“Esse Deus Crucificado-Ressuscitado, se manifesta sempre como misericórdia, como benevolência, como aconchego, como proximidade”. Foram a as palavras do cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, na Catedral Metropolitana de Manaus, durante a celebração do 2° Domingo da Páscoa, em que a Igreja recorda a misericórdia divina.
Anunciar a verdadeira paz
O Evangelho do dia retrata dois encontros do Ressuscitado com os discípulos reunidos sem a presença de Tomé. Eles estavam “fechados, trancados, angustiado, deprimidos, assustados”, disse o cardeal, significando seu remorso por terem abandona e renegado a Jesus. Na mesma cena, Jesus aparece e proclama aos presentes: “A paz esteja convosco”.
“A paz do alento, irmãos e irmãs, da confiança, da esperança, uma paz interior que não lhes será tirada, roubada, nem pela guerra, nem pela desilusão, nem pela calúnia, uma paz que ninguém pode tirar. Não traz uma paz que de fora elimina os problemas, uma paz que infunde confiança, uma confiança interior. A paz de dentro que envia serem agora anunciadores e construtores da paz. Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. Os discípulos desanimados recuperam a paz, mas na paz recebem uma missão” explicou o arcebispo.
Esse desejo da paz e envio em missão expressam que para Deus não considera ninguém como inútil ou excluído. A paz dada por Jesus é um convite de “de anunciar a verdadeira paz”. Segundo o cardeal, o desejo de paz explícita que somos importantes, temos uma missão onde “ninguém pode realizá-la em teu lugar. És insubstituível. E Jesus poderia nos dizer, eu creio em ti. Por isso, a paz esteja contigo”.

Meu Senhor e meu Deus
No segundo encontro, Tomé está presente, deseja encontrar-se com Jesus e tocar as chagas do lado e das mãos para acreditar na presença Dele, pois não acreditava na palavra dos outros discípulos. Ao ver o lado e a marca dos cravos Tomé exclama: “meu Senhor e meu Deus”. O arcebispo refletiu que essa afirmação de fé, é apontada por Santo Agostinho como o despertar de Tomé: “via e tocava o homem, mas confessava a Deus que não via, nem tocava. Por meio do que via e tocava, venceu toda dúvida, acreditou no que não via”.
“Não dizemos: escuta e vê que suave melodia, aspira e vê que perfume, degusta e vê o sabor, toca e vê como está quente, Sempre se diz ver, mesmo se ver é próprio dos nossos olhos. É assim que Jesus mesmo disse a Tomé, põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Lhe disse, toca e vê, mesmo se Tomé não tinha olhos no dedo. Dizendo, acreditaste porque me viste, Jesus refere seja ao ver que ao tocar. Se poderia também dizer que o discípulo não ousou tocá-lo, se bem que o Senhor o convidasse a fazer”, apontou o arcebispo.

O evangelista não afirma se Tomé tocou as mãos e os lados, mas é possível intuir a sinestesia da cena. E por isso, destacou o arcebispo, “Jesus exalta e louva de preferência a fé dos povos”, ao citar aqueles que creram sem ver. Uma realidade da qual nós participamos ao vermos “a presença de Jesus no pão, nos irmãos, nos necessitados, na Palavra, na vida da comunidade” porque “somos tocados por Jesus”.
“Não houve necessidade de tocar como desejara e impusera aos outros discípulos. Ao ver a Chagas é tocado e atingido em toda a sua pessoa, e é por isso que exclama: “meu Senhor e meu Deus”. E antes de tocar, é tocado. Antes de ver, Tomé é visto. Ele tinha razão no desejo de tocar e não apenas de receber notícias. Desejar um encontro e eis que o Senhor se apresenta e se apresenta com o amor que o amara até o fim, visível, tocável, visível, tocável, no lado aberto e nas chagas. E na admiração, na simpatia, na afeição, na cordialidade, numa profunda reverência exclama: ‘meu Senhor e meu Deus’”.
A ousadia de Tomé
“E que ousadia, queridos irmãos e irmãs, a de Tomé. Na sua confissão deseja como que tomar posse de Deus e diz, meu Senhor e meu Deus. Em si, não que Tomé o desejasse a possasse, mas desejou expressar a sua disposição e disponibilidade para Jesus. É admiração, não posse. o desejo de ser todo de Jesus, uma nova pertença à pessoa de Jesus. Senhor, se assim me amaste, sou todo teu. Faz de mim o que quiseres, o que de mim fizeres, eu te agradeço. É como se confessasse, nada mais meu, sou todo teu. Por isso, meu Senhor e meu Deus”, refletiu Dom Leonardo.
Essa atitude de Tomé ao dizer “meu Deus” e a nossa, de dizermos “nosso” refletem a exigência de “familiaridade” do amor e a exigência da “confiança” na misericórdia retomando o pensamento de Papa Francisco. Nas palavras do arcebispo, o pontífice apresenta um Deus “amante, zeloso, que se apresenta como teu, isto é, como meu, como teu”. Diante dessa compreensão, é possível entender a misericórdia como “o modo palpitar do coração de Deus em nossa relação”.
“Então, como Tomé, não vivemos mais como discípulos vacilantes, devotos, mas hesitantes. Nós também nos tornamos verdadeiros enamorados de Deus. Não devemos ter medo desta palavra, enamorados do Senhor. Meu Senhor e meu Deus significa encantados, atraídos por Deus”, esclareceu o cardeal.
Enviados como misericórdia
Ao comentar o texto do Evangelho em que Jesus concede o Espírito Santo para perdoar os pecados, “depois de libertar, transformar, colocar de pé aqueles homens escondidos”, o cardeal explicou que Jesus “os envia como misericórdia”. E este envio como misericórdia, capacita “perdoar porque foram perdoados”.
“É tão difícil sermos misericordiosos se primeiro não nos damos conta de que Deus é misericórdia para conosco. É próprio de Deus usar de misericórdia e nisso se manifesta de modo especial a sua grandeza, a sua força. A misericórdia divina não é de modo algum um sinal da fraqueza de Deus, pelo contrário, um sinal da benevolência de Deus. É por isso que a liturgia, numa das orações antigas, convida a rezar, Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e vos compadeceis”, pontuou o arcebispo.
Misericórdia: modo de ser Igreja
Ao enviar os apóstolos, Jesus indica a misericórdia como o modo de ser Igreja que nos convida a não duvidar da misericórdia de Deus. A contemplação e adoração das chagas aponta para ternura de Deus que acolhe “cada uma das nossas fraquezas”. E na Eucaristia, o corpo chagado e ressuscitado de Jesus “toca as nossas vidas” despertando-nos para “a grandeza da fé em Jesus ressuscitado”.
“Isso é ser igreja, é ser misericórdia é sermos nós a misericórdia de Deus presente no mundo. Jesus apresenta a Tomé as chagas da redenção. Nas chagas, todos nós fomos curados. Nas chagas, como Tomé, tocamos com a mão a verdade de Deus que nos ama profundamente. Pois fez de suas, as suas feridas, as nossas feridas. Fez suas, as nossas feridas. Carregou no seu corpo as nossas fragilidades. As chagas são o caminho que Deus nos mostra, visibiliza para entrarmos na sua ternura e tocar a Ele e dizermos quem Ele é. Deus é o verdadeiro amor”.



