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O timoneiro, o orientador e a concretude da sinodalidade

A Assembleia Sinodal terminou, mas não o Sínodo, que é um processo, nem a Sinodalidade, que é uma forma de ser Igreja. Quatro semanas podem ou não valer muito, mas estou convencido de que o tempo gasto durante a Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que teve lugar na Aula Paulo VI de 2 a 27 de outubro de 2024, com dois dias de retiro prévio, dará frutos, trinta, sessenta ou cem por cento. O timoneiro Depois de tudo o que vi, resta-me aquilo a que chamaria o timoneiro, o orientador e a concretude. Os anos ajudam-nos a sedimentar, sobretudo quando vivemos e contemplamos a realidade do ponto de vista de Deus. O timoneiro de tudo o que a Igreja está a viver neste momento não é outro senão o Papa Francisco. Digo-o com base nas suas duas homilias e nos seus dois discursos, na abertura e no encerramento. Na missa da manhã de 2 de outubro, convidou-nos a procurar o caminho a seguir para chegar aonde Deus nos quer levar, tarefa nada fácil, dada a diversidade de proveniências e de ministérios eclesiais dos membros. Aqueles que sentem que perderam ou ganharam não compreendem o apelo de Francisco para que a Assembleia Sinodal seja um lugar de escuta em comunhão, não um parlamento. A arrogância está presente quando, movidos pela autossuficiência, acreditamos que a nossa é a única forma de ser Igreja, com uma agenda a impor, e desprezamos aqueles que vemos como adversários; isso é superado pela fraternidade em comunhão, que leva a falar espontânea e abertamente, sem medo de rejeição, tornando-se pequenos e querendo estar entre os pequenos, nas periferias, ouvindo a voz do Espírito consolador, imagem do Deus misericordioso, que sabe e quer perdoar sempre e a todos. O timoneiro procurou que todos remassem juntos e na mesma direção, apesar dos rebeldes que insistem em desafinar para que a sinfonia não soe bem. Na Igreja, ninguém é o que é sem o outro, incluindo o bispo de Roma, que deve também escutar para melhor orientar o leme de um barco em que ninguém falta, um barco sem muros, sem rigidez, que avançará na diversidade, sem condenações, através da experiência concreta que leva a descobrir o Espírito que sopra em todo o lado. Para isso, a Igreja não pode ficar sentada, muda, cega ou estática; temos de escutar o Senhor e sair de nós mesmos para caminhar juntos atrás d´Ele e com Ele. O orientador Considero Timothy Radcliffe como um dos grandes mentores da sinodalidade. O dominicano inglês é capaz de fazer uma leitura espiritual para ajudar a avançar nesta forma de ser Igreja a partir da escuta do Espírito Santo, que gera um sentimento de liberdade, que nos permite caminhar juntos e tomar decisões, pensar, falar e escutar sem medo. Só assim a Igreja Católica se pode renovar e responder a novas situações, assumindo “novas formas de ser Igreja que nos permitem estar em comunhão uns com os outros de uma forma mais profunda em Cristo e para Cristo”. Antes de alguns o fazerem, Radcliffe já tinha avisado que “podemos ficar desiludidos com as decisões do Sínodo”, a quem deu a resposta: “pertençam à Igreja e digam Nós”. De fato, “não precisamos de ter medo do desacordo, porque nele atua o Espírito Santo”, Deus “atua suave e silenciosamente, mesmo quando as coisas parecem estar a correr mal”, como tem feito ao longo da história, “conduzindo-nos ao Reino por caminhos que só Deus conhece. A sua vontade para o nosso bem não pode ser contrariada”. De fato, “este é apenas um sínodo. Haverá outros. Não temos de fazer tudo, apenas tentar dar o próximo passo”. Haverá sempre perguntas difíceis de responder, uma delas é: como pode a Igreja ser a comunidade dos batizados, todos iguais, e, no entanto, o Corpo de Cristo com diferentes papéis e hierarquias? Uma questão colocada pelo dominicano à Assembleia Sinodal. Para Radcliffe, “muitas pessoas querem que este Sínodo dê um Sim ou um Não imediato sobre várias questões”, daí a decepção de alguns. São aqueles que veem o Sínodo como um espaço “para negociar compromissos ou para bater nos adversários”. Perante isto, uma questão fundamental: “Teremos a coragem de confiar uns nos outros, apesar de alguns fracassos?” A concretude Finalmente, descobrir o que já temos de sinodalidade, que é algo que em maior ou menor grau existe, algo que o Arcebispo de Manaus, Cardeal Leonardo Steiner, fez. De fato, a sinodalidade tem a ver com diferentes realidades, entre elas o meio ambiente, já que na “Querida Amazónia, o Papa Francisco dá-nos uma hermenêutica da totalidade que é tremendamente sinodal”. Mas a sinodalidade também se manifesta na caminhada da Igreja na Amazônia. Ali, as mulheres, um dos grandes temas deste processo sinodal, “fizeram avançar as comunidades e hoje fazem avançar as nossas comunidades”. Além disso, e aqui entra a questão das diaconisas, ele disse que “várias das nossas mulheres são verdadeiras diaconisas, sem terem recebido a imposição das mãos. E a estas diaconisas, gostaríamos de lhes chamar diaconisas, mas para não criar confusão com o ministério ordenado, ainda não encontrámos uma palavra adequada”. A partir daí, sublinhou que “é admirável, admirável, quantas mulheres são responsáveis pela nossa Igreja, é admirável”, mulheres que “estão à frente das comunidades”, ao ponto de que “a nossa Igreja não seria a Igreja que é sem a presença das mulheres”. São passos que estão a ser dados, talvez não ao ritmo que gostaríamos, mas ao ritmo de todos, um processo que nos deve levar a compreender que “o Sínodo para a Amazônia abriu a possibilidade de ter um Sínodo de Sinodalidade”, e que “a sinodalidade é um caminho sem retorno”, porque “estamos todos a entrar num movimento de ser Igreja, estamos a ser convidados a participar num modo de ser Igreja onde todos aqueles que receberam a graça do batismo e da confirmação, foram revestidos do Espírito Santo e de Jesus, se sentem responsáveis pela missão”. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Francisco aos jovens de Manaus: “Não tenham medo, se comprometam com a vida, com o trabalho”

A sinodalidade é uma dinâmica muito presente na Igreja de Manaus. Depois de realizar a Assembleia Sinodal Arquidiocesana em 2022, nas Diretrizes para a Ação Evangelizadora de Igreja de Manaus, foram definidas algumas pistas de ação no caminho com a juventude, que tem por objetivo “construir junto com os jovens um caminho de aproximação e acompanhamento que contemple a escuta, a formação e o protagonismo juvenil”. A primeira pista de ação foi realizar o Sínodo Diocesano com a Juventude, e junto com isso contemplar o Projeto de Vida e o acompanhamento vocacional no itinerário de Iniciação à Vida Cristã com os jovens; incentivar o protagonismo juvenil assegurando a participação dos jovens em todos os caminhos delineados na Assembleia Sinodal; e finalmente, incentivar os grupos de base como uma forma de organização do Setor Juventude. As palavras norteadoras desse processo são encontrar, escutar, discernir, e cada uma delas é referência para cada uma das etapas em que está dividido o caminho sinodal, e o objetivo do Sínodo Arquidiocesano da Juventude é “Ajudar os jovens a encontrar o valor do Evangelho”. Depois da primeira etapa, o encontrar, que buscou despertar o protagonismo juvenil, sensibilizar os jovens para que possam compreender o valor do processo sinodal e coletar sugestões nos muitos encontros realizados, o Sínodo Arquidiocesano de Manaus está vivenciando a etapa do escutar, iniciada na Festa de Pentecostes de 2024, a grande festa da Arquidiocese de Manaus, e vai até Pentecostes de 2025, que está ajudando os jovens a assumir o papel da liderança, elaborar a síntese do que foi escutado e elaborar um Instumentum Laboris para a assembleia sinodal. Nesse caminho, os jovens receberam um impulso especial. O Papa Francisco enviou um vídeo, exibido no Dia Nacional da Juventude, com a presença de mais de 700 jovens, onde o Santo Padre diz que sabe “que vocês estão trabalhando no Sínodo”. Diante disso, Francisco disse aos jovens de Manaus: “vão em frente, façam bagunça, façam barulho, não tenham medo, se comprometam com a vida, com o trabalho”, se despedido com seu típico: “Rezo por vocês e vocês rezem por mim”, e enviando sua benção. Um grande estímulo para continuar o caminho que deve levar à Assembleia Sinodal, prevista para julho de 2025. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Francisco encerra o Sínodo apelando à Igreja para que não fique sentada, muda, cega ou estática

Agora podemos dizer que terminou a Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, não o Sínodo, que é um processo, não a Sinodalidade, que é um modo de ser Igreja. O final coincidiu com uma missa na Basílica de São Pedro, na qual o Papa Francisco foi mais uma vez preciso nas suas palavras, como tem sido nos seus discursos desde 2 de outubro. O modo de ser Igreja “Irmãos e irmãs: não uma Igreja sentada, mas uma Igreja de pé. Não uma Igreja muda, mas uma Igreja que ouve o grito da humanidade. Não uma Igreja cega, mas uma Igreja iluminada por Cristo, que leva a luz do Evangelho aos outros. Não uma Igreja estática, mas uma Igreja missionária, que caminha com o Senhor pelas estradas do mundo”, sublinhou na sua homilia. Francisco começou as suas palavras falando da figura de Bartimeu, “um marginal sem esperança que, no entanto, ao ouvir Jesus passar, começa a gritar-lhe”. Nesta situação, “a única coisa que lhe resta é isso: gritar a sua própria dor e levar a Jesus o seu desejo de recuperar a vista. E enquanto todos o repreendem porque a sua voz os incomoda, Jesus para. Porque Deus ouve sempre o grito dos pobres, e nenhum grito de dor lhe passa despercebido”. Não ficar parado No final da Assembleia Sinodal, um momento de ação de graças, o Papa apelou a uma pausa no que acontece a Bartimeu, que se senta a mendigar. Esta é, segundo Francisco, a postura típica de “uma pessoa fechada na sua própria dor, sentada à beira da estrada, como se nada mais lhe restasse do que esperar receber alguma coisa dos muitos peregrinos que passavam pela cidade de Jericó por ocasião da Páscoa”. Perante esta posição, afirma que “para viver verdadeiramente não podemos ficar sentados: viver é sempre mover-se, caminhar, sonhar, fazer projetos, abrir-se ao futuro”. A partir daí, sublinhou que “o cego Bartimeu representa também aquela cegueira interior que nos bloqueia, que nos faz ficar parados, imóveis à margem da vida, sem esperança”, uma reflexão que devemos fazer pessoalmente e como Igreja. Isto porque “ao longo do caminho, muitas coisas podem tornar-nos cegos, incapazes de reconhecer a presença do Senhor, incapazes de enfrentar os desafios da realidade e, por vezes, inadequados para saber responder às muitas questões que nos interpelam, como Bartimeu faz com Jesus”. Não nos acomodarmos ao nosso próprio mal-estar O Papa pediu-nos para não ficarmos sentados perante as questões, os desafios e as urgências da evangelização e as muitas feridas que afligem a humanidade, não podemos ficar sentados. “Uma Igreja que, quase sem se dar conta, se afasta da vida e se coloca à margem da realidade, é uma Igreja que corre o risco de permanecer na cegueira e de se acomodar no seu próprio mal-estar”, disse o Papa. E, continuou, “se permanecermos imóveis na nossa cegueira, continuaremos a não ver as nossas urgências pastorais e os muitos problemas do mundo em que vivemos”.  Perante isto, apelou a recordar que “o Senhor passa, o Senhor passa sempre e para, para tomar conta da nossa cegueira”. Referindo-se ao Sínodo, pediu que isso nos impulsione “a ser a Igreja como Bartimeu, isto é, a comunidade dos discípulos que, ouvindo passar o Senhor, se apercebe do choque da salvação, se deixa despertar pela força do Evangelho e começa a gritar-Lhe. E fá-lo acolhendo o grito de todos os homens e mulheres da terra: o grito daqueles que querem descobrir a alegria do Evangelho e daqueles que se afastaram; o grito silencioso dos indiferentes; o grito dos que sofrem, dos pobres e dos marginalizados; a voz quebrada daqueles que nem sequer têm força para gritar a Deus, porque não têm voz ou porque se resignaram”. Por isso, afirmou com veemência que “não precisamos de uma Igreja paralisada e indiferente, mas de uma Igreja que acolhe o grito do mundo e suja as mãos para o servir”. Ser capaz de seguir Jesús Num segundo elemento, Bartimeu acaba por seguir Jesus no caminho, ou seja, torna-se seu discípulo. Agora, Bartimeu “pode ver o Senhor, pode reconhecer a ação de Deus na sua vida e, finalmente, pode segui-lo”. Algo que aplica às nossas vidas: “quando nos sentamos e nos acomodamos, quando, como Igreja, não encontramos a força, a coragem e a audácia para nos levantarmos e voltarmos a pôr-nos a caminho, lembremo-nos de regressar sempre ao Senhor e ao seu Evangelho”. Para Francisco, “sempre e de novo, quando ele passa, devemos escutar o seu chamamento, que nos põe de pé e nos faz sair da nossa cegueira. E depois segui-lo de novo, caminhar com ele ao longo do caminho”. Em “segui-lo ao longo do caminho”, reconhece uma imagem da Igreja sinodal: “o Senhor chama-nos, levanta-nos quando estamos abatidos ou caídos, dá-nos uma nova visão, para que, à luz do Evangelho, possamos ver as preocupações e os sofrimentos do mundo; e assim, postos de pé pelo Senhor, experimentamos a alegria de o seguir ao longo do caminho”. Não caminhar por conta própria Por isso, apelou a que nos lembremos sempre: “não caminhar sozinhos ou segundo os critérios do mundo, mas caminhar juntos atrás d’Ele e com Ele”. Refletindo sobre o restauro da relíquia da antiga Cátedra de São Pedro, apelou a que se recordasse que “esta é a cátedra do amor, da unidade e da misericórdia, segundo o mandato que Jesus deu ao Apóstolo Pedro, de não dominar os outros, mas de os servir na caridade. E, olhando para o majestoso baldaquino de Bernini, mais resplandecente do que nunca, redescobrimos que ele enquadra o verdadeiro ponto focal de toda a Basílica, ou seja, a glória do Espírito Santo”. Concluiu dizendo que “esta é a Igreja sinodal: uma comunidade cujo primado está no dom do Espírito, que nos torna todos irmãos em Cristo e nos eleva até Ele”. A partir daí, apelou a prosseguir “com confiança o nosso caminho juntos”, recordando as palavras do Evangelho: “Coragem, levanta-te! Ele chama-te”, e convidou-nos a “pôr de lado o manto da resignação, entregar…
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Francisco: “Testemunhar que é possível caminhar juntos na diversidade, sem condenar uns aos outros”

Após três anos à escuta do Povo de Deus e à escuta do Espírito Santo para compreender melhor como ser uma “Igreja sinodal”, o Papa Francisco se dirigiu aos participantes da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidad e à Igreja toda para reconhecer que “ao convocar a Igreja de Deus em Sínodo, eu estava ciente de que precisava de vocês, Bispos e testemunhas do caminho sinodal”. O bispo de Roma precisa praticar a escuta Ele disse que também o bispo de Roma, “precisa praticar a escuta, na verdade quer praticar a escuta, para poder responder à Palavra que se repete a ele todos os dias: Confirmai vossos irmãos e irmãs… Pastoreie minhas ovelhas”. Francisco afirmou que sua tarefa, “é salvaguardar e promover – como nos ensina São Basílio – a harmonia que o Espírito continua a difundir na Igreja de Deus, nas relações entre as Igrejas, apesar de todas as lutas, tensões e divisões que marcam seu caminho rumo à plena manifestação do Reino de Deus”. “Todos, na esperança de que não falte ninguém. Todos, todos! Ninguém de fora, todos”, sublinhou, colocando como palavra-chave a harmonia, que foi o que o Espírito faz a manhã de Pentecostes, “harmonizar todas essas diferenças, todas essas línguas…”, uma dinâmica que ele vê presente no Concílio Vaticano II. Francisco insistiu em que a graça de Deus, “por meio de seu Espírito, sussurra palavras de amor no coração de cada um. É-nos dado amplificar a voz desse sussurro, sem obstruí-la; abrir portas, sem erguer muros”. Nesse ponto, o Papa denunciou ‘como fazem mal as mulheres e os homens da Igreja quando erguem muros, como fazem mal!”. A rigidez é um pecado Insistindo no todos, o Papa disse que “não devemos nos comportar como ‘distribuidores da Graça’ que se apropriam do tesouro amarrando suas mãos ao Deus misericordioso”, lembrando o perdão pedido no início da Assembleia Sinodal “sentindo vergonha, reconhecendo que somos todos misericordiosos”. Ele citou o poema de Madeleine Delbrêl, a mística das periferias, que exortava: “Acima de tudo, não sejam rígidos”, afirmando que “a rigidez é um pecado, é um pecado que às vezes atinge clérigos, homens e mulheres consagrados”. Os versos que ele leu “podem se tornar a música de fundo com a qual daremos as boas-vindas ao Documento Final. E agora, à luz do que emergiu do caminho sinodal, há e haverá decisões a serem tomadas”. Neste tempo de guerras, ele chamou a “ser testemunhas da paz, aprendendo também a dar forma real à convivência das diferenças”. Isso levou o Papa a dizer que não pretende publicar uma “exortação apostólica, o que aprovamos é suficiente. No Documento já há indicações muito concretas que podem ser um guia para a missão das Igrejas, nos diferentes continentes, nos diferentes contextos: por isso estou colocando-o à disposição de todos agora, por isso disse que deveria ser publicado. Quero, dessa forma, reconhecer o valor do caminho sinodal concluído, que, por meio deste Documento, entrego ao santo povo fiel de Deus”. Ouvir, reunir, discernir, decidir e avaliar Ele chamou os aos dez “Grupos de Estudo”, a trabalhar com liberdade, “para me oferecer propostas, há necessidade de tempo, a fim de chegar a escolhas que envolvam toda a Igreja”, mostrando seu desejo de “ouvir os Bispos e as Igrejas a eles confiadas”. Algo que segundo ele, “não é a maneira clássica de adiar infinitamente as decisões. É o que corresponde ao estilo sinodal com o qual o ministério petrino também deve ser exercido: ouvir, reunir, discernir, decidir e avaliar. E, nessas etapas, são necessárias pausas, silêncios e orações. É um estilo que estamos aprendendo juntos, um pouco de cada vez. O Espírito Santo nos chama e nos apoia nesse aprendizado, que devemos entender como um processo de conversão”, confiando na ajuda da Secretaria Geral do Sínodo e todos os Dicastérios da Cúria. “O Documento é um presente para todo o povo fiel de Deus, na variedade de suas expressões. É óbvio que nem todos o lerão: serão sobretudo os senhores, juntamente com muitos outros, que tornarão acessível o que ele contém nas Igrejas locais. O texto, sem o testemunho da experiência, perderia muito de seu valor”, disse Francisco.  Escuta, diálogo e reconciliação para alcançar a paz Ele chamou a “testemunhar que é possível caminhar juntos na diversidade, sem condenar uns aos outros”. Junto com isso, o Papa, lembrando que “viemos de todas as partes do mundo, marcadas pela violência, pobreza e indiferença”, ele fez ver que “juntos, com a esperança que não decepciona, unidos no amor de Deus espalhado em nossos corações, podemos não apenas sonhar com a paz, mas nos comprometer com todas as nossas forças para que, talvez sem falar tanto em sinodalidade, a paz seja alcançada por meio de processos de escuta, diálogo e reconciliação. A igreja sinodal para a missão agora precisa que as palavras compartilhadas sejam acompanhadas de ações. E este é o caminho”. “Tudo isso é um dom do Espírito Santo: é Ele quem cria a harmonia, é Ele quem é a harmonia”, ressaltou, fazendo um convite a ler o tratado de São Basílio sobre o Espírito Santo, onde aparece como harmonia. Daí, o Papa pediu “que a harmonia continue mesmo quando sairmos desta sala, e que o Sopro do Ressuscitado nos ajude a compartilhar os dons que recebemos”. Antes de agradecer, o Papa lembrou as palavras de Madeleine Delbrêl: “há lugares onde o Espírito sopra, mas há um Espírito que sopra em todos os lugares”. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Sínodo: “Caminhamos juntos e sabemos que continuaremos a caminhar juntos”

A Assembleia Sinodal do Sínodo da Sinodalidade terminou, só falta a missa de encerramento neste domingo na Basílica de São Pedro. Uma vez concluídos os trabalhos, alguns dos que podem ser considerados os principais atores do atual processo sinodal se fizeram presentes em coletiva de imprensa: o Secretário Geral da Secretaria do Sínodo, Cardeal Mario Grech, o Relator Geral, Cardeal Jean-Claude Hollerich, S.I., uma das presidentas delegadas, Ir. María de los Dolores Palencia, e os secretários especiais, Padre Giacomo Costa e Mons. Riccardo Battocchio. Início da fase de implementação Um encontro com os jornalistas que começou com o agradecimento do prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, por tantos dias de trabalho, insistindo que o Sínodo continua, que já está na fase de implementação, como o Papa havia indicado alguns minutos antes, momento em que também disse que não publicaria uma exortação pós-sinodal, mas que seguiria um documento que, nas palavras de Rufffini, é fruto de um imenso trabalho. Em resposta às perguntas dos jornalistas, o Cardeal Grech afirmou que o papel de guiar a Igreja é do pastor, algo compartilhado com os padres e os leigos. O secretário do Sínodo lembrou a existência de comunidades na Europa onde a presença do sacerdote é muito limitada, de modo que já é uma experiência que as comunidades sejam lideradas por leigos, enfatizando que não é uma resolução da assembleia sinodal, que aprecia esses ministérios e espera continuar a reconhecer esses dons. Com relação à não publicação de uma exortação, ele disse que isso não significa que não haverá momentos em que o Papa falará diretamente sobre questões discutidas e propostas na assembleia. Isso se junta ao fato de que a sinodalidade é algo que toca a todos. É algo previsto na Episcopalis Communio, lembrou Battochio, que falou que o texto dá orientações em algumas situações. Sobre a questão da ordenação de diaconisas, que foi muito discutida na imprensa, o Cardeal Hollerich, considerando o assunto muito delicado, insistiu que o Papa aceitou todo o documento, que diz que essa questão continuará a ser estudada, enfatizando o papel das mulheres ao longo da história e que a comissão para o diaconato feminino continuará a estudar uma questão que ainda está em aberto. Os 10 grupos de estudo não significa adiar decisões Com relação aos 10 grupos de estudo que foram criados, Battochio falou sobre a participação de não clérigos na formação nos seminários. Giacomo Costa destacou as fortes conexões entre os grupos de estudo, enfatizando que, em alguns tópicos, o Papa quer ouvir o maior número possível de bispos. Continuar o trabalho desses grupos não significa deixar as coisas de lado ou adiar decisões, enfatizou o jesuíta. Há muitas questões a serem tratadas nesses grupos, disse Hollerich, grupos chamados pelo Papa para trabalhar sinodalmente, de acordo com Grech, que insistiu que não há bispos sem pessoas, um bispo tem que ouvir e levar a voz de seu povo à conferência episcopal. Esses são grupos para os quais os membros do Sínodo puderam fazer contribuições, disse Maria Dolores Palencia, por meio de um diálogo sinodal com possíveis contribuições que permitirão ao Papa ter uma visão mais ampla e completa. O documento é importante, mas muito mais importante é assumir esse estilo sinodal nas igrejas locais, como uma chave para orientar outras questões, segundo Grech. Não se pode esquecer a diversidade de contextos e culturas e que esta não é uma reunião política para alcançar a maioria, mas um discernimento em conjunto, movido por um clima de alegria, o que o levou a dizer que “caminhamos juntos e sabemos que continuaremos caminhando juntos”, sendo o desafio agora compartilhar essa experiência para ser uma verdadeira igreja sinodal em missão. Foi uma experiência que nos permitiu ampliar o nosso olhar, disse Battochio, que enfatizou o fato de devolver às igrejas, por meio do documento, as experiências vividas e os pontos que podem ser fermento, que podem parecer menores, mas que podem fazer crescer essa dimensão missionária, por meio do testemunho de uma nova realidade de encontro. Abrir-se para o outro A assembleia nos ajudou a perceber que não podemos nos fechar em nossas próprias realidades, que não podemos construir muros, disse Giacomo Costa. Algo que se concretiza, por exemplo, no caso dos migrantes, uma realidade que aparece no Documento Final. Sobre esse ponto, Dolores Palencia lembrou que a assembleia refletiu sobre a importância das redes que estão sendo tecidas entre as igrejas e entre as conferências episcopais, nesse campo, porque a migração está transcendendo todas as fronteiras, é algo que exige profundo respeito, diálogo inter-religioso, abertura para uma nova visão. A estrutura do Sínodo dos Bispos é algo que transcende a Assembleia Sinodal, disse Grech, lembrando que este Sínodo envolveu todos os batizados desde 2021, um aspecto abordado pelo Papa em seu discurso de abertura, onde ele pediu para superar o agora é a nossa vez e desafiou a fazer uma sinfonia a serviço da misericórdia de Deus de acordo com os diferentes ministérios e carismas. Ministerialidade para reconhecer os carismas Com relação à ministerialidade, Batocchio disse que não se trata de substituir a falta de ministros ordenados, mas de reconhecer os carismas de cada um e torná-los disponíveis a todos, partindo de contextos concretos que levam a novas figuras ministeriais. Para Hollerich, trata-se de analisar como a comunidade pode viver a fé em conjunto, sabendo que há coisas que podem ser feitas pelos leigos, ser mais criativos. “Não podemos esperar que tudo tenha sido definido de forma clara e definitiva, há questões que precisam ser mais aprofundadas“, disse Grech. O secretário do Sínodo agradeceu aos jornalistas, “porque vocês também nos ajudam a proclamar o Evangelho”, ajudando a traduzir a linguagem para que as pessoas possam entendê-la, reconhecendo que “chegamos até aqui também com a ajuda de todos vocês”. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Documento final: Na Igreja Sinodal, “a missão envolve todos os batizados”

Depois de quase um mês de intenso trabalho, além de um longo processo de três anos, em que se avançou, às vezes com dificuldade e risco, o documento reconhece a resistência, foi publicado o Documento Final da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, “um tempo para contemplar o Ressuscitado e ver as feridas do mundo”. Um texto fundamental, dado que o Papa anunciou que não terá exortação pós-sinodal. Todo o povo de Deus é sujeito do anúncio do Evangelho. Um documento que dá um novo passo na vida da Igreja, a partir de “um retorno à fonte”, como diz o texto em suas primeiras palavras, depois de muitos passos dados por muitas pessoas, porque “todo o povo de Deus é sujeito do anúncio do Evangelho“. Em um processo sinodal que vai além da Assembleia Sinodal, um exemplo disso são os 10 grupos de estudo que foram criados e a insistência em que a fase de implementação está começando agora, chamando os participantes a “serem missionários da sinodalidade”. Para isso, “o Espírito Santo nos impulsiona a avançar juntos no caminho da conversão pastoral e missionária, que implica uma profunda transformação das mentalidades, das atitudes e das estruturas eclesiais”. O povo de Deus no coração da sinodalidade O texto tem como ponto de partida o coração da sinodalidade, o Povo de Deus, que caminha em comunhão dos fiéis, das Igrejas, dos bispos, no fundamento do ministério petrino e nos pobres. É a partir desse coração da sinodalidade que o Espírito Santo nos chama à conversão, atitude decisiva para sermos cristãos, para sermos discípulos. Todo o caminho sinodal “se desenvolveu à luz do magistério do Concílio” e “está colocando em prática o que o Concílio ensinou sobre a Igreja como Mistério e Povo de Deus”. A sinodalidade está enraizada nos sacramentos da Iniciação Cristã, não é um fim em si mesma, ela aponta para a missão e a impulsiona, o que tem a ver com o estilo, as estruturas, os processos e os eventos sinodais, o que leva à reflexão sobre a autoridade dos pastores. Na sinodalidade, a unidade leva à harmonia, sabendo que os processos nem sempre são respeitados, à unidade dos carismas e ministérios, das Igrejas locais e seu patrimônio, dos povos, línguas, ritos, disciplinas, heranças teológicas e espirituais, vocações, carismas e ministérios a serviço do bem comum. Todos os contextos, culturas, diversidades e relacionamentos são valorizados como “a chave para crescer como uma Igreja sinodal missionária e caminhar sob o impulso do Espírito Santo em direção à unidade visível dos cristãos”, para se abrir a novas perspectivas. Pois “a sinodalidade é, acima de tudo, uma disposição espiritual que permeia a vida cotidiana dos batizados e todos os aspectos da missão da Igreja”. Isso significa fazer da sinodalidade uma profecia social na prática dos relacionamentos. A conversão de relacionamentos A conversão é abordada em três dimensões, seguindo o esboço do Instrumentum Laboris: conversão de relacionamentos, de processos e de vínculos. Novas relações, evitando exclusões, assumindo as atitudes de Jesus, em um bom entendimento entre homens e mulheres, reconhecendo as riquezas de cada contexto, buscando a paz e a superação de todo tipo de mal por meio da prática do perdão e da escuta e do acolhimento dos marginalizados e excluídos. As relações entre carismas, vocações e ministérios em vista da missão e da unidade, dada a participação comum no mesmo Batismo, que confere a todos “igual dignidade no Povo de Deus”, recordando os obstáculos encontrados pelas mulheres “para obter um reconhecimento mais pleno de seus carismas, de sua vocação e de seu lugar nos diversos âmbitos da vida da Igreja”. Isso também se aplica às crianças e aos jovens, que têm uma contribuição a dar para a renovação sinodal da Igreja. Para esse fim, deve-se promover a corresponsabilidade na missão de todos os batizados. O papel dos esposos, da vida consagrada e da teologia é mencionado, sublinhando que “a missão envolve todos os batizados“. O texto faz referência ao ministério ordenado, “a serviço do anúncio do Evangelho e da edificação da comunidade eclesial”, aos bispos, princípio visível de unidade e vínculo de comunhão com todas as Igrejas, em um serviço na, com e para a comunidade. Junto com eles, os sacerdotes e os diáconos, chamados a colaborar e a estar juntos em resposta às necessidades da comunidade e da missão, favorecendo a escuta e a participação dos leigos. A conversão de processos A conversão dos processos baseia-se no discernimento, na prestação de contas e na avaliação do resultado das decisões. Tudo isso em vista de sustentar e orientar a missão da Igreja, sabendo que “o discernimento eclesial não é uma técnica organizacional, mas uma prática espiritual a ser vivida na fé”, que parte da escuta da Palavra de Deus e se desenvolve por etapas, em um contexto concreto, e a partir de vários enfoques e metodologias, sendo necessária uma articulação desses processos decisórios, em uma corresponsabilidade diferenciada, que os leve a ser frutíferos e a contribuir “para o progresso do Povo de Deus em uma perspectiva participativa”. A partir daí, fala-se em transparência, a fim de gerar confiança e credibilidade; responsabilidade, nas ações e decisões; e avaliação dos resultados da missão. Para isso, são criados vários instrumentos e mecanismos, diferentes órgãos participativos, que garantem a adoção de uma metodologia de trabalho sinodal, favorecendo “um maior envolvimento de mulheres, jovens e pessoas que vivem em condições de pobreza ou marginalização“. A conversão de vínculos Sobre a conversão dos vínculos, o ponto de partida é que “a Igreja não pode ser entendida sem estar enraizada em um território, espaço e tempo específicos”, sem ignorar a nova realidade social marcada pelo contexto urbano, pela mobilidade humana, pela cultura digital, alertando que “as redes sociais podem ser usadas para interesses econômicos e políticos que, manipulando as pessoas, difundem ideologias e geram polarizações agressivas“, o que “exige que dediquemos recursos aos encontros digitais”. Também reflete sobre o significado e a dimensão da Igreja local, vista como uma casa, acolhedora e inclusiva, e as articulações…
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Alea jacta est, agora é hora de votar o texto e torná-lo carne

A Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que iniciou sua Segunda Sessão em 2 de outubro, entra em seu momento final neste sábado, com a leitura e aprovação do Documento Final e a Missa de encerramento, que será celebrada no domingo, 27 de outubro, na Basílica de São Pedro, onde será inaugurada a restauração do Baldaquino de Bernini. O que está escrito está escrito Um documento diante do qual, neste momento, só se pode dizer: “alea jacta est” (a sorte está lançada), ou também “o que está escrito está escrito”, já que não há espaço para correções, apenas leitura no sábado de manhã e votação parágrafo por parágrafo no sábado à tarde. Um texto que é fruto de um trabalho coletivo, do “mês sinodal de caminhar juntos ouvindo o seu Espírito”, como rezaram na oração com que iniciaram o dia. Um momento em que sentiram a presença de Deus no meio da Assembleia e foram “transformados por esse processo”, sendo uma profunda “experiência espiritual e eclesial de escuta, diálogo e discernimento em comum”, onde experimentaram a fraternidade do encontro além das diferenças. Uma assembleia na qual foram chamados “a tecer a comunhão a serviço da missão, fortalecendo a participação de todos”. Missionários da sinodalidade Seguindo o pedido de “ser missionários da sinodalidade, levando ao mundo uma mensagem de paz, reconciliação e esperança”, a partir do momento em que o Documento Final é aprovado, independentemente das palavras concretas nele contidas, é hora de tomar medidas para ajudar em sua recepção, disseminação, interpretação, formação, reflexão, implementação e vinculação. Encontrar mecanismos para que todos os batizados possam aceitar o documento como seu, como um instrumento para ajudar no trabalho de evangelização, com uma linguagem que possa ser compreendida, destacando os bons elementos que ele contém, que ajudarão a aprofundar a mensagem do Concílio Vaticano II e o significado de uma Igreja sinodal. Implementar em todos os níveis da Igreja Um Documento que deve ser um veículo de formação para todo o Povo de Deus, desde os bispos até os leigos, com cursos, conferências, vídeos, postagens nas redes sociais, por todos os meios possíveis. Um texto que leve à reflexão teológica, expressa em artigos científicos, congressos, livros coletivos… Mas, sobretudo, um texto que seja implementado em todos os níveis da Igreja, nas comunidades, paróquias, dioceses, pastorais, organismos, seminários, visando a uma mudança de estruturas eclesiais, de novos planos pastorais, de métodos sinodais de discernimento, de uma ministerialidade mais explícita para todos, de uma Igreja ad extra. E todos nós juntos, ou pelo menos ligados àqueles que querem continuar remando, com mais ou menos força, com mais ou menos vontade, mas sempre em frente. Não nos esqueçamos de que o Sínodo é um ponto de partida e não um ponto de chegada, que mais do que o evento sinodal, temos que considerar o processo sinodal. Há muitas portas abertas pelas quais não podemos deixar de passar, seguindo o exemplo de um Papa a quem não falta coragem para continuar caminhando, mesmo que às vezes tenha de usar uma bengala e outras vezes seja empurrado em uma cadeira de rodas. Nada nos impede de continuar, e continuaremos a nos esforçar, cada um a seu modo, para tornar a Igreja mais sinodal, independentemente do que esteja escrito em um texto que devemos transformar em um texto vivo que encha todos de Vida. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Sínodo do Esporte: uma oportunidade para compartilhar valores de vida e superação

Na tarde de 25 de outubro, foi realizada a primeira edição do “Sínodo do Esporte, um diálogo com atletas refugiados, paraolímpicos e olímpicos”. Um momento de intercâmbio e diálogo com o apoio do Dicastério para a Cultura e a Educação e do Dicastério para a Comunicação do Vaticano. Educar no sacrifício Não podemos esquecer que falar de esporte é falar de valores e de vida, como foi dito durante o encontro sinodal. Um dos participantes do Sínodo sobre o Esporte foi o atleta olímpico italiano de origem cubana, Andy Díaz Hernández, que ganhou a medalha de bronze no salto triplo nos últimos Jogos Olímpicos de Paris. O atleta, acompanhado de seu técnico Fabrizio Donato, que também ganhou a medalha de bronze em Londres 2012, compartilhou as dificuldades que enfrentou ao chegar à Itália devido à falta de documentos que lhe permitissem competir. Campeã olímpica na marcha atlética de 20 km nos Jogos Olímpicos de Tóquio e no Campeonato Europeu de 2024 em Roma, a italiana Antonella Palmisano, que é voluntária e realiza trabalhos sociais com pessoas carentes, refletiu sobre a predisposição como forma de educar para o sacrifício envolvido no esporte, especialmente com os jovens. Um testemunho que também foi compartilhado pela velocista italiana, especialista em 400 metros, Alice Mangione. Deus me permite sorrir e seguir em frente Um dos testemunhos mais impactantes foi o de Amelio Castro Grueso, atleta paraolímpico em Paris 2024 na esgrima com a Equipe de Refugiados. Há dois anos, ele foi forçado a fugir da Colômbia, seu país natal, onde, aos 16 anos, perdeu a mãe e, pouco depois, sofreu um acidente de carro que o deixou paraplégico. Um período difícil que ele conseguiu deixar para trás com a prática do esporte, depois de quatro anos no hospital. Em seu testemunho, ele falou sobre estratégia e superação, mas também sobre a importância de Deus em sua vida, em cuja graça ele encontra forças para manter um sorriso no rosto e seguir em frente, para dizer abertamente que é um privilegiado. O refugiado colombiano agradeceu o apoio da Caritas e falou sobre os valores que transmite a seu filho, a quem ensina a importância do sacrifício, de seguir em frente e sempre fazer as coisas direito. As coisas sempre podem mudar Não menos impressionante foi o testemunho da refugiada afegã Mahdia Sharifi, que hoje vive na Itália, onde os primeiros dias não foram fáceis, dada a rejeição dos migrantes por parte da sociedade, embora ela reconheça que com o passar do tempo as coisas melhoraram. Em 2021, ele deixou seu país quando tinha apenas 17 anos de idade em busca de segurança. Desde os 11 anos de idade, começou a praticar taekwondo, tornando-se uma das grandes promessas do esporte no país, entrando para a equipe nacional aos 15 anos. Mahdia, que treina com a equipe nacional italiana e é voluntária em fundações humanitárias, disse que as coisas sempre podem mudar. A refugiada afirmou que o esporte é um milagre que me permitiu salvar minha alma. Com relação ao seu país, ela enfatizou a importância de educar as mulheres para mudar a mentalidade, algo que pode ser alcançado por meio da educação. Alguém que, desde criança, sonhava em se tornar uma atleta olímpica, finalmente conseguiu isso em Paris 2024. O esporte é de todos e para todos O encontro foi concluído com a lembrança das palavras do Papa Francisco que, antes das Olimpíadas, viu o momento como “uma oportunidade para a paz”. O Papa disse na época que “minha esperança é que o esporte possa concretamente construir pontes, derrubar barreiras, promover relações pacíficas… Minha esperança é que o esporte olímpico e paralímpico – com suas histórias humanas emocionantes de redenção e fraternidade, sacrifício e lealdade, espírito de equipe e inclusão – possa ser um canal diplomático original para superar obstáculos aparentemente intransponíveis”. Para o Papa, “o esporte pertence a todos e é para todos: é um direito… O verdadeiro esporte – tecido de gratuidade, de amadorismo – é uma grande ‘corrida de revezamento’ na ‘maratona da vida’, com o bastão passando de mão em mão, cuidando para que ninguém fique sozinho. Ajustar o próprio ritmo ao ritmo do último”. Segundo ele, “quando praticamos esportes juntos, não importa de onde a pessoa vem, seu idioma, sua cultura ou religião. Isso também é uma lição para nossas vidas e nos lembra da fraternidade entre as pessoas, independentemente de suas habilidades físicas, econômicas ou sociais”. Palavras que iluminam as experiências daqueles que hoje foram os protagonistas do Sínodo. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Resetar para retornar à sinodalidade e à missionariedade originais

Quando o computador trava e não responde mais ao que o usuário deseja, a gente faz um reset. O objetivo é voltar às condições originais. Em uma das coletivas de imprensa durante a última semana da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade, que será encerrada no domingo, 27 de outubro, a canonista holandesa Myriam Wijlens comparou o atual processo sinodal a um reset. A sinodalidade e a missionariedade são a base da Igreja. O sistema operacional da Igreja, aquilo que constitui sua essência, baseia-se na sinodalidade e na atividade missionária. O livro dos Atos dos Apóstolos, quando relata o modo de vida da primeira comunidade, é claro a esse respeito: “A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma”. Um modo sinodal, que tem a ver com o modo de vida, “um só coração e uma só alma”, mas também com a prática, “tinham todas as coisas em comum”. O ‘juntos’, um elemento fundamental da sinodalidade, presente no ser e no ter. Por outro lado, a ordem de Jesus aos seus discípulos para irem por todo o mundo e pregarem o Evangelho mostra que a missão é um imperativo na Igreja, não é algo negociável. Sem a missão, a Igreja vai morrendo lentamente, está se fechando em templos, em sacristias, o ambiente está ficando sobrecarregado e o mofo está sujando tudo e destruindo a obra original. O tema da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade colocou o foco na missão, em como ser uma Igreja sinodal em missão. É um retorno ao sistema operacional, para recuperar o que sabemos que fez e fará a Igreja funcionar, porque a história nos mostra que quando a missão e a comunhão são fortalecidas, a Igreja se torna uma verdadeira testemunha da presença de Deus no meio de seu povo, no meio da humanidade. Não tenha medo de reiniciar O problema quando fazemos um reset é que muitas vezes temos medo de apertar o botão, queremos nos segurar, pensando que é possível que as coisas se resolvam, quando na realidade sabemos que isso já se tornou quase impossível. Portanto, temos de nos perguntar se estamos cientes de que a Igreja precisa reiniciar o sistema operacional. Não somos capazes de correr riscos por medo de perder o pouco que temos, que na verdade nunca perderíamos. Pelo contrário, reavivaremos o ardor missionário, a comunhão levará em conta nossos relacionamentos, nossos percursos e criará raízes nos lugares, nos espaços intra e extra eclesiais. O Espírito está nos dizendo: confiemos em sua luz, sigamos seu impulso. Neste momento da história, sigamos o caminho que o Papa Francisco está nos mostrando. Entremos na dinâmica que nos leva a ter um só coração e uma só alma, que nos impele a ser missionários e missionárias até os confins da terra. Nunca nos esqueçamos das palavras de Casaldáliga: o medo é o contrário da fé. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Reunião do Grupo 5 do Sínodo com cardeal Fernández visa a impulsionar a ministerialidade das mulheres

  Os 10 grupos de estudo criados pelo Papa Francisco para tratar de questões relacionadas à sinodalidade são uma ferramenta importante para fazer o processo avançar, como já ficou claro várias vezes. A questão não é se as questões de maior ou menor preocupação na Igreja serão abordadas, mas como e onde elas serão abordadas. Debate sobre os ministérios femininos Um dos grupos mais controversos foi o chamado grupo 5, que estuda “Algumas questões teológicas e canônicas em torno de formas específicas de ministério”, onde foram incluídas questões relacionadas à ministerialidade, especialmente entre as mulheres e em torno do diaconato feminino, que para alguns é uma questão decisiva, mas que podemos dizer que é mais uma realidade entre outras de igual ou maior importância para avançar no caminho da sinodalidade. Na sexta-feira, 18 de outubro, os participantes do Sínodo foram convocados pelos grupos de estudo para uma reunião de escuta e discussão. A convocação do Grupo 5 contou com a participação de mais de 100 pessoas. A ausência do Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, Cardeal Víctor Manuel Fernández, causou mal-estar entre muitos dos participantes da reunião, o que o levou a pedir desculpas, que foram aceitas, e a convocar uma nova reunião para a tarde de quinta-feira, 24 de outubro.   Mais de 100 pessoas em uma boa reunião  A reunião contou novamente com a participação de mais de 100 pessoas e foi descrita como uma boa reunião. O Grupo 5 é composto por cerca de 30 pessoas, homens e mulheres, que assumem vários ministérios e serviços na Igreja, com opiniões diversas, o que enriquece a discussão. O trabalho está sendo realizado em conjunto com os membros e consultores do Dicastério para a Doutrina da Fé, que foram consultados e cujas respostas levarão a uma nova etapa de discussão e votação. Junto com isso, deseja-se uma consulta mais aberta, com a participação de pessoas que trabalham nas comunidades, nas bases, buscando conhecer como o ministério é vivido em diferentes regiões do planeta e realidades eclesiais, que são obviamente muito diversas, e que poderão abrir caminhos para a Igreja universal a partir da realidade concreta, muitas vezes realidades que tradicionalmente não foram levadas em conta, mas que ajudam o Evangelho a continuar se encarnando nas diferentes culturas, na vida das pessoas. Nesse sentido, foi enfatizado que o objetivo é aprender com as experiências das mulheres em comunidades na Amazônia e em outros contextos, onde tanto o ministério masculino quanto o feminino têm sido uma prática comum em muitos lugares por anos, até mesmo décadas.   O diaconato feminino não está maduro, ainda está em debate O tema central dos debates nesse grupo é a participação das mulheres na Igreja, deixando claro que a questão do diaconato feminino não está entre os pontos a serem discutidos, algo que Tucho Fernández expressou em várias ocasiões, sob o argumento de que o Papa Francisco não considera essa questão madura. Ele quer se aprofundar no que apareceu no processo de escuta sinodal e ressalta que muitas mulheres não buscam o diaconato, mas sim uma maior participação em posições de autoridade e liderança dentro da Igreja. O diaconato feminino, embora o Papa o considere não maduro, não é um assunto encerrado, ainda está sendo debatido em comissões nomeadas pelo Papa e que realizam trabalhos que não dependem do Dicastério para a Doutrina da Fé. As posições estão em desacordo, com um grupo apoiando-a abertamente e o outro também rejeitando-a fortemente. Isso não impede o diálogo aberto e respeitoso, que evita divisões e condenações. Tampouco devemos ignorar a diversidade cultural presente na Assembleia Sinodal e na própria Igreja, o que enriquece o diálogo e permite que diferentes realidades pastorais sejam levadas em consideração. Nesse sentido, a distinção entre ministério ordenado e autoridade foi colocada como uma questão relevante, afirmando que eles não estão necessariamente conectados. Nesse debate, o objetivo é esclarecer qual autoridade pertence somente ao ministério ordenado e qual autoridade pertence a todos os batizados. De fato, enfatiza-se que os leigos, inclusive as mulheres, podem ter papéis de liderança e autoridade sem precisar ser ordenados.   Mudança dos estereótipos femininos e masculinos Na reunião, foi destacada a necessidade de mudar os estereótipos sobre mulheres e homens dentro da Igreja, que levam a ver as mulheres com atitudes de gentileza e proximidade, e os homens como fortes e tomadores de decisão. Isso precisa ser desmontado. Por outro lado, não há consenso teológico ou histórico. Entre as propostas, que sem dúvida ajudarão o Grupo de Estudos 5 a avançar, há um apelo para receber propostas concretas e realistas sobre como capacitar as mulheres na Igreja e promover sua participação em funções de liderança, além do diaconato. Eles querem encontrar maneiras de promover a ministerialidade com ministérios que não exijam as Ordens Sagradas, dando como exemplo o Ministério de Catequistas, que, em algumas regiões, como na Amazônia, tornaram as mulheres uma verdadeira presença eclesial na maioria das comunidades. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1