Av. Epaminondas, 722, Centro, Manaus, AM, Brazil
+55 (92) 3232-1890
cnbbnorte1@gmail.com

Categoria: Uncategorized

Cardeal Steiner não vê dificuldade para a ordenação de diaconisas e homens casados em algumas realidades

O arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Steiner, se fez presente nesta-terça feira, 15 de outubro, na Sala Stampa vaticana, respondendo a diversas questões. Dentre elas a situação climática na Amazônia, o papel das mulheres e a possível ordenação de diaconisas e de homens casados, e como na Igreja de Manaus e da Amazônia se vive a sinodalidade. A sinodalidade tem a ver com o meio ambiente Diante da situação climática que vive a Amazônia, castigada por segundo ano com uma seca extrema, o arcebispo de Manaus disse que “a sinodalidade tem a ver com o meio ambiente”. Reconhecendo que isso não está sendo abordado na Segunda Sessão da Assembleia Sinodal, ele disse que “se olharmos a Querida Amazônia, o Papa Francisco nos dá uma hermenêutica da totalidade que é tremendamente sinodal. A cultura, as questões sociais, as questões ambientais e a vida eclesial. Isso tudo forma uma totalidade hermenêutica”. Nesse sentido, sublinhou o cardeal, “é que nós abordamos a questão de meio ambiente em nossa arquidiocese de Manaus, mas também nas outras dioceses que compõem nosso Regional Norte1”. Ele denunciou o momento dramático que a Amazônia vive, detalhando algumas situações ao respeito, dificultando o acesso às comunidades e o trabalho pastoral nelas. Uma situação climática que atinge outras regiões do Brasil, e que segundo o membro da Assembleia Sinodal, vive uma dramatizada provocada pelo desmatamento, “essa agressão ao meio ambiente na Amazônia, através do garimpo, a poluição das águas pelo mercúrio do garimpo, a pesca predatória”. “Tudo isso faz com que nós como Igreja temos a obrigação de ir ao encontro das comunidades, mas despertar a sociedade da nossa região para as questões climáticas para as questões do meio ambiente”, afirmou. O arcebispo disse que a Igreja de Manaus está levando mantimentos e água para as comunidades, quase uma contradição numa região com tanta água, que hoje não é mais potável. As mulheres na Igreja da Amazônia O papel das mulheres na Amazônia é fundamental, sublinhou o cardeal Steiner. Numa região onde as comunidades viveram por mais de 100 anos sem a presença do presbítero, “e as comunidades continuaram vivas, rezando, celebrando e tendo seus modos de oração”, enfatizou. Nesse sentido, ele disse que “as mulheres levaram adiante as comunidades e hoje estão levando a frente as nossas comunidades”, lembrando os ministérios que recebam as mulheres na arquidiocese de Manaus, da Eucaristia, da Palavra, dirigentes de comunidades, sendo proposto atualmente para as comunidades mais distantes que possam celebrar o Batismo. “Várias das nossas mulheres são verdadeiras diaconisas, sem terem recebido a imposição das mãos. E essas diaconisas, nós gostaríamos de chamá-las diaconisas, mas para não dar confusão com o ministério ordenado, nós ainda não achamos uma palavra condizente”, afirmou o arcebispo de Manaus. Ele enfatizou: “é admirável, admirável, o quanto as mulheres são responsáveis pela nossa Igreja, é admirável”. O cardeal prosseguiu, “quantas delas estão à frente das comunidades, são dirigentes da Palavra de Deus, reúnem as comunidades para um momento de oração”, lembrando a presença feminina em algumas pastorais. Um trabalho que levou o cardeal a dizer que “a nossa Igreja, não seria a Igreja que é sem a presença das mulheres”. Sobre a ordenação de diaconisas, o arcebispo de Manaus lembrou a existência de uma comissão que estuda essa questão historicamente. Ele questionou que “se nós vemos que isso historicamente já foi presente na Igreja, por que não restaurar o diaconato feminino ordenado se já houve na história da Igreja assim como se fez depois do Concílio em restaurar o diaconato permanente para os homens”. Ele insistiu em que “essas questões não deveríamos deixar de refletir, aprofundar, não deixarmos de recordar o papel fundamental, a missão fundamental da mulher na Igreja”. Lembrando as palavras de uma mulher em seu grupo, ele disse que “não vamos criar uma questão de género, é simplesmente uma questão de vocação na Igreja, a vocação da mulher dentro da Igreja, na Igreja, nas nossas comunidades”. Do Sínodo da Amazônia ao Sínodo da Sinodalidade O arcebispo de Manaus refletiu sobre a realidade da arquidiocese, marcada pela presença indígena, dos migrantes, com comunidades indígenas que têm um modo diferente de se estruturar, uma realidade a ter em conta. Falando sobre a continuidade entre o Sínodo para a Amazônia e o atual, ele disse que “o Sínodo da Amazônia abriu a possibilidade de termos um Sínodo da Sinodalidade”, destacando a participação de mais de 80 mil pessoas na preparação do Sínodo para a Amazônia, algo muito significativo, “um caminho que se foi fazendo”. Segundo o cardeal, “a Sinodalidade é um caminho sem retorno”, pois “todos nós estamos entrando dentro de um movimento de ser Igreja, estamos sendo convidados a participar de um modo de ser Igreja aonde cada um que recebeu a graça do batismo e da crisma, foi revestido do Espírito Santo e de Jesus, se sintam responsáveis pela missão”. Na Assembleia Sinodal, o cardeal disse estar querendo partilhar a experiência da participação de todos, uma riqueza enorme que nós temos”, lembrando que essa caminhada está presente há mais de 50 anos na Amazônia. Uma prática presente na arquidiocese de Manaus, onde mais de mil comunidades são consultadas para ver como ser mais Igreja missionária. Uma Igreja onde “os leigos vibram em puderem ser missionários e missionárias”. Possibilidade de ordenar homens casados em algumas realidades Sobre a ordenação de homens casados, ele disse que na arquidiocese de Manaus são mais de mil comunidades e 172 presbíteros, questionando como atender as comunidades, algo que disse lhe preocupar, pois não se consegue acompanhar a vida sacramental das comunidades. Depois de afirmar que o Santo Padre não fechou a questão, ele enfatizou que “para determinadas realidades não seria uma dificuldade admitir homens casados à ordenação”, reconhecendo que “para outras realidades na Igreja, é uma grande dificuldade”. Nesse sentido disse que a atitude do Santo Padre de não dar esse passo seja uma questão de garantir a comunhão. Ele pediu continuar dialogando, olhando a comunidade, que é o motivo da existência da Igreja.    Luis Miguel Modino, assessor…
Leia mais

“Na pobreza, no quase nada, existe uma fraternidade profundamente evangélica”, diz cardeal Steiner após funeral de morador de rua

A Praça de São Pedro perdeu o anjo que indicava o caminho no mês de agosto. Assim era conhecido José Carlos de Sousa, o morador de rua brasileiro que foi sepultado em Roma nesta terça-feira, 15 de outubro, depois de não ter sido localizados seus familiares e respeitar os trâmites burocráticos que exigem dois messes de espera. Aos voluntários que lhe atendiam, ele só pedia cadernos para escrever poemas, sua grande paixão. Outro sonho era visitar Jerusalém, mas como disse na Sala Stampa o prefeito do Dicastério para a Comunicação, ele já está disfrutando da Jerusalém celestial. Os moradores de rua presentes O funeral, celebrado na Igreja de Santa Mónica, ao lado da Praça de São Pedro, onde ele viveu durante anos, foi presidido pelo esmoleiro pontifício, o cardeal Krajewski, e pelo arcebispo de Manaus, o cardeal Steiner, que quando ficou sabendo pelo cardeal polonês sobre o funeral do brasileiro, ele pediu para poder acompanhá-lo, ainda mais depois dele conhecer como o brasileiro falecido vivia. O cardeal Steiner definiu o funeral como “um momento muito privilegiado, mesmo porque eu percebi que na celebração estavam os companheiros e as companheiras dele”. O arcebispo de Manaus disse que “quando o caixão foi colocado no carro fúnebre, cada um deles colocou junto uma flor. Nós não colocamos, mas os companheiros colocaram. Isso nos emociona, nos toca”. Diante disso, o cardeal Steiner disse que “na pobreza, no quase nada, existe uma fraternidade profundamente evangélica”, reafirmando o privilégio de poder participar desse momento profundamente celebrativo, “porque foi um sinal de que o Reino de Deus, a vida de Deus está presente onde muitas vezes nós achamos que não está”. A vida de Deus floresce também na morte “A vida de Deus floresce também na morte. Quem acabou tendo mais vida fomos nós que lá estávamos”, disse o cardeal. Ele lembrou que “em Manaus, nós também gostamos muito de estar quando nós enterramos um dos nossos irmãos e irmãs que vivem nas nossas ruas. Nós não só gostamos, queremos estar juntos nesse momento”, destacando que os que estão na rua também estão juntos. “Na rua, em todos os lugares, eu não falo, eu só olho, escuto, lembro, escrevo, porque não quero estar sozinho no mundo”, são palavras de uma das poesias de José Carlos, lidas no final da coletiva de imprensa deste 15 de outubro pela vice-diretora da Sala Stampa vaticana, Cristiane Murray. Algo que sem dúvida nos leva a pensar. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1 – Fotos: Vatican Média

Cardeal Steiner A Assembleia Sinodal “nos ajuda a acreditar cada vez mais na forma sinodal de nossa Igreja”

A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade iniciou nesta terça-feira a reflexão sobre o último módulo, o dos Lugares. Como de costume, os jornalistas conheceram os passos dados nas últimas horas, um resumo que é relatado pela secretária da Comissão de Comunicação do Sínodo, Sheila Pires, e pelo prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini. Destaques do dia Sheila Pires fez um breve relato dos principais pontos da meditação de Madre Maria Inazia Angelini e da apresentação do Módulo dos Lugares feita pelo Cardeal Hollerich. Paolo Ruffini, por sua vez, referiu-se ao trabalho realizado nos círculos menores, lembrando que o Cardeal Krajewski e o Cardeal Steiner participaram na manhã desta terça-feira da celebração do funeral de um sem-teto brasileiro, que morreu sob a colunata da Praça de São Pedro, conhecido como o anjo, que dava indicações aos turistas e não pedia dinheiro, mas cadernos para escrever poemas. Seu sonho, lembrou o prefeito, era ir a Jerusalém e agora ele está na Jerusalém celestial. Entre as reflexões na Sala Sinodal, ele destacou o tema dos lugares físicos e digitais, as discussões sobre como viver de forma dinâmica nas grandes cidades. Oração, retiro e conversas Na ocasião, os convidados foram o Arcebispo de Manaus, Cardeal Leonardo Steiner, o Arcebispo de Turim, que será criado Cardeal no consistório do dia 7 de dezembro, Dom Roberto Repole, e a Irmã Nirmala Alex Nazareth, Superiora Geral das Irmãs do Carmelo Apostólico. A religiosa expressou sua alegria em participar do Sínodo, ressaltando que há grandes diferenças entre a Primeira Sessão da Assembleia e esta Segunda Sessão. Para ela, são importantes a oração, o retiro e as conversas em torno das mesas, que “nos mostraram uma enorme riqueza em relação à diversidade”, algo presente na Índia. As reflexões têm se tornado cada vez mais interessantes, disse ela, questionando como os participantes se colocarão na Igreja e na sociedade quando voltarem para casa. Ela lembrou as palavras de Madre Teresa de Calcutá, que fala sobre encontrar a graça de Deus e seguir Seu caminho de discernimento. Isso porque “o Senhor tem um plano para cada um de nós”, já que as coisas não são como queremos que sejam. Olhando para o futuro, ela expressou suas esperanças, pois esse caminho não pode nos levar para trás, “nós iremos adiante se formos capazes de guiar nossas comunidades”, sua congregação no caso dela. Finalmente, ela destacou a importância da “oração pessoal para entender o convite de Deus para mim nessa jornada sinodal”. Uma experiencia riquíssima de ser Igreja “A experiencia do Sínodo é uma experiencia riquíssima de ser Igreja”, afirmou o cardeal Steiner, que agradeceu ao Papa Francisco por “ter nos induzido nesse caminho, o caminho da sinodalidade”. O arcebispo de Manaus ressaltou que na Segunda Sessão ele participa de grupos de língua italiana, com uma grande diversidade de culturas, um grande enriquecimento, que “abre o horizonte de compreensão da sinodalidade”. “Vamos percebendo cada vez mais que sinodalidade é um modo de ser Igreja para anunciar juntos o Reino de Deus, o evangelho, Jesus crucificado e ressuscitado, a plenitude do Reino de Deus. Esse modo, devagar vai sendo construído, porque sinodalidade é um caminho, um colocar-se a caminho, um pôr-se a caminho, e é o que estamos experimentando no Sínodo. Depois do Sínodo é que continuaremos esses processos nas nossas comunidades, nas nossas dioceses”, sublinhou o cardeal Steiner. Reconhecendo que várias Igrejas já estão no caminho da sinodalidade, o arcebispo de Manaus disse que “o Sínodo está abrindo o leque de compreensão para sermos cada vez mais uma Igreja sinodal”. Ele destacou a rica participação do laicato na região amazônica, sobretudo das mulheres, sua liderança nas comunidades, o fato de ser realizadas as assembleias, com participação de todos, se fala livremente, se discute livremente, se reza juntos, mas também se decide juntos as linhas pastorais”, destacou. A experiencia feita na Assembleia, “nos ajuda a acreditar cada vez mais no jeito de ser sinodal da nossa Igreja”. Igualmente destacou que a sinodalidade nos chama a uma maior abertura com relação à interculturalidade e à inter religiosidade, para que o evangelho seja cada vez mais inculturado, algo pedido pelo Papa Francisco em Querida Amazônia. Finalmente, falando sobre o Módulo dos Lugares, destacou elementos muito interessantes: “qual é o lugar da conferência episcopal, qual é o lugar dos pobres, qual é o lugar dos migrantes”, o que ajuda a aprofundar nos lugares, “que não são apenas os lugares já definidos, mas os lugares onde devagarinho vamos experimentando o Reino de Deus, mas também recebendo elementos qe nos ajudem a viver cada vez mais o Evangelho, o Reino de Deus”. Oportunidade para compreender a catolicidade da Igreja Dom Repole iniciou seu discurso recordando a arquidiocese de Turim, mostrando o que está vivenciando em sua Igreja local, em uma fase singular, retomando com mais entusiasmo o anúncio do Evangelho na cultura atual. Nessa perspectiva, ressaltou a importância de preservar todos os carismas que fazem parte da Igreja de Turim. A participação no Sínodo foi considerada por ele uma graça, identificando o que experimentou em Turim e no Sínodo. Destacou a conversa espiritual como algo que leva a buscar a voz do Espírito através da voz do irmão e da irmã. Daí a importância de momentos de silêncio e reflexão para relançar a conversa no Espírito. O cardeal recém-nomeado se referiu à maior familiaridade com os outros membros neste ano, vendo isso como um exercício de sinodalidade na prática; na Assembleia Sinodal, a sinodalidade é vivida, descobrindo que o Espírito pode falar através do outro. Da mesma forma, a Assembleia é uma oportunidade para compreender a catolicidade da Igreja, a riqueza de ver que a Igreja é verdadeiramente católica, que respira com todas as culturas e oferece o Evangelho a todas as culturas. Junto com isso, a importância dos fóruns teológicos pastorais organizados este ano, que nos mostram que a sinodalidade tem a ver com uma maneira de viver juntos. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Na Igreja sinodal, o Evangelho foge de toda estática

A Igreja sinodal, para realizar sua missão, precisa estar enraizada “em um lugar concreto, em um contexto, em uma cultura”, advertiu Maria Inázia Angelini aos participantes da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está sendo realizada na Aula Paulo VI do Vaticano de 2 a 27 de outubro de 2024. Evitando toda estática Na meditação que precedeu o início da reflexão sobre o Módulo dos Lugares, a monja beneditina recordou a condição dos primeiros cristãos, como “estrangeiros residentes”, afirmando que “se o lugar da Igreja é sempre um espaço-tempo concreto de encontro, o caminho do Evangelho no mundo vai de limiar em limiar: foge de toda estática, mas também de toda ‘santa aliança’ com os contextos culturais da época. Ele habita neles e é guiado por seu Princípio vital – o Espírito do Senhor – para transcendê-los”. Uma dinâmica já presente no “não está aqui” da ressurreição e na vida da primeira Igreja, cujos membros, “as proporções da cruz de Jesus os protegem imediatamente de se enredarem em culturas sedentárias e idólatras. Em sabedorias achatadas sobre a dinâmica da autossalvação”. A partir daí, “a memória das palavras de Jesus também exorta a Igreja de hoje a se enraizar em todas as partes da humanidade, mas a torna vigilante com relação a toda homologação”. O desafio, de acordo com o Instrumentum Laboris da Segunda Sessão, é “superar uma visão estática dos lugares”, ressaltou a religiosa, “mesmo os mais sagrados, mesmo os mais populares”. Banquetes na Bíblia Em suas palavras, Angelini refletiu sobre os banquetes, o banquete universal de Isaías e aquele em que, no encontro com o fariseu, Jesus mostra sua abertura ao diálogo com aqueles que são diferentes. Isso “porque a diferença ilumina e discerne a autenticidade dos lugares”. Jesus ama os banquetes, afirmou ela, porque “para Jesus, a mesa humana é um ‘lugar’ de encontro no caminho, e um lugar arriscado de verdade”. Nas palavras da beneditina, a mesa é “um lugar do humano onde a itinerância constitutiva da proclamação encontra uma parada necessária; onde os relacionamentos têm suas raízes; um ‘lugar’ altamente simbólico onde a fome é desnudada e compartilhada de baixo para cima, mas também um lugar onde as hipocrisias ocultas são expostas”. Para Jesus, o lugar é onde o homem passa fome, pois ali “o Evangelho da verdade pode ser anunciado”. Portanto, “a Igreja Sinodal é – sempre – desafiada a redescobrir esses lugares”, enfatizou. É no lugar radical do humano que Jesus inaugura a relação generativa, o lugar para dizer Deus. Mas ele também advertiu contra “os banquetes inspirados na lógica mercenária e o protagonismo que se aproveita do outro em necessidade”, que é comum hoje em dia. Jesus busca “uma ética da interioridade e da autenticidade, e a rejeição de todo ritualismo vão”. Para Angelini, “a duplicidade de coração contradiz radicalmente a coexistência das diferenças”, afirmando que “o diálogo com as culturas implica discernimentos arriscados, raramente aplaudidos”. A religiosa advertiu contra “a hipocrisia que tanto desanima as novas gerações”, sobre “culturas de aparência, que não saciam, na realidade, ao contrário, nos matam de fome”. Diante disso, fez um apelo para promover o estilo de Deus, para reunir os outros, em uma interioridade regenerada, e a partir daí, hoje, “redescobrir a fecundidade dos lugares onde podemos compartilhar a fome e a esperança humilde e tenaz”, buscando a fraternidade, “na mesa onde todos podem desfrutar, na mesa onde podem extrair e transmitir o Dom que nos torna um dom para os outros”, concluiu. Necessidade de uma Igreja enraizada Por sua vez, o relator geral do Sínodo, Cardeal Hollerich, lembrou que este módulo fala da “concretude dos contextos nos quais as relações são encarnadas, com sua variedade, pluralidade e interconexão, e com seu enraizamento no fundamento nascente da profissão de fé”, citando o Instrumentum Laboris. Para o cardeal de Luxemburgo, citando o mesmo texto, “a Igreja não pode ser compreendida sem estar enraizada em um lugar e em uma cultura”, defendendo a concretude, o enraizamento, refletindo sobre as redes de relacionamentos, marcadas pelo ambiente digital. Nessa perspectiva, refletiu sobre “as relações que se estabelecem entre lugares e culturas”, o que leva a abordar a comunhão, os vários âmbitos de relacionamento entre igrejas, a troca de dons, e dentro das igrejas locais, explicitando elementos presentes no Instrumentum Laboris. Hollerich lembrou o propósito do Sínodo: “o Santo Padre nos chamou aqui para ouvir nossos conselhos sobre como tornar seu serviço e o da Cúria Romana mais eficazes hoje”, insistindo que “ele tem o direito de saber o que realmente pensamos, a partir da vida e das necessidades do Povo de Deus nos lugares de onde viemos”. Um Módulo que “atravessa e questiona a experiência vivida por aqueles de nós que estão aqui”, afirmou. Hollerich recordou o que foi vivido na Aula Paulo VI, onde os participantes da Assembleia Sinodal “viveram uma experiência rica e intensa”, mas também não isenta de “privações e dificuldades”, que “leva a um encontro com o Senhor e faz surgir a alegria do Evangelho”. Para que isso não permaneça um privilégio dos participantes, ele nos convidou a “nos perguntarmos quais são os caminhos, as formas, também organizacionais e institucionais, para que a riqueza da experiência que vivemos aqui, neste lugar, possa ser acessível a todo o Povo de Deus, e não apenas através de nossa história, mas também através da renovação de nossas Igrejas”. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

A sinodalidade, sem transparência e prestação de contas, fica estagnada

A transparência e a prestação de contas do trabalho pastoral são elementos que ninguém pode ignorar em uma Igreja sinodal. Para avançar nessa dinâmica, é necessário levar em consideração os contextos locais específicos, com suas características culturais e tradições históricas. Nada pode ser avaliado de forma abstrata e, além disso, promover a mais ampla participação, já que todos os membros do Povo de Deus podem e devem contribuir, fortalece esse caminho. Cultura de transparência e responsabilidade Para avançar nesse caminho sinodal, para poder caminhar juntos, para gerar atitudes que favoreçam a confiança mútua entre os membros do Povo de Deus, é necessário ir além da prática, para estabelecer uma cultura de transparência e responsabilidade. Somente assim a sinodalidade e a corresponsabilidade poderão se solidificar, pois isso mostrará o valor das ações realizadas no exercício dos diversos ministérios na comunidade. Ao contrário, a falta de transparência e de prestação de contas alimenta o clericalismo e a desconfiança. Esses processos de transparência e prestação de contas precisam de instâncias e maneiras de avaliar o modo como as responsabilidades ministeriais de todos os tipos são exercidas, inclusive entre o clero. A avaliação, especialmente se participativa, permite ajustes apropriados nos planos pastorais e promove a capacidade de servir melhor os membros do Povo de Deus de acordo com suas respectivas vocações e articulação no serviço. Trazer isso para a vida cotidiana da Igreja é um desafio para o avanço da sinodalidade prática. Na medida em que pensamos que estamos acima do bem e do mal, que não temos que prestar contas a ninguém, que não é necessário ser transparente, a vida da Igreja está desmoronando, a comunhão está se perdendo, a participação das pessoas é reduzida à expressão mínima e, na missão, o vigor necessário para que outros descubram no testemunho de cada batizado a força do Espírito de Deus está se dissipando. A necessidade de conselhos pastorais e econômicos Os conselhos pastorais e econômicos são um instrumento para aumentar a transparência, e se deve garantir que eles sejam ouvidos e que suas opiniões sejam levadas em consideração quando as decisões forem tomadas. Os conselhos devem ser vistos como uma necessidade em todas as instituições da igreja. Quando os vários ministérios que compõem o Povo de Deus são ignorados na composição dos conselhos, quando o planejamento pastoral e econômico é assunto de uma pessoa ou de um pequeno grupo que nada questiona, o Evangelho e, com ele, a vitalidade da Igreja, se perdem. Da mesma forma, a publicação de um relatório periódico e de um demonstrativo financeiro regular, e mostrar como tudo isso contribui para o desenvolvimento da missão, são atitudes que não podem mais ser ignoradas. Por fim, não podemos ignorar que, para a devida prestação de contas, é necessário promover o acesso das mulheres a cargos de autoridade e sua participação nos processos decisórios, bem como a participação daqueles que exercem ministérios e cargos na Igreja nos processos de monitoramento e avaliação do desenvolvimento da missão. Nunca nos esqueçamos de que a sinodalidade não é uma teoria, mas uma prática, que precisa de instrumentos, entre os quais a transparência e a prestação de contas nunca podem estar ausentes. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Liliana Franco: “As experiências sinodais são laboratórios para um serviço melhor”

Os processos de escuta têm sido um elemento importante no caminho da Igreja nos últimos anos. Na América Latina e no Caribe, isso foi levado em conta, especialmente desde o Sínodo para a Amazônia, algo que posteriormente foi aprofundado com a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe e o atual processo sinodal. A irmã Liliana Franco, presidente da Confederação de Religiosos e Religiosas da América Latina (CLAR), participou dos dois sínodos e da assembleia eclesial. A escuta é transversal De acordo com a religiosa colombiana, presente na Sala Stampa do Vaticano, “esses dois últimos sínodos, incluindo o Sínodo sobre a Juventude, e essas experiências que estamos tendo nos diferentes continentes nos mostram a importância da escuta como parte transversal de qualquer processo de humanização”. Em relação ao Sínodo da Amazônia, a presidenta da CLAR lembrou que “o Sínodo da Amazônia já afirmava com muita força que a escuta leva à conversão, que realmente o que tem o poder de gerar transformação, de modificar atitudes e estruturas é a escuta, a escuta de Deus e a escuta dos territórios, da realidade”. Algo em que “estamos nos capacitando, que todas essas experiências sinodais acabam sendo como laboratórios que nos capacitam para um melhor serviço”, afirmou Liliana Franco. A religiosa insistiu que “temos muito a aprender, na Igreja e na sociedade, porque muitas vezes todos os seres humanos vamos com nossos próprios monólogos, ideias, paradigmas das coisas”. Diante dessas situações, a religiosa acredita que “a escuta está se posicionando como o caminho, como a maneira de entender a narrativa do que Deus tem a dizer a nós, seres humanos”. Escutar para se aproximar de Deus A escuta, reforçou a presidenta da CLAR, “é a possibilidade de se aproximar e de se aproximar com mais serenidade, com mais sinceridade e com mais reverência da vontade de Deus”. Escutar porque “realmente nos transforma, nos converte”, algo que ela considera um processo de aprendizagem. Uma realidade sobre a qual algumas igrejas locais ou continentais têm maior experiência, lembrando que “se exercitaram mais repetidamente nesses processos de escuta e fizeram da escuta uma atitude vital”. Diante dessa dinâmica de escuta, afirmou que “como toda a Igreja, temos o grande desafio de entender que esse é o caminho da conversão para nós, e até mesmo o caminho da credibilidade em tempos complexos como os que vivemos, tanto como Igreja quanto como sociedade”. Cultura do cuidado Em resposta a uma pergunta sobre o abuso a religiosas, a presidente da CLAR afirmou que “na Igreja nos acostumamos a viver em meio a relações rígidas, a estilos que excluem, a nacionalismos que excluem”. Diante dessa situação, Liliana Franco vê como um grande desafio “purificar as relações para tornar possível essa cultura do cuidado”. Esta é uma questão que a Vida Consagrada em todo o mundo está levando a sério, afirmou. Neste sentido, falando sobre o continente latino-americano e caribenho, assinalou que “temos realizado processos muito claros com os 150.000 religiosos da América Latina e do Caribe que nos permitem revisar nossos modos relacionais, que o que somos e o que fazemos é abusivo, porque não abre espaço para a diferença, porque não é inclusivo”. “Todos nós, na Igreja, estamos em um processo de revisão de nossos modos relacionais, que claramente não são coerentes com o modo de Jesus e que requerem conversão”, afirmou. A partir daí, ela continuou dizendo que “a vida religiosa feminina não está à margem disso, tanto para revisar suas próprias formas de se relacionar, porque às vezes dentro das comunidades e congregações pode haver formas que não são vividas e assumidas a partir de uma cultura saudável de cuidado, como também para reconhecer formas que vêm de fora e que violam as possibilidades, os direitos ou a dignidade das mulheres consagradas”. A religiosa enfatizou que “este processo sinodal nos coloca frente a frente com a revisão necessária e uma opção”. Nesse sentido, destacou que “a opção que este processo está colocando no coração de toda a Igreja é a opção pela cultura do cuidado, por uma forma de nos relacionarmos uns com os outros que seja mais semelhante à forma de Jesus”. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Abusos sexuais, de poder, de consciência e espirituais contra religiosas pauta da Assembleia Sinodal

A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal, que está sendo realizada na Aula Paulo VI, no Vaticano, de 2 a 27 de outubro, está na metade do caminho. A terceira das quatro semanas em que essa fase do processo sinodal está dividida, se contarmos o retiro anterior, começou na segunda-feira. Percursos: processos de tomada de decisão, transparência, responsabilidade e avaliação A assembleia está discutindo o módulo sobre percursos. Esse módulo, lembrou Sheila Pires, secretária da Comissão para a Comunicação, diz respeito ao tema de processos de tomada de decisão, transparência, responsabilização e avaliação. Segundo Pires, foram relatadas experiências relativas a essas temáticas chegadas de diversos lugares, dentre elas da Amazônia, sublinhando “a dificuldade de encontrar a harmonia entre as tradições cristãs e os ritos locais”. Algo que acontece, como foi dito, “porque a Igreja no passado negligenciou a diversidade e a complementariedade entre as culturas”, afirmou a jornalista. Igualmente, Pires relatou as falas sobre envolver as crianças na vida da Igreja, valorizar os catequistas, escutar os jovens, incluir as escolas católicas nos processos de evangelização e formação. Uma realidade que parece ter aparecido com força, foi a violência sofrida pelas religiosas, não só abusos sexuais, mas abusos de poder e de consciência, assim como abuso espiritual. Situações que muitas vezes ficam ocultas, devido ao comportamento patriarcal da sociedade, e que demanda introduzir procedimentos e sistemas nas dioceses e nas conferências episcopais para fazer face a esses problemas. Também foi pedido garantir dignidade às mulheres consagradas e leigos, e foi refletido sobre a falta de presença feminina na formação dos seminários em vista de uma formação equilibrada. Processos de tomada de decisão Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação, destacou a reflexão sobre os processos decisórios, a necessidade de criar conselhos decisórios com a presença de leigos e especialistas. Ele abordou novamente a questão dos abusos e da transparência nesse campo e nas finanças como um elemento fundamental em uma Igreja sinodal, uma transparência que deve ser equilibrada com a confidencialidade. Uma prestação de contas que também deve ser dada aos pobres. Ele também abordou questões relacionadas ao Código de Direito Canônico, insistindo que ele não deve ser uma ferramenta restritiva, mas sim uma ferramenta para a defesa dos mais pobres. Como antídoto para o clericalismo, ele propôs relações dinâmicas, envolvendo mais pessoas na tomada de decisões. Colocando-nos mais radicalmente no estilo de Jesus Entre os convidados da Sala Stampa, a primeira a se dirigir aos jornalistas, a quem agradeceu o serviço prestado a esse processo sinodal, foi a presidente da Confederação de Religiosos e Religiosas da América Latina e do Caribe, Liliana Franco. No Módulo Percursos, que foi estudado em profundidade nos últimos dias, ela destacou quatro grandes temas: formação, discernimento, participação e responsabilidade, que “nos colocam mais radicalmente no caminho de Jesus”, no estilo do Evangelho, “o estilo que deve permear tudo o que é sinodal”. Uma resposta à grande pergunta da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal: Como ser uma Igreja sinodal em missão? Para Liliana Franco, “a formação só faz sentido se nos torna melhores testemunhas”, que deve ser integral, humana, inclusiva, contextualizada, atenta à realidade, sublinhando a necessidade de formação com os outros, juntos. Uma formação que olhe para as crianças e os jovens, com eles e como eles, novas formas de formação que nos permitam ser melhores testemunhas. Sobre o discernimento, ela o vê como “o caminho para descobrir o que o Espírito quer da Igreja”, discernimento pessoal e comunitário para buscar juntos na diversidade “a direção de nossa vida em missão”, com estruturas e instâncias mais participativas. Finalmente, a religiosa se referiu à transparência e à prestação de contas, mais do que como um meio, como uma cultura que deve ser ancorada na Igreja, como um modo de ser e estar, como algo natural. O processo sinodal em Ruanda Em segundo lugar, o Bispo de Cyangugu, Dom Edouard Sinayobye, que vê o atual processo sinodal como inspirado no que os apóstolos experimentaram e fizeram depois de receber o Espírito Santo no Cenáculo. Para Ruanda, o processo sinodal é uma oportunidade de unidade e reconciliação, após 30 anos de genocídio, algo difícil, dada a necessidade de acompanhar as vítimas e os carrascos, sendo assim um Kairos, em vista do progresso na comunhão, que levou à promoção de uma pastoral de unidade e reconciliação na Igreja ruandesa. Nessa perspectiva, o bispo vê no processo sinodal, do qual todos participam, das crianças aos idosos, uma oportunidade de aprofundar os fundamentos teológicos e bíblicos que “nos mostram que somos um”, uma mensagem que ajuda o povo a caminhar junto, a fortalecer a unidade e a reconciliação, visto que, depois do que aconteceu, não é fácil voltar a caminhar como irmãos e irmãs, assumir um estilo de vida fraterno e espiritual, sair ao encontro de todos, aprender a ser missionários e ser formados na práxis missionária, o que está sendo realizado por meio de várias experiências, relatadas pelo bispo. Discernimento eclesial para a missão Por fim, o Arcebispo de Riga (Letônia), Dom Zbigņevs Stankevičs, vê este Sínodo como uma resposta ao desejo de envolver cada pessoa batizada na missão da Igreja de evangelizar o mundo, algo que ele disse estar muito presente em seu ministério desde que foi ordenado bispo. É uma questão de liberar os dons e carismas de todos os batizados, e essa é a tarefa dos bispos, do clero, enfatizando a importância da corresponsabilidade e da descentralização, como expressão da comunhão eclesial. O bispo refletiu sobre o número 58 do Instrumentum Laboris da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal, que trata da questão do discernimento eclesial para a missão. Ele enfatizou que o objetivo final do Sínodo é a missão, e por isso é necessário que as estruturas da Igreja sejam mais missionárias. Para isso, pediu um aprofundamento das experiências das conferências episcopais, nas escolas de evangelização, buscando uma formação missionária, algo que já está sendo realizado por meio de experiências concretas. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Na Igreja Sinodal, até mesmo o Papa aguarda para tomar seu lugar

A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está sendo realizada na Aula Paulo VI, no Vaticano, de 2 a 27 de outubro de 2024, iniciou sua terceira semana de trabalho na segunda-feira. O trabalho no Módulo Itinerários termina hoje e, a partir de terça-feira, terá início o último módulo, que fala sobre os Lugares. Ele esperou na porta até o final da oração. Na Aula Paulo VI, observamos situações que nos levam a refletir sobre o significado de uma Igreja sinodal. Assim que a assembleia estava rezando, estava sendo lido o Evangelho, que é a maneira habitual de começar os trabalhos todas as manhãs e todas as noites, o Papa Francisco, em um gesto incomum na Igreja, chegou e esperou na porta por vários minutos até que a oração terminasse, antes de ir para seu lugar em uma das mesas redondas. A pessoa que o conduzia tentou levá-lo ao seu lugar, mas ele lhe disse para esperar. De fato, ao publicar a foto em um grupo de padres e explicar o que havia acontecido, alguém escreveu espontaneamente: “Que gesto bonito. Nós, padres, teríamos chegado tarde e, ainda por cima, teríamos sido notados”, ao que outro respondeu: “você está certo”. Se Francisco tivesse feito isso, teria parecido normal para quase todo mundo. Afinal, na mente da maioria das pessoas, ele é “o chefe” e poderia fazer isso sem ter que se explicar. Francisco é alguém que diz o que vive, e quando ele pede aos novos cardeais que ofusquem a eminência com o serviço, é porque para ele ser o Santo Padre não é o que é decisivo em sua vida, mas o fato de ser um batizado, a quem a Igreja confiou uma autoridade, que é fortalecida quando ele assume a kenosis da qual São Paulo fala em Filipenses: “Jesus Cristo esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens”. Um papa de gestos O atual pontífice é alguém de gestos, que grita com suas atitudes, e é isso que nos leva a nos questionar, a entender que viver como cristão é fazê-lo aprendendo a ser o último, a não insistir em ser o protagonista. Quando assumimos essa dinâmica, garantimos que em nosso testemunho outros possam reconhecer a presença de Deus. Para o comum dos mortais, o que fica são as atitudes, o que faz com que esse gesto produza um impacto muito maior e melhor do que um longo discurso sobre o que é uma Igreja em que todos somos iguais. Ser uma Igreja sinodal é aprender a aceitar esses gestos como normais, entender que todos nós somos importantes, mas ninguém é mais importante do que ninguém. Em Francisco, isso é algo que está enraizado desde que ele costumava se misturar com as pessoas nos ônibus, no metrô de Buenos Aires, desde que ele costumava chegar às favelas com sua pasta na mão. Mais uma vez, o Papa nos surpreende e nos questiona. O problema é se isso nos fará mudar, se nos converterá à Igreja sinodal ou se continuaremos ancorados na reivindicação de privilégios, em uma luta para sermos os primeiros, o que nos distancia cada dia mais daquele em quem nós, cristãos, afirmamos acreditar. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Carta do Fórum das Águas do Amazonas à Sociedade e Tomadores de Decisão

A Amazônia e o Pantanal, biomas essenciais à vida do planeta, estão à beira do colapso. As regiões sofrem impactos devastadores sobre a biodiversidade, os serviços ecossistêmicos e as populações humanas, especialmente entre os grupos sociais mais vulneráveis. Dados recentes do MapBiomas revelam uma retração alarmante na superfície de água desses biomas. A Amazônia, que concentra mais da metade da água superficial do Brasil, perdeu 3,3 milhões de hectares de superfície de água em 2023, em comparação ao ano anterior. O Pantanal, por sua vez, enfrenta uma das piores secas da história, com uma redução de 61% da sua superfície de água em relação à média histórica, resultando em apenas 2,6% de seu território coberto por água. A perda dramática de água está diretamente ligada a políticas e agendas antiambientais que produzem desmatamento e queimada em larga escala e intensificam o avanço das mudanças climáticas. Neste momento, milhares estão em busca de socorro médico para respirar melhor, reduzir tosse, irritação na garganta e nos olhos ou se automedicam, pessoas com comorbidades têm risco de morte aumentado. Outras milhares de famílias estão isoladas sem acesso água e a alimentos (a não ser aquilo que chega por alguma ação de apoio); peixes e botos morrem por falta de água e de oxigênio; o cotidiano de comunidades ribeirinhas e dos povos indígenas está profundamente alterado, provoca adoecimento e transtorno mental; escolas fechadas, ciclo de ensino completamente desajustado; e territórios invadidos por grileiros, madeireiros, narcotraficantes. Diante desse cenário, lideranças políticas e empresariais defendem a pavimentação da rodovia federal BR-319 ligando Porto Velho-RO no “famigerado arco do desmatamento” até Manaus-AM na Amazônia central, poderia resolver o problema do isolamento dessas comunidades, especialmente em períodos de seca. No entanto, os dados mostram o contrário. Os municípios mais afetados pela seca não são acessados pela rodovia, enquanto os municípios ligados pela BR-319 apresentam os maiores índices de degradação florestal, desmatamento e queimadas, agravando ainda mais a crise climática. A pavimentação dessa rodovia, citada em revistas científicas renomadas como Science, Nature e The Lancet, é identificada como um fator que impulsiona o desmatamento e degradação florestal e conduz a Amazônia além do ponto de não retorno de desmatamento tolerado. A crise atual não se restringe a um único ecossistema. Estudos apontam que a pavimentação da rodovia BR-319 e o desmonte das políticas de proteção às Áreas de Preservação Permanentes (APPs) comprometem o funcionamento dos serviços ecossistêmicos conhecidos como “rios voadores” – correntes de ar que transportam a umidade da Amazônia para outras regiões do Brasil e da América do Sul. Sem essa umidade, regiões do sul e sudeste do Brasil enfrentarão secas ainda mais severas, com o colapso dos sistemas agrícolas que dependem dessas chuvas. A recente mobilidade de fumaça produzida nos incêndios da região norte para o sudeste e sul bem demonstram essa realidade. O abastecimento de água nas áreas mais populosas do Brasil, como o sistema Cantareira, também estaria seriamente comprometido com estas medidas, ameaçando o abastecimento humano diretamente. É fato, e muito bem documentado, que este empreendimento compromete a agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) com os quais o Brasil está comprometido, como erradicação da pobreza, fome zero e agricultura sustentável, saúde e bem-estar, educação de qualidade, pública e gratuita, acesso à água potável e saneamento, trabalho digno e crescimento econômico e energia acessível e limpa. De forma vil e perigosa e em meio a maior crise hídrica do Brasil, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, aprovou o Projeto de Lei (PL) 2168/2021que classifica obras de irrigação e dessedentação animal como de utilidade pública, permitindo sua realização em Áreas de Preservação Permanentes (APPs). Essa medida prejudicaria a vegetação nativa e cursos d’água protegidos, essenciais para manutenção dos recursos hídricos, serviços ecossistêmicos e biodiversidade. Destruir essas áreas em prol do agronegócio, durante a pior seca já registrada, é um grave erro, e hoje os incêndios intencionais já se espalham nestes remanescentes de floresta. A rodovia BR-319 é lança que abre caminho para o desmatamento na Amazônia, que, por meio da evapotranspiração e dos rios voadores, mantém os ciclos hidrológicos do Brasil, assim como o coração bombeia o sangue para todo o corpo. Hoje, esse sistema vital está perfurado, espalhando fumaça por outras regiões do país. Já a destruição das APPs seria como uma leucemia que ataca o sistema circulatório das águas, eliminando as fontes de produção, que são as nascentes preservadas pelas APPs. É crucial que os governantes reavaliem a maneira como têm tratado essas questões urgentes. Estes empreendimentos asfixiam a população pela fumaça das queimadas, além de asfixiar o modo de vida das populações mais vulneráveis, pela expansão da grilagem e pistolagem em áreas de uso tradicional. Os grandes projetos amazônicos têm priorizado a expansão do mercado capitalista e a produção de commodities para exportação, gerando elevados custos ambientais, sociais e culturais. O Estado tem investido na exploração de recursos naturais, promovendo atividades como mineração, exploração de petróleo e gás, pecuária, agronegócio e produção hidrelétrica, que causam impactos severos às comunidades tradicionais e ao clima, agravando secas prolongadas, elevação de temperaturas, poluição e escassez de água. Para mitigar esses efeitos, é essencial criar economias solidárias e de baixo impacto ambiental, alinhadas aos ciclos da natureza. As políticas atuais representam um ataque direto à segurança hídrica, alimentar e climática do Brasil. É urgente fechar a BR-319, revogar o PL 2168/2021, reestatizar os serviços de água e esgoto de Manaus, e combater políticas antiambientais que ameaçam ecossistemas e a soberania nacional, colocando milhões de vidas em risco. Organizações que integram o Fórum das Águas do Amazonas:   1 – Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental – SARES 2 – Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana – ARATRAMA 3 – Articulação de Mulheres do Amazonas- AMA 4 – Associação de Desenvolvimento Sócio Cultural Toy Badé – ATB 5 – CEBs regional Norte 1 6 – Coletivo de Mulheres da Educação 7 – Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Tarumã-Açu – CBHTA…
Leia mais

O cardeal sinodal envolvido em garantir que a luz da Igreja não falte aos pobres

Os cardeais de Francisco, ou melhor, a maneira como o atual pontífice entende o cardinalato, estão, em muitos casos, fora dos parâmetros tradicionais em que se entendia ser investido com a púrpura. Servos e não eminências Na carta que enviou àqueles que receberão o capelo em 7 de dezembro, ele diz: “Pés descalços, tocando a dura realidade de muitos cantos do mundo embriagados de dor e sofrimento devido à guerra, discriminação, perseguição, fome e numerosas formas de pobreza que exigirão tanta compaixão e misericórdia de vocês”. E acrescenta: “o título de servo (diácono) ofusque cada vez mais o de eminência”. A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade conta com a presença de um bom número de cardeais, que são vistos entrando na Sala Paulo VI e circulando por ela nos momentos em que a entrada é liberada para os jornalistas. Entre outros, fiquei impressionado com o esmoleiro pontifício, Cardeal Konrad Krajewski. Ele reativou a luz em um prédio ocupado Entre as muitas anedotas do cardeal polonês, há uma que é muito significativa. Em uma ocasião, informado sobre a grave situação de mais de 400 pessoas, incluindo muitas crianças, em um palácio romano ocupado, que estavam sem eletricidade e água quente, ele reativou pessoalmente o fornecimento de eletricidade do edifício, um gesto consciente das possíveis consequências que poderia enfrentar, na convicção de que era necessário fazer isso para o bem dessas famílias. Na segunda-feira passada, 7 de outubro, no Dia de Jejum e Oração convocado pelo Papa Francisco, foi o Esmoleiro Pontifício que promoveu a coleta e passou o cesto entre os participantes da Assembleia Sinodal, arrecadando 32.000 euros, aos quais a Esmolaria Pontifícia acrescentou outros 30.000, que foram enviados à paróquia de Gaza. Mais um gesto dos muitos que ele já fez, foi para Lesbos, para a Ucrânia, até mesmo dirigindo uma ambulância, e para tantos outros lugares onde muitos estão chorando e para os quais ele tem sido a carícia de Deus. Igreja pobre para os pobres Ele é um exemplo do que o Instrumentum Laboris da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal reflete em vista da plena renovação da Igreja em um sentido sinodal missionário, alertando “sobre a falta de participação de tantos membros do Povo de Deus neste caminho de renovação eclesial e sobre o cansaço da Igreja em viver plenamente uma relação saudável entre homens e mulheres, entre gerações e entre pessoas e grupos de diferentes identidades culturais e condições sociais, em particular os pobres e excluídos”. O Cardeal Krajewski é um bom exemplo dessa Igreja pobre para os pobres, desses pastores com cheiro de ovelha, da proposta que o Instrumentum Laboris faz, quando diz que “a vontade de ouvir a todos, especialmente os pobres, que o modo de vida sinodal promove, contrasta fortemente com um mundo em que a concentração de poder exclui os pobres, os marginalizados e as minorias”. Esse é o caminho a seguir e o cardeal sinodal polonês é uma luz que nos mostra para onde podemos e devemos ir. Na Igreja, também na Igreja sinodal, os pobres devem ser o foco principal, pois é isso que a tornará confiável. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1