A Arquidiocese de Manaus abriu oficialmente, nesta quarta-feira, 18 de fevereiro, a Campanha da Fraternidade 2026. A celebração aconteceu às 9h, na Alameda Pico das Águas, bairro São Geraldo, com a presença de lideranças das comunidades, diáconos, presbíteros e da vida religiosa. O local simbólico escolhido, representa o convite à Igreja e a sociedade de refletir a moradia como direito fundamental e como horizonte da dignidade humana.
O arcebispo de Manaus e presidente do Regional Norte 1, cardeal Leonardo Steiner, agradeceu pela escolha do local, onde famílias aguardam pela construção de um conjunto habitacional. O tempo chuvoso, que acompanhou a celebração, tornou o momento ainda mais significativo. Um reflexo da necessidade de uma moradia digna para todos e todas. Os bispos auxiliares de Manaus, Dom Zenildo Lima, Dom Joaquim Hudson e Dom Samuel Ferreira, também estavam presentes.

Tempo de mudanças
O arcebispo recordou que a campanha acontece no período da Quaresma, um tempo de “mudanças estruturais, sociais, ecológicas, para termos, assim, realmente uma fraternidade entre nós”. Essa realidade da moradia não é uma preocupação nova. E por isso, a Igreja no Brasil propõe que, ao rezar e refletir sobre o tema, se possa contribuir as “as nossas famílias tenham uma moradia digna, e um espaço digno junto das suas casas, das suas moradias, uma dignidade cultural, uma dignidade social, uma dignidade educacional e também uma dignidade de lazer”.
“Não seja só uma casa, como se tem feito até agora, mas se busque também ter o espaço do lazer não apenas numa casa, mas numa espécie de aglomerado. A preocupação em relação à moradia é longa no Brasil. Se a igreja no Brasil este ano toma como realidade ser refletida e rezada, é porque sabe e conhece e vê a necessidade de abordarmos, refletirmos essa realidade, para assim termos políticas públicas que nos ajudem a dar dignidade às nossas moradias”, explicou o cardeal.
Fome de Justiça
Durante a celebração, o bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, Dom Zenildo Lima, conduziu a reflexão sobre a Campanha da Fraternidade, enfatizando a temporalidade litúrgica da Quaresma em que ela acontece: “o tempo do jejum”. Segundo o bispo, essa dimensão do jejum é aprofundada pelo profeta Isaías, que revela não se tratar de um jejum qualquer, mas de “uma iniciativa humana e divina que dá qualidade à nossa existência”.
Para ele, essa realidade quaresmal evoca um desejo fruto do jejum. Esse desejo é explicado pelo próprio Papa Leão em sua carta por ocasião da Quaresma, na qual explica que o jejum “vai nos conduzindo a uma experiência de fome de justiça”.
“Então o jejum bem vivido, bem experimentado, bem realizado, nos torna homens e mulheres mais desejosos de justiça. Quem pratica o jejum e não se torna desejoso da justiça, não realiza, não vive um jejum verdadeiro e autêntico. Hoje é dia de jejum. Ao longo desta quaresma, nós iremos jejuar às sextas-feiras. Jejuaremos na Sexta-Feira Santa. Esta caminhada quaresmal faz de nós, homens e mulheres, mais desejosos e mais comprometidos com a justiça”.

O lugar da morada de Deus
Dom Zenildo sublinhou que a justiça desejada por todos “tem como horizonte o reino de Deus” e a “plenitude de vida de homens e mulheres”. É nesse cenário que a campanha da fraternidade desse ano se apresenta como oportunidade de um caminho de justiça em que “as pessoas vivam bem em espaços de realização”. Ele explicou que o Antigo Testamento traduz a peregrinação do povo de Deus “atrás de um espaço de realização”, diferente do Novo Testamento que traz a escolha de Deus de morar entre nós, como aponta o lema da CF.
“O povo vislumbra que talvez o espaço de realização por excelência é onde Deus habita, é a morada de Deus. O salmista canta a sua contemplação da beleza da morada de Deus, o seu encanto pela morada de Deus. Mas o Novo Testamento nos surpreende que a morada de Deus, a escolha de Deus para a sua morada, o lugar de beleza e de encanto da morada de Deus, é onde estão homens e mulheres. Ele veio morar entre nós, repete o lema dessa campanha da fraternidade”.
Onde moras?
Em 1993, a Igreja abordou a temática de moradia e fraternidade com o lema “onde moras?”, esse recorte histórico ressalta a opção de Deus por estabelecer sua morada “onde estão homens e mulheres, seus filhos e filhas, as suas criaturas, esta realidade que ele criou”. Essa pergunta propõe uma resposta complexa que ultrapassa uma simples localização geográfica.
“É a pergunta de como nós vivemos. É a pergunta de como nós nos realizamos. É a pergunta se o espaço onde nós nos encontramos, vivemos e convivemos se torna um espaço realizador para nós. É claro que nesta campanha da fraternidade, ao rezar esta realidade, nós também queremos discutir, refletir, conversar sobre políticas públicas, sobre políticas habitacionais”, explicou o bispo.

O fracasso da política habitacional
O evento de abertura aconteceu em uma localidade que espera a muitos anos a construção de moradias populares. A região está à margem do Igarapé e faz parte do programa de requalificação urbana e ambiental PROSAMIM. A demora para o início das obras é apontada por Dom Zenildo como um retrato “desastrosa e desencontrada política habitacional” da cidade de Manaus.
“Uma cidade que foi crescendo, crescendo sem a capacidade de se harmonizar com uma beleza natural que lhe era característica uma cidade que aterrou os seus igarapés uma cidade que derrubou suas áreas verdes uma cidade que vai avançando com aglomerados. O cenário que esse lugar nos faz, nos permite perceber, nos coloca entre igarapés que foram perdendo sua vida, nos coloca entre justa posição de moradias, nos coloca no horizonte a verticalização da cidade, que permite qualidades de moradia diferentes”, destacou o bispo.

Experiências de encontro
O desenvolvimento da campanha no tempo quaresmal é um convite a ver a realidade das pessoas e o exercício da esmola nos colocará “frente a frente com quem não tem moradia”. No caminho, é necessário se aproximar dos irmãos e irmãs ao ponto em que a “nossa troca de olhar” comunique que ele veio morar entre nós. Por isso, é fundamental que, ao realizarmos as novenas nas casas, se priorize a locais que estabeleçam a possiblidade de encontro.
“É nas casas que nós iremos realizar os encontros da campanha da fraternidade, A gente costuma chamar de novena. A gente vai visitar as casas, a gente vai fazer um encontro onde as pessoas vivem, onde elas moram. Nós vamos fazer a experiência da comodidade ou do incômodo de realizar nossos encontros em espaços pequenos, adequados ou inadequados. É sempre uma experiência de encontro”, disse o bispo.

A experiência em nossas comunidades “de reconhecer que ele veio morar entre nós” implica na percepção dos locais em que “nós escolhemos para marcar a nossa presença de igreja, para sinalizar o Reino de Deus”. “Onde é que nós escolhemos estar? Com quem nós escolhemos estar? Com quem nós escolhemos nos aproximar?”, questionou Dom Zenildo. Recordou a ousadia da Igreja de Manaus de saber, perceber, reconhecer e estar “onde essas realidades de moradia são mais desafiadoras”.
“É bonito perceber a ousadia de tantas paróquias e sobretudo as áreas missionárias que estão nas zonas extremas da cidade. Esta coragem, esta audácia de estar com as pessoas onde elas estão buscando um espaço de realização”, explicou.
Construtores de uma nova realidade
Por fim, o bispo pontuou que essa campanha nos dá a possibilidade de “resgatar e recuperar o nosso espaço de moradia como nosso espaço de realização pessoal” dentro de nossas casas. E isto quer dizer compreender a habitação como espaço de crescimento, de encontro, lazer e cultura que revelem “a dignidade de cada homem e de cada mulher, imagem e semelhança de Deus que veio morar entre nós”. E assim, somar forças para construir e influenciar “respostas políticas para a realidade da moradia”.



