Neste 22º Domingo do Tempo Comum (30), o cardeal Leonardo Steiner, Arcebispo de Manaus e presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos recorda o convite da liturgia de hoje a descobrir a “loucura da cruz”. O cardeal reflete que “a vida verdadeira e plena que Deus nos oferece, passa pelo caminho do amor e dom da vida: a cruz”.
No Domingo passado Pedro recebia a revelação a filiação divina de Jesus, e hoje se escandaliza diante do “anúncio da paixão, do sofrimento, da morte de Jesus”. Nas palavras do cardeal, “o final na cruz, não fazia sentido. Pedro não consegue entender que na cruz floresce a vida, que a vida é um dom, salvação”. Diante da cruz, Pedro não vislumbra “expressão mais radical e sublime de amor”, mas a condenação e o vilipêndio.
“Nós como Pedro, desejamos nos afastar dos sofrimentos, das cruzes e mortes. Temos dificuldade de perceber a presença de Deus no despojamento, nas cruzes cotidianas, na negação de nós mesmos. Pouco ou nada diz a nossa finitude cercada de dor e fraqueza”, refletiu o cardeal.
Desvelar-se
O arcebispo nos recorda que Jesus Crucificado e o Pai se tornam um na cruz. No entanto, é preciso tempo para o desvelar dessa compreensão. Por isso, ele evocou a figura de São Paulo para explicar que “o cristão vive da cruz, da grandeza da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”. O santo proclamou “quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz de Nosso, Senhor Jesus. Doravante ninguém me moleste, pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,14-17). Para o cardeal Steiner, existe, na meditação da cruz, “um mistério que fala no silêncio e recolhimento da incompreensão”, mas que revela no Crucificado “um amor que salva e redime o universo”.
“Quantas vezes nos nossos sofreres acabamos vazios de sentido e, no entanto, acabamos caindo nas mãos amorosas de Deus? Quantas vezes o sofrimento abre um horizonte novo que antes não vislumbrávamos, não intuímos, mas que de repente se torna clarividente? E a vida toma nova cor, novo sabor! Novo viver, já não de nós mesmos, mas de Deus”, considerou o cardeal.
O convite de Jesus, que parte de uma negação de si mesmo, se atualiza pela atratividade do Pai. Nas palavras do cardeal, “é a força do Pai” que desperta um desejo de seguimento “porque atraído, segue porque alcançado por Cristo”. É um movimento simultâneo “da busca de Deus por nós” que se oferece “para que venhamos à vida e à graça do Evangelho”, e “da nossa parte a tentativa de correspondência ao segredo depositado em nosso coração”.
Seduzidos por Deus
Ao considerar a experiência de Jeremias na primeira leitura, o cardeal nos lembra que o profeta descobre a experiência de “cruz” ao se contrapor a lógica dos poderosos. Diante do sofrimento, Jeremias descreve a sua experiência de “cruz”. Seduzido por Deus, colocou toda a sua vida ao serviço de Deus e de seu povo. Mesmo na desilusão, “continua a anunciar a beleza do primeiro amor, o amor de Deus pelo seu Povo”, porque “o inusitado da atração de Deus” faz acender a correspondência de amor.
“Deus é tão desejoso e dadivoso no seu amor, que nos seduz. Ele é um sedutor amoroso; não desiste jamais de oferecer vida e salvação a todos os filhos e filhas. Ele no amor é sempre irresistível, pois incansável, forte, repleto de um cativante poder de convencimento. A vida cristã tem o sabor da sedução de Deus para conosco, também na cruz”, explicou o arcebispo.
E nesse amor despertador, que nos seduz e nos impele o desejo de correspondência e nos oferece a clareza de compreender “que quando iluminados, quando despertados, quando atraídos, somos tomados pelo fogo do amor, pelo desejo de corresponder, pela força que nos permite estar ao lado de quem seduziu, atraiu no amor. Eis a cruz do ser cristão!”
Tomar a cruz
“Tomar a cruz” de Jesus e segui-lo. A cruz é a expressão de um amor total, radical, que floresce na morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos e as irmãs sejam mais felizes”, explicou o cardeal.
O arcebispo esclareceu que existe uma lógica da cruz que é oferecer a vida por amor, não como uma perda, mas como um ganho de plenitude de vida. É a lógica do Reino de Deus que expõe à compreensão de “que a nossa vida neste mundo não é a vida definitiva”. Nessa dinâmica de Deus, a “vida tem sentido quando assumimos os valores do Reino” e vivemos no “amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade”.
Nesse horizonte, o cardeal destacou que o Evangelho de hoje nos recorda que o verdadeiro discipulado a Jesus deveria “superar os ritualismos, as meras fórmulas, as práticas pietistas, as obrigações legalistas”. Para que no seguimento a Jesus construamos um ser cristão pautado em Jesus e na sua proposta de vida que dá sentido a nossa existência.
“Um convite a oferecermos a nossa vida cotidiana a Deus através dos irmãos. O verdadeiro sacrifício, vivo, santo e agradável a Deus é uma vida que se assemelha à vida de Jesus que vai até a doação unificadora da cruz”, enfatizou o cardeal.



