No 26º Domingo do Tempo Comum o Evangelho apresenta o convite de Jesus a estabelecermos uma relação de fidelidade, proximidade e participação no Reino de Deus. O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, explicou que a primeira leitura (Ez 18,25-28) ajuda a compreendermos o que Jesus nos conta com a parábola do convite do pai ao trabalho na vinha (Mt 21,28-32). No texto, o profeta Ezequiel aponta que afastar-se do mal e praticar o bem preserva a vida.
“O profeta busca acordar os israelitas exilados na Babilônia para a vida extraordinária de serem um povo escolhido, o povo de Deus. Os exilados são convidados a permanecer na fidelidade, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. O verdadeiro israelita é levado à fonte da palavra, a palavra da aliança. Tenha vida, proximidade e viva na justiça”, explicou o cardeal.
Já na parábola, Jesus retoma a necessidade de estabelecer uma relação de participação com o Reino. Diante do convite do pai para ir trabalhar na vinha surgem duas respostas aparentemente contraditórias: “Não, eu não vou, mas vai. Sim, pai, mas não vai”. O arcebispo esclareceu que essa dinâmica de respostas deseja superar a ideia de religião pautada apenas em prática exterior, habitual e ritual, para uma atitude que recai sobre a vida e estabeleça uma “relação profunda com Deus”.
“O primeiro filho se nega, mas vai a trabalho. O segundo afirma que vai, mas não vai para a vinha. Jesus ensina que podemos dizer sim, mas acabamos não trabalhando na vinha do Senhor. Não deixamos que Deus trabalhe em nós. Pode ser que digamos não, mas com o passar do tempo nos aproximamos e aceitamos o convite de Deus”, esclareceu o arcebispo.

Animar e esperar
Comentando a parábola do Evangelho, o cardeal Steiner recordou-nos os ensinamentos de Papa Francisco de como “Deus é paciente com cada um de nós”. Mesmo diante do nosso não, Deus permanece ao nosso lado para nos animar e esperar. Essa espera de Deus “nos deixa livres de nos distanciarmos dele e até cometermos erros”, porque “Ele respeita a nossa liberdade, mas continua a nos convidar”.
“Ele aguarda com confiança o nosso sim para nos acolher novamente nos seus braços paternos maternos e nos cobrir com sua misericórdia que não tem limites. A fé em Deus pede que renovemos todos os dias, renovemos todos os dias a escolha do bem em vez do mal. A escolha da verdade em vez da mentira. A escolha do amor ao próximo em vez do egoísmo”.
Convite do Pai
Escolher o amor é convite do Pai direcionado a cada um de nós. As palavras do cardeal sublinham que “aqueles que se convertem a essa escolha, depois de ter experimentado o pecado, encontrarão os primeiros lugares no reino dos céus”. Ele reforçou é um convite, “nada de ordem, nada de comando, nada de obrigação”. Isto porque é um convite cheio de ternura e beleza onde o pai “falou não ao rosto como um homem, mas ao coração como Deus, penetrando até a inteligência por meio dos sentidos”.
“Queridos irmãos e irmãs, é o hoje. É sempre um hoje, não um ontem, não um amanhã. É sempre hoje, pois hoje é o meu existir, é o meu viver, é a minha vida. É o meu conviver, é viver em Deus hoje. Santo Agostinho nos diz que Deus é sempre um hoje porque é amor. Mas esse hoje, num texto antigo se diz, isto é, durante toda a vida porque a vida é sempre um hoje. Uma vida inteira, toda a vida no hoje, ir para a vinha do Senhor, participar da vida de Deus”, enfatizou o cardeal Steiner.
Despertar a fé
A proposta do texto evangélico nos insere na perspectiva da fé como um “um longo caminho que passa também, às vezes, pelo esquecimento”. Mesmo que a cotidianidade nos conduza a indiferença, “de repente acordamos e vamos: é o despertar da fé”. Mesmo que tenhamos aprendido a experimentar a presença de Deus, no “movimento de contínuo sair e deixar-se embeber pela beleza do Evangelho, às vezes também se manifesta na nossa vida como não vou”.
“Esquece, adormece, no entanto, pela presença de Deus acordamos e vamos. É um processo extraordinário que nos plenifica, é um processo de conversão que nos atrai. São às vezes aquelas percepções no nosso dia a dia que não precisamos de Deus. Os sentimentos de que podemos viver a partir de nós mesmos e não precisamos da graça da vinha do Senhor. Uma espécie de achar que podemos viver de nós mesmos e aí nos distanciamos do amor de Deus, mas Deus na sua insistência continua nos acordar e então dizemos sim e vamos”, insistiu o cardeal.

Corrigir vontades
Dom Leonardo evocou Santo Agostinho para indicar a necessidade de corrigir nossas vontades e alinhá-las com a vontade de Deus. “É quando dizemos não, mas nos convertemos, nos plenificamos e dizemos eu vou”, disse o arcebispo. Essa realidade ir e não ir nos aponta para “uma mudança de vida, de preparação, de conversão, de atenção para estar junto da benevolência de Deus manifestada em Cristo Jesus”, como também em João Batista. E mesmo na recusa, à escuta do convite de Jesus, não consegue rejeitar a graça e diz, eu vou, Senhor, vem”.
Essa realidade toca os pecadores, cobradores de impostos. Os cobradores de impostos e as prostitutas serão predecessores no reino de Deus, porque “pareciam não escutar, mas escutaram a Jesus”. O cardeal exemplificou com as figuras de“Zaqueu, nós temos Mateus, nós temos o publicano que sobe ao templo e pede misericórdia”.
“Esses homens que eram pecadores, eram como que prostitutas do Estado e ouvindo a palavra de Jesus se convertem, aceitam e aceitam fazer parte do mistério do povo de Deus. Ir e servir no reino de Deus, caríssimos irmãos e irmãs, é aceitar Jesus, viver com Jesus, seguir a Jesus. Estamos quase na dinâmica cotidiana de não vou, mas sempre de novo nos sentimos atraídos e atraídas e vamos”, disse o arcebispo.
O caminho
O caminho para corresponder ao amor de Deus, mesmo com nossa incapacidade de permanecer, é de “não vou, mas vou”. Justamente porque o amor de Deus nos convida “todos os dias, pois nos ama como filhas e filhos”. O cardeal esclareceu que apesar das nossas incertezas, dúvidas e traições, vamos “com o passar dos anos amadurecendo na fé”. Nesse processo, nos tornamos participantes do Reino de Deus, sempre “à escuta de uma voz que nos atrai e nos convida: ‘filho, filha, vai trabalhar hoje na minha vinha’. E vamos”.
Obediência
A segunda leitura nos indica que a obediência de Jesus até a morte é o caminho para “participarmos do mistério do amor de Deus”. O cardeal Steiner nos recordou que, no latim, a palavra obediência quer dizer ouvir bem. Isto indica que ouvir o convite de participar do reino de Deus, sendo obediente como Jesus foi obediente, “nos faz de participar do mistério do amor”. Essa atitude revela “conservar o mesmo pensar, o mesmo amor, o amor mútuo, a compaixão no Espírito vivendo na unidade, vivendo entre nós em harmonia”.
“Nesse convite que o Evangelho nos faz hoje, nada de competição, nada de vanglória, mas humildade cuidando uns dos outros. Porque Deus continuamente cuida de cada um de nós. Ao respondermos vou, temos o mesmo modo, os mesmos sentimentos de Cristo Jesus. É por isso que repetimos as palavras de Paulo aos Filipenses, por isso todo joelho se dobre no céu, na terra e embaixo da terra e toda língua confessa, Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai, porque ele é um contínuo convite de participarmos do mistério do amor da trindade”.



