“A cordialidade, queridos irmãos e irmãs, nos ajuda a libertar de sentimentos de indiferença e rejeição, pois opõe diretamente a nossa tendência a dominar, a manipular, a fazer o outro sofrer”. Foram as palavras do cardeal Leonardo Steiner na reflexão do 6º Domingo do Tempo Comum. A celebração aconteceu às 7h30, na Catedral Metropolitana de Manaus, Centro.
O arcebispo de Manaus e presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Norte 1) iniciou sua homilia recordando que o Evangelho proclamado é uma continuação da meditação das bem-aventuranças. Essa continuação do texto, ajuda a compreender a dinâmica do seguimento a Jesus pautada sob o olhar da cordialidade.

Ver a realidade que nos cerca
No Evangelho, Jesus diz aos discípulos que para entrar no Reino dos Céus é necessário superar a justiça praticada pelos mestres da lei e fariseus. Essa superação só é possível quando se compreende a importância do “ver” com os olhos a realidade que nos cerca. Uma compreensão que, segundo o arcebispo, é aprofundada ao nos darmos conta que o ver existe também nos que “não têm olhos, que não têm a visão dos olhos”.
O cardeal exemplificou, com cenas do quotidiano, inúmeras situações em que nos nossos olhos veem aquilo que Deus nos deu para ver. Como “é de encher os olhos quando contemplamos a beleza dos nossos rios, quando vemos a beleza das nossas florestas, quando vemos um vale florido”. Ele aponta que essa contemplação passa pelos “pequenos gestos, as pequenas mudanças, os mínimos acenos de ternura e de aconchego”, mas que “no andar da vida nossos olhos enxergam, mas muitas vezes não veem”.
“Entramos nas nossas casas e não vemos que ela acabou de ser arrumada e limpa e entramos de qualquer jeito dentro da nossa casa. Vestimos as nossas roupas e não nos apercebemos como elas estão bem passadas, cuidadas. Passamos e não vemos, por exemplo, que cresceram nossos filhos. E cresceram em idade, sabedoria e graça. E às vezes os tratamos e deles cuidamos como sendo apenas crianças pequenas. Discutimos, brigamos e não vemos mais a grandeza do amor que nos alimenta e que é capaz de ter criatividade com as nossas diferenças”, explicou Steiner.
Olhar que nos salva
Segundo o arcebispo, o Evangelho desse domingo traz o convite de Jesus de arrancarmos o olho doente “para podermos assim perceber e nos darmos conta da preciosidade da vida que recebemos”. Isto porque, às vezes, estamos “na iminência de perder a sensibilidade do olhar dos pequenos, dos simples, dos humildes, dos amados de Deus, dos prediletos de Deus, dos filhos e filhas de Deus”. Por isso, o olhar não pode limitar-se ao que está posto como “coisas”, mas ser capaz de ver com
“Olhos que enxergam a pobreza, a degradação humana, perambulando pelas nossas cidades. Olhos atentos para a injustiça, para a poluição, mas sempre capazes de buscar e oferecer soluções. Vivemos, queridos irmãos e irmãs, então, numa espécie de dualidade. Uma dualidade no ver, no olhar. Então é preciso arrancar o olho distraído, o olho traído, o olho traiçoeiro, pois somente o olho da vida é que conduz ao Reino de Deus e não desejamos perder o Reino de Deus”, sublinhou o cardeal.

Ele pontuou que o olhar a ser cultivado é o de Deus, apresentado na Sagrada Escritura, onde “viu que tudo era bom”. E mesmo que os olhares estejam “dispersos e desatentos nessa multiplicidade de ver” é possível retomar o olhar que “salva, redime, conforta, cordializa”. Para isso, é necessário limpar o olho e devolver o olhar digno, o olhar da beleza, o olhar da fraternidade, o olhar do perdão.
“Este olhar da bondade, isto é, o olhar de Deus. Esse olhar que se recolhe, esse olhar que é capaz de contemplar, esse olhar que se deixa invadir pela grandeza das criaturas, é aquele que nos salva. Olhar da benevolência, olhar do perdão, olhar que sempre descobre, até na miséria humana, a grandeza, a fraqueza de Deus, Jesus crucificado. O olhar que de Deus provém é pleno de positividade, queridos irmãos e irmãs. É cheio de jovialidade. É um olhar de cordialidade”, explicou o arcebispo.
Redimidos pelo amor
Ao citar o trecho bíblico do mandamento de “não matarás”, o presidente aprofunda a compreensão de que “amar o próximo exige fazer-lhe o bem”. Isto é “aceitar e valorizar o que há de amável nele”. De modo que a caridade cristã propõe “adotar uma atitude cordial de simpatia, solicitude e afeto, superando posturas de antipatia, de indiferença, de rejeição e, por que não dizer, de cólera”.
“Esse modo vem condicionado pela sensibilidade, pela riqueza afetiva, pela capacidade de comunicação, de relação com todas as pessoas. O amor, essa relação que promove a cordialidade, o afeto sincero, a amizade entre as pessoas, o amor que redime. Essa cordialidade, que não é mera cortesia externa exigida por uma boa educação, nem simpatia espontânea que nasce no contato com as pessoas agradáveis, mas atitude sincera e purificadora de quem se deixa vivificar e transformar pelo amor. Amai-vos como eu vos amei”, reforçou.

Permanecer na cordialidade
O arcebispo de Manaus insistiu que a dimensão da cordialidade ajuda a suavizar “as tensões e conflitos, aproxima, fortalece e nos dá posturas de amizade e de um amor sincero”. Ele destacou que embora a cordialidade não tenha recebido a devida importância na vida cristã, ela deve ser cultivada nas famílias, no trabalho e nas relações sociais. Isto porque a comunicação do afeto “de maneira sadia e generosa criam em torno de si um mundo mais humano, mais habitável, mais confortável, mais harmônico”.
“Jesus insiste em desenvolvermos a cordialidade não só diante do amigo ou da pessoa agradável, mas também diante de quem nos rejeita. Basta lembrar as suas palavras que revelam este modo de ser. Não saudeis só os vossos irmãos, se saudais somente vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário?”, refletiu o cardeal.
O caminho quaresmal na amabilidade
Ao final de sua homilia, o presidente indicou a cordialidade como uma disposição a ser assumida no caminho quaresmal que está perto de começar na Quarta-Feira de Cinzas. De maneira que essa amabilidade conduza os exercícios quaresmais. E assim, viver a oportunidade de “limpar nossos olhos com o jejum”, purificar “as nossas mãos com a esmola”, e transformar “as nossas palavras com oração”.
“Tudo para crescermos na cordialidade, isto é, na liberdade de sermos filhas e filhos de Deus. Queridos irmãos, queridas irmãs, trilhemos as pegadas do Evangelho, perseveramos no caminho de Jesus, o caminho do bom olhar, o olhar cordial. Seremos então todos bem-aventurados, bem-aventuradas, plenificados, vivificados, iluminados, pois o nosso olhar se deixa iluminar pela bondade e pela cordialidade”, finalizou o cardeal.




