Dom Leonardo: “O Reino de Deus não é formado por um, mas por um povo, por uma assembleia de fiéis”
Lembrando que “Jesus chama e envia os doze. Foram chamados e enviados”, iniciou o cardeal Leonardo Steiner a homilia do 15º Domingo do Tempo Comum. Segundo ele, “na raiz de todo chamado e envio está a graça do encontro. A iniciativa não é do discípulo, mas do mestre que é Jesus. Ele busca, ele chama, ele convida, ele atrai. Para ser discípulo e ser enviado ele é atraído para participar do caminho, da vida de Jesus, do Reino. Discípulo que é discípulo sente-se encontrado por Jesus e, porque encontrado o segue”. Citando o Documento de Aparecida, ele disse que encontro é “um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”, destacando no mesmo documento que um “acontecimento fundante e encontro vivificante com Cristo, manifestado como novidade de vida e de missão de todas as dimensões da existência pessoal e social. Isto requer, a partir de nossa identidade católica, uma evangelização”. Na primeira leitura, o arcebispo de Manaus ressaltou o tocante testemunho de Amós: “Eu não sou profeta, nem filho de profeta, mas vaqueiro e cultivador de sicômoros. Mas o Senhor tomou-me de detrás do rebanho e me disse: Vai profetizar a meu povo Israel.” Nesse texto, “Amós a nos indicar que o chamado é graça, é escolha de Deus. Não importa o valor da função, o status que está a exercer, o seu preparo. O que importa é o que o chamado faz com aquele que foi atraído, com aquele que foi chamado. Deus faz de um plantador de figos e um cuidado de gado um profeta. Não é tanto o que fazia, mas o que Deus agora pede que o faça”, disse o presidente do Regional Norte1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Norte1). Algo que segundo dom Leonardo também aconteceu com os discípulos: “Pedro, Tiago, João: eram pescadores; Mateus era cobrador de impostos. Jesus que chama e aquele que se sente chamado responde. Responde na condição em que vive. E porque aceita o chamado, pode ser enviado”. Ele disse que “no chamado existe um mistério do desígnio do agrado, do bem-querer de Deus! É benevolência de Deus, pois chamado é gratuidade. E a resposta é de gratuita, alegre, cheia de gratidão. O dar-se conta de ser visto, escolhido e amado por Deus desperta a alegria suave e benfazeja; uma resposta, uma correspondência de gratuidade. Não só o chamado é do Senhor, mas também o envio. O chamado-envio é de Jesus. Ninguém se chama e se envia a si mesmo”. “A vocação e a missão nascem com o chamado. No chamado nasce o profeta e na profecia recebe as palavras necessárias para o anúncio. No chamado nasce o discípulo, no chamado nascemos todos nós que seguimos a Jesus. No chamado há um envio, um desalojar, um sair para seguir e no seguir existe um segundo sair para testemunhar, ser presença de quem chamou”, ressaltou o cardeal Steiner. Relatando o feito pelos apóstolos, ele disse que “partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram demônios, ungiram os doentes e curaram. Partiram porque enviados, enviados porque chamados. Chamados e responderam, conviveram, escutaram e entraram nos ensinamentos. Chamados, enviados, pregadores. Pregadores, porque chamados e responderam. Mas, para a pregação não basta o chamado, a resposta e o envio. No envio existe uma riqueza que pede liberdade para o caminho, para as palavras, para as curas”. Nesse sentido, o arcebispo de Manaus afirmou que “tanto no chamado quanto no envio percebemos uma liberdade: ‘Deixa teu pai e tua mãe!’; ‘nem pão, nem alforje, nem dinheiro!’. Existe uma dinâmica de relação que desperta para um despojamento para um revestimento. Despojamento para participação no discipulado; um despojamento para o envio missionário. É a possibilidade de participação e plenificação!” O cardeal mostrou que Papa Francisco nos ensina que “o estilo do missionário, tem dois pontos essenciais: ‘a missão tem um centro; a missão tem um rosto. O discípulo missionário tem antes de mais um centro de referência, que é a pessoa de Jesus. A narração indica isto usando uma série de verbos que têm a Ele como sujeito — «chamou», «enviou-os», «dava-lhes poder», «ordenou», «dizia-lhes» (vv. 7.8.10) — de modo que o ir e o agir dos Doze aparecem como o irradiar-se de um centro, o repropor-se da presença e da obra de Jesus na sua ação missionária. Isto manifesta que os Apóstolos nada têm de seu para anunciar, nem capacidades próprias para demonstrar, mas falam e agem porque foram «enviados», enquanto mensageiros de Jesus. (…) A segunda característica do estilo do missionário é, por assim dizer, um rosto, que consiste na pobreza dos meios. O seu equipamento responde a um critério de sobriedade. Com efeito, os Doze receberam a ordem de «que nada levassem para o caminho a não ser um cajado: nem pão, nem alforje, nem dinheiro no cinto» (v. 8). O Mestre quis que eles fossem livres e ligeiros, sem apoios nem favores, com a única certeza do amor d’Aquele que os envia, fortalecidos unicamente pela sua palavra que vão anunciar. O cajado e as sandálias são o equipamento dos peregrinos, porque eles são mensageiros do reino de Deus, não empresários onipotentes, não funcionários rigorosos nem estrelas em tournée. (…) Não eram funcionários nem empresários, mas trabalhadores humildes do Reino.’” Citando o texto evangélico: “Começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros.”, dom Leonardo destacou que “são muitos os espíritos impuros: o nosso modo de perder a interioridade, a liberdade, a misericórdia, a presença consoladora; o modo de estar nas relações de modo violento, desagregador; esse modo onde acabamos arruinando a nós mesmos, nos perdendo a nós mesmos; acharmos que temos o controle de tudo, mas na realidade perdidos até de nós mesmos, fechados num mundo envelhecido, destruído, escravizado. Esses espíritos que nos tornam ‘possessos’ na expressão de Dostoievsky. Sim, tomados pelo modo desagregador, incapazes de nos relacionarmos amorosamente, sem domínio. Os espíritos impuros que, às vezes, nos dominam, deles devemos ser libertos.” Segundo igualmente o texto do Evangelho: “Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não…
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