalhando mentiras, hoje chamadas fake news, até chegar a assumir os cargos de maior responsabilidade no Poder Legislativo e no Poder Executivo. Políticos mentirosos que contam com o apoio de uma grande camada da população, que acredita ser verdade mentiras repetidas muitas vezes, aumentando a divisão dentro de uma sociedade cada vez mais enfrentada em consequência de mentiras, que, além de faltar à verdade, sustentam no poder pessoas sem escrúpulos, perpetuando os privilégios decorrentes de ocupar os lugares que assumem em seus cargos públicos. Isso faz com que atitudes como a honestidade sejam colocadas em segundo plano, possibilitando que pessoas sem nenhum tipo de moralidade se aproveitem para, em base a mentiras, se beneficiar, prejudicando claramente o conjunto da sociedade. Sustentados na mentira, personagens sem escrúpulos condicionam gravemente o convívio social e fazem com que a vida das pessoas seja cada vez pior. São atitudes que também aparecem no campo da religião, sendo propagadas mentiras, muitas vezes com interesses politiqueiros, pois isso nunca pode ter o qualificativo de político. Independentemente das religiões ou das confissões cristãs, das diversas igrejas, nos deparamos com pessoas que mentem em nome da religião. Um exemplo disso é o que está acontecendo com a doença do Papa Francisco, nos deparando com mentiras que não respondem ao que em verdade está acontecendo. Personagens religiosos, freis, freiras, padres, pastores, bispos, que se aproveitando da boa fé das pessoas, constroem discursos que não respondem à verdade, ou lucram às costas do povo, muitas vezes dos mais pobres, que são enganados em nome daquele que é fonte de Verdade, em nome de Deus. Discursos religiosos que manipulam, que abusam espiritualmente das pessoas, que mentem, e em consequência pecam, pois a mentira é um pecado, segundo os mandamentos da Lei de Deus, mesmo se apresentando como referentes religiosos, quando em verdade são lobos com pele de cordeiro, manipuladores do povo sem escrúpulos. Não podemos deixar que o momento histórico que estamos vivendo seja definido como o Tempo da Mentira, pois isso irá danando a estrutura social e condicionando gravemente o presente e o futuro da humanidade. Isso depende de todos, mas também de cada um e cada uma de nós, que às vezes nos tornamos cumplices passando adiante mentiras que só beneficiam pessoas sem escrúpulo e sem moralidade. Editorial Rádio Rio Mar

COP-30: Uma oportunidade para ser cientes das ameaças e exigir uma política do cuidado

Belém do Pará, que nesta terça e quarta-feira, 25 e 26 de março, sediou a Pré-COP, um evento organizado pela Igreja católica e que contou com a presenças dos seis regionais que fazem parte da Amazônia brasileira, será sede em novembro da COP-30, a Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas. Mesmo que algumas pessoas neguem isso, a atual crise climática é mais do que evidente, mas se faz necessário aprofundar no conhecimento dos dados científicos para rebater aqueles que negam as consequências do aquecimento global, que prejudica gravemente às pessoas mais vulneráveis e provoca um grave impacto sobre o território amazônico. A COP-30 é uma oportunidade para pensar em caminhos concretos que ajudem a mitigar as graves consequências das mudanças climáticas em todos os níveis, tanto localmente, como em cada país e no mundo todo. Essa realidade tem que estar cada vez mais presente na agenda global, tem que fazer parte das discussões nos parlamentos, que não podem ignorar o clamor do povo, especialmente dos mais pobres e vulneráveis, constantemente atingidos pelos impactos do aquecimento global. Todos os grandes atores em nível mundial, também a Igreja católica, deveriam ser uma voz firme em defesa do Planeta e da humanidade. De fato, a Igreja católica, uma dinâmica acrescentada no pontificado do Papa Francisco, sempre foi uma voz profética em defesa do Planeta, da Criação de Deus, defendendo os povos originários, aqueles que ensinam, mesmo que muitas pessoas não queiram aprender, o que significa o cuidado da Mãe Terra. Não podemos negar, pois isso nos distancia de Deus, que nossa fé tem que se expressar nas obras, no compromisso com o reino de Deus, com um mundo melhor para todos e todas, com um desdobramento da nossa fé no campo social. Se temos fé, não podemos ficar calados diante da exploração desmedida e irracional que sofre o Planeta, sobretudo na região amazônica, onde a conversão ecológica é uma urgência inadiável, ainda mais diante das denúncias que os povos originários e as comunidades fazem, cada vez mais forte, mas infelizmente, cada vez mais ignoradas. Se a sociedade e a Igreja católica no Brasil deixar passar a oportunidade de incentivar a população a tomar consciência da realidade climática, vai ser dado um passo a mais na destruição do Planeta. Só superando visões superficiais vamos entender a verdadeira problemática climática. Se faz mais do que urgente atuar, juntos, assumindo nosso compromisso com a vida, e para aqueles que temos fé, nosso compromisso com Deus.

Dom Edson Damian: “Ou mudamos nossos hábitos destrutivos na relação com a nossa casa comum, ou provocaremos um colapso planetário sem retorno”

Durante a Quaresma, a Comissão para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), uma das promotoras da Campanha da Fraternidade 2025, oferece a todos os irmãos e irmãs de caminhada na fé um itinerário espiritual a partir da reflexão do Evangelho do domingo. No terceiro domingo a reflexão foi por conta de dom Edson Damian, bispo emérito da diocese de São Gabriel da Cachoeira e membro da Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração da CNBB. Ele iniciou sua fala lembrando que “Jesus nos conta a parábola da figueira estéril. A figueira estéril simboliza o povo de Deus da primeira aliança, principalmente as autoridades, que não acolheram a boa nova de Jesus. Apesar de não oferecer frutos de conversão, a figueira recebe mais uma oportunidade. Deus tem paciência, insiste, mas é preciso mudar, converter-se, antes que seja tarde. Mais tarde, tarde demais.” O bispo atualizou “este convite à conversão dentro do tema da Campanha da Fraternidade deste ano, dedicada à ecologia integral, ao cuidado de nossa casa comum, que está sofrendo inúmeras agressões que colocam em risco a nossa própria sobrevivência.” Segundo ele, “o modelo capitalista, baseado na exploração insaciável dos recursos naturais, na queima de combustíveis, o consumo de combustíveis fósseis, como os derivados do petróleo, a expansão desenfreada do consumo, está gerando uma série de problemas ambientais: a degradação do solo, a destruição das florestas, os incêndios criminosos, o extrativismo predatório, a escassez da água, a extinção de muitas espécies e as mudanças climáticas.” Dom Edson Damian sublinhou que “estamos assistindo a cada dia eventos climáticos extremos. Ondas de calor, enchentes e furacões estão se tornando mais frequentes e destrutivos, ceifando vidas, provocando migrações forçadas e empurrando milhões de pessoas para a pobreza.” O bispo emérito de São Gabriel da Cachoeira recordou que “o Papa Francisco, desde 2015, com a encíclica Laudato Si´, sobre o cuidado da casa comum e, em 2023, com a exortação Laudate Deum, afirma, que não estamos reagindo de forma satisfatória diante dos efeitos climáticos. O mundo que nos acolhe está se desfazendo e quase nos aproximando de um ponto de ruptura, isto é, sem volta.” Portanto, ressaltou o bispo, “estamos num momento decisivo para nós e para o nosso planeta. Ou mudamos nossos hábitos destrutivos na relação com a nossa casa comum, ou provocaremos um colapso planetário sem retorno. Já estamos experimentando seu prenúncio nas grandes catástrofes que assolam o nosso planeta, em todas as regiões. E não existe planeta de reserva, só temos este. E embora a Terra sobreviva sem nós, nós não viveremos sem ela.” Ele insiste em que “ainda é tempo, mas o tempo é agora. Mais tarde, tarde demais.” “Nessa conversão ecológica, passar da lógica extrativista e predatória, que contempla a terra como um reservatório inesgotável de recursos, para uma lógica do cuidado, através da proteção das florestas e dos rios, combatendo os incêndios, o uso abusivo de venenos e agrotóxicos, o consumismo insaciável”, é o chamado de dom Edson Damian. Diante disso, ele disse que “precisamos aprender a viver com sobriedade, lutando pela justa distribuição dos frutos da terra, para que os bens essenciais à nossa sobrevivência e os alimentos cheguem às mãos de todos e de todas. Vivendo assim, estaremos colaborando com nosso bondoso Pai Criador, que ao contemplar esse planeta tão grande e tão bonito, viu que tudo era muito bom.” Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte 1

Cardeal Steiner: “Não se trata de procurar culpas, pecados, mas de abrir todo o nosso ser à graça da cruz e da ressurreição de Jesus”

No terceiro domingo da quaresma, o arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Ulrich Steiner, iniciou sua homilia dizendo que “na caminhada quaresmal o Evangelho a indicar uma vida cheia frutos, uma vida frutuosa; evitar a esterilidade, a inutilidade de existir. É o movimento de conversão que leva à libertação, à salvação. A transformação da escravidão do egoísmo e do pecado, em mulheres e homens novos, livres para que em nós se manifeste a vida em plenitude, a vida do Reino de Deus. O convite a uma transformação da existência, a uma mudança de mentalidade, viver a graça do Evangelho, a Boa Nova. O caminho da vida e não da morte, o caminho da conversão, da frutificação. No tempo da quaresma, quando meditamos fraternidade e ecologia integral, a conversão ecológica.” Ele lembrou que “o assassinato de alguns judeus no templo por Pilatos e a queda de uma torre perto da piscina de Siloé, é o início do ensinamento de Jesus neste terceiro domingo da quaresma. Jesus a dizer que aqueles que morreram nestes desastres não eram piores do que os que sobreviveram. Afasta o ensinamento de que a pessoa atingida por alguma desgraça, era consequência por pecado grave cometido. O justo, a pessoa justa, estava livre morte violenta.” “Após cada uma das mencionadas circunstâncias de morte, Jesus a ensinar”, disse o cardeal, citando o texto evangélico: “se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Segundo ele, “nos leva compreender que todos estamos necessitados de conversão, de mudança de vida. Sim, ‘se não vos arrependerdes perecereis todos do mesmo modo’. Perecer, não chegar à plenitude da vida, à realização plena, permanecer no caminho que conduz à morte. Jesus a convidar redirecionar os nossos passos no caminho da salvação. A mudança de vida, a conversão que conduz à existência maturada e plenificada. Permanecer no caminho do descuido, conduz à morte.” “Diante de tantas situações dramáticas que atingem o ser humano, somos convidados a uma maior vigilância sobre nós mesmos. Meditarmos, confrontarmos a nossa condição humana que um dia chegará ao fim, mas que, naturalmente, busca a plenitude. Sondar, descobrir a nossa fragilidade, despertar-nos e voltar para Aquele que concede sentido à nossa própria fragilidade e infertilidade. Não se trata de procurar culpas, pecados, mas de abrir todo o nosso ser à graça da cruz e da ressurreição de Jesus. Ele a nos indicar o caminho da conversão como uma vida aberta, liberta, pascoal. Ele a suscitar em nós o desejo da vida, não a morte. Deseja a frutificação não a esterilidade”, afirmou o arcebispo de Manaus. “Tão como o Evangelho nos ensinar como pode acontecer a mudança de vida, a conversão”, disse o cardeal Steiner. Citando o texto: “Disse ao vinhateiro: Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra? Ele, porém, respondeu: Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás”, ele deduz que “somos gerados, destinados a frutificar, a dar frutos! Uma vida frutífera, cheia de frutos! A esterilidade de uma vida, conduz à morte.” Uma realidade que o leva a dizer que “a conversão como percepção de que a fraqueza pode transformar-se em frutos quando houver cuidado, disponibilidade, receptividade à vida que tem sua fonte na cruz e ressurreição.” Ele lembrou as palavras de Santo Agostinho falando da fraqueza como tristeza e que a tristeza pode tornar-se motivo de alegria: “Por isso, diz o Apóstolo: quem mais me dará alegria se não aquele que por mim é entristecido? E em outra passagem: a tristeza que é segundo Deus produz um arrependimento salutar incapaz de voltar atrás. A pessoa que se entristece segundo Deus se entristece dos seus pecados com a penitência, por causa da tristeza causada da própria culpa que produz a justificação. Então te arrependes de ser o que és, para ser o que ainda não és.” (Santo Agostinho, Sermão 254, 2-3) “Quaresma a pedir conversão, cavar e adubar nossos dias com a esmola, o jejum e a oração, para frutificar, superar a inutilidade de viver. Quaresma tempo de floração, despertação dos frutos que podem surgir da cruz e da ressurreição do Senhor. Quaresma tempo de graça e maturação na fé. Tempo para sondar a dimensão da dor e do sofrimento, da própria morte, como caminho de vida nova, com frutos abundantes. Quaresma convite à conversão, a mudar mentalidade, de tal modo que a vida encontre a sua verdade e beleza mais em dar que possuir, mais em semear o bem e partilhar que o acumular. Esse tempo pleno de graça quando deixamos fecundar e transformar a nossa fraqueza em vida pascal”, destacou o arcebispo de Manaus. Ele recordou o ensinamento de São João Crisóstomo: “Cristo deixou-nos na terra a fim de que nos tornássemos faróis que iluminam, doutores que ensinam; a fim de que cumpríssemos o nosso dever de fermento; a fim de que nos comportássemos como anjos, como anunciadores entre os homens; a fim de que fôssemos adultos entre os menores, homens espirituais entre os carnais a fim de os ganharmos; a fim de que fôssemos semente e déssemos frutos numerosos. Nem sequer seria necessário expor a doutrina, se a nossa vida fosse irradiante a esse ponto; não seria necessário recorrer às palavras, se as nossas obras dessem um tal testemunho. Não haveria mais nenhum pagão, se nos comportássemos como verdadeiros cristãos” (Sermão 10, in 1Tm.). Isso porque “uma vida fecunda, frutuosa, cheia de frutos; graciosa a espargir bondade e semear o bem. Aqueles frutos que nascem da graça e do amor da cruz e da ressurreição.” O cardeal recordou que a Campanha da Fraternidade, ‘Deus viu que tudo era muito bom’, “nos envia para a conversão ecológica, na busca de uma fraternidade também com as criaturas. A ecologia integral ensina que a casa em que habitamos não pode ser compreendida de maneira fragmentada, compartimentada. Ela nos indica o caminho da contemplação para uma…
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Frente ao cuidado de Deus, o descaso do poder público e de todos nós

Ontem a gente celebrava uma das festas mais marcantes no calendário da Igreja católica: São José. Entre suas qualidades, podemos destacar a sua capacidade para cuidar de Jesus, um cuidado que é imagem do cuidado que Deus tem com cada um e cada uma de nós, seus filhos e filhas. Ele cuida da humanidade desde o primeiro momento, desde a Criação, confiando ao ser humano o cuidado de todas as criaturas. Mas esse cuidado pelos outros é uma atitude que tem se tornado rara em nossa sociedade, e temos diversos exemplos disso. Em 2025, a Campanha da Fraternidade, que por mais de 60 anos acompanha a caminhada da Igreja católica no Brasil durante o tempo da quaresma, nos faz um chamado ao cuidado da casa comum, assumindo a necessidade de entrar no caminho da conversão ecológica. Percorrendo as ruas de Manaus, olhando seus rios e igarapés, a gente descobre a olho nu a falta de cuidado. São muitas as situações em que percebemos o descaso com aquilo que Deus nos deu, o que provoca sofrimento à natureza, mas também em muitas pessoas, especialmente naqueles que têm menos condição, vendo atingido seu bem-estar físico e espiritual. Esse descaso é também uma atitude presente no poder público, algo que claramente é reconhecido em muitas comunidades do interior e muitos bairros das periferias de Manaus e de muitas outras cidades do Amazonas e do Brasil. A falta daquilo que deveria ser garantido: saneamento básico, atendimento sanitário, educação de qualidade, energia elétrica, dentre muitas outras coisas, é uma constante em muitos locais. São muitas as comunidades do interior que sofrem com a falta de energia elétrica, algo constante, que se prolonga por horas, inclusive durante dias, causando graves prejuízos para a população, que muitas vezes perde aquilo que tem e se vê impossibilitada de realizar atividades básicas, o que conduz a uma perdida de direitos e de qualidade de vida. Qual a nossa atitude diante dessa falta de cuidado? Até que ponto essas situações provocam um questionamento em nossas vidas? Como nos posicionarmos como sociedade para que o cuidado seja uma atitude mais presente em cada um, cada uma de nós, mas também no poder público, obrigado a estar a serviço da população? Mudar de atitude, se converter para quem acredita em Deus, deve ser uma atitude presente, pois esse pode ser um caminho para avançar como sociedade e como humanidade. No final das contas, o cuidado do outro é o que nos define como seres humanos e marca nossa diferença com os animais. Daí que possamos concluir que quando nos desumanizamos, quando deixamos de cuidar, nos tornarmos animais irracionais. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1 – Editorial Rádio Rio Mar