A Arquidiocese de Manaus realizou, nesta terça-feira, 10 de fevereiro, uma coletiva de imprensa para apresentar o tema da Campanha da Fraternidade 2026, no Auditório Mãe Paula, na Cúria Metropolitana de Manaus. O cardeal Leonardo Steiner, Arcebispo Metropolitano de Manaus e presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Norte 1), destacou que a campanha acontece no período da Quaresma, que “é tempo de conversão” e “mudança de vida”.
A CF está inserida em um tempo litúrgico muito importante na igreja, “onde olhamos para Jesus crucificado-ressuscitado e percebemos as mudanças necessárias”, explicou o cardeal. Esse apelo à conversão alcança a dimensão social, como insistia São João Paulo II e a ecológica enfatizada por Papa Francisco.
“Devagarinho vamos abrindo o leque da necessidade de transformações, não apenas na vida pessoal, mas na vida social, na vida das nossas relações e por que não dizer também a conversão necessária dentro da nossa casa comum”, disse o cardeal.

Tema e lema da CF 2026
A Campanha da Fraternidade 2026 tem como tema “Fraternidade e Moradia” e o “Ele veio morar entre nós” (João 1,14). O cardeal recordou que ao rezarmos o anúncio do anjo do Senhor a Maria, na terceira invocação, “recordamos esse mistério da presença de Deus no meio de nós”. Essa temática da moradia convida os fiéis a reconhecer em cada irmão e irmã a presença de Cristo e a necessidade de condições de vida digna para todos.
O arcebispo reconheceu o esforço dos governos para a construção de moradias, mas que essa realidade ainda não alcança a todos. Nesse horizonte, a Igreja colabora indo ao encontro “os irmãos e irmãs que moram nas nossas ruas, fazem das ruas a morada” com acolhimento “para que eles possam ter a dignidade necessária”. Além disso, é fundamental que a moradia digna seja compreendida também com os espaços “onde aconteça educação, onde aconteça cultura, onde aconteça o esporte”.
“No tempo da campanha da fraternidade, nós queremos rezar, queremos meditar, porque não discutir a questão da moradia. Sempre pensando que o habitar é o importante. As pessoas se sentirem em casa, mas se sentirem em casa com dignidade, porque todos são filhos e filhas de Deus. Então, que a campanha da fraternidade deste ano nos ajude a compreender a necessidade de todos terem a sua casa”.

A realidade habitacional em Manaus
A coletiva também abordou a questão habitacional na cidade de Manaus. Ir. Rosanna Marchetti (MDI/PIME), da Coordenação de Pastoral da Arquidiocese de Manaus, recordou que a capital ocupa a 4ª posição das cidades com realidade de favela. Segundo ela, o tema da CF estimula “ações concretas de proximidade para com estas famílias que vivem em situações precárias”.
Outro ponto apresentado pela irmã, foram as ações da Defensoria Pública de entrega do título de proprietários de alguns terrenos na cidade para “pessoas que têm uma casa, mesmo que precária”. O título possibilita a melhoria de vida e da própria moradia, citando o capítulo 2 do texto base, Ir. Rosanna, destacou a aproximação do tema “com a nossa fé”:
“Ele veio morar entre nós. Jesus também mora. Foi alguém que veio ao mundo e não tinha moradia, fez esta experiência. E a questão da casa é um espaço de relações, um espaço de vivência de fé. E lá nós lembramos os atos dos apóstolos, onde as primeiras comunidades se encontravam nas casas. Então, este tema nos ajuda a refletir em vários aspectos, a dimensão social, a dimensão da fé, para poder escolher ações concretas para abordar esta temática”.

Expectativa da população
O Sr. Carlos Lacerda, do Projeto Cachoeira Grande, esteve na coletiva e apresentou a situação vivida pelas famílias que representa, agradecendo a Arquidiocese de Manaus pela temática da moradia. Ele representa os moradores da Alameda Pico das Águas, no bairro São Geraldo, que foram retiradas da região para as obras de requalificação urbanística nas margens do igarapé da Cachoeira Grande e da comunidade Arthur Bernardes, no bairro São Jorge, vítimas de um incêndio em 2012.
Os moradores aguardam a 13 anos a entrega de unidades habitacionais. Muitas dessas famílias recebem o aluguel social, mas o alto custo dos aluguéis na cidade dificulta a qualidade de vida. Segundo Carlos, há uma possibilidade que as obras no local comecem esse ano com a construção de “520 apartamentos, sendo 260 apartamentos na Kako Caminha, que é no bairro São Geraldo, e 260 na Arthur Bernardes”.
“Hoje em dia, a gente vê muitas pessoas na rua que não têm uma moradia digna. Essas pessoas precisam de uma moradia para se esconder da chuva, do sol. Então nós temos que lutar por esse tipo de moradia para as pessoas, porque as pessoas também hoje em dia não podem, não aguentam mais pagar aluguel”, relatou o represente do projeto Cachoeira Grande.

A sensibilidade pastoral da Igreja
Pe. Geraldo Bendham, Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Manaus, apontou que a Igreja tem grande sensibilidade e solidariedade pastoral com as pessoas sem moradia, e o tema da campanha é reflexo disso. Ao citar a questão da moradia na cidade, ele recorreu a duas situações muito significativas para o processo de ocupação da cidade: a extinta cidade flutuante e o advento da Zona franca de Manaus. Na primeira, a grave questão sanitária das moradias “em cima do rio, nos flutuantes”, e a segunda com a “ocupação desordenada por todos os lugares”.
O coordenador pastoral ressaltou que os governos não conseguiram acompanhar esses processos de ocupação, o que ocasiona num grande número de pessoas desassistidas pelo poder público. Diferente da presença da Igreja, que acompanha as dinâmicas das “pessoas que não têm casa ou aqueles que estão na rua”. Quanto a situação dos moradores que aguardam as casas nos bairros São Geraldo e São Jorge, Pe. Geraldo expressou que é um grande descaso com as famílias.

“É uma vergonha. Mais de 11 anos, dinheiro do banco, licitação. É um governo descomprometido com a casa da família, porque moradia está ligado diretamente com a família. Um lar, uma casa, um banheiro, um quarto. Realmente aquele espaço para que a pessoa possa descansar, repousar. É um negócio muito relevante, muito importante. Não pode ter descaso por questões políticas. Agora vão começar as eleições. Nós duvidamos que o governo vai iniciar essa obra. Nós esperamos que isso aconteça”.
A abertura oficial da Campanha da Fraternidade 2026 na Arquidiocese de Manaus está prevista para o dia 18 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, às 8h da manhã, com celebração presidida pelo cardeal Leonardo Steiner, na Alameda Pico das Águas, bairro São Geraldo. O local escolhido é o terreno preparado para a construção de uma parte das unidades habitacionais e que aguarda o ínicio das obras a mais de uma década.

Direito e prioridade
Ao encerrar a coletiva, o cardeal Leonardo Steiner reforçou que a CNBB preparou diversos subsídios para que as comunidades trabalhem o tema. Seu pedido foi para que toda a Arquidiocese se organize para realizar as reflexões e novenas como nos outros anos.
“A novena é oportunidade de uma boa catequese, oportunidade de aprofundamento da temática que é apresentada. Não esquecemos que o objetivo principal é promover a moradia digna como prioridade e direito dos nossos irmãos e irmãs”.



