“Como Mateus, sigamos a Jesus com as nossas fraquezas, sigamos a Jesus com os nossos pecados para que ele use para conosco de misericórdia”.O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus e presidente do Regional Norte 1, refletiu sobre o chamado de Mateus proposta pelo Evangelho do 10º Domingo do Tempo Comum, 7 de junho. A celebração aconteceu na Catedral Metropolitana de Manaus, às 7h30. Em sua homilia, o arcebispo descreveu a pintura de Caravaggio, da igreja de São Luís dos Franceses, em Roma, para recordar que Jesus veio para chamar os pecadores.
“Jesus aponta para Mateus e o rosto dele está completamente iluminado, porque da janela vem uma luz que passa pelo dedo de Jesus e vai até Mateus. E Mateus aceita o convite de Jesus. É um quadro belíssimo do chamado. E hoje talvez o Evangelho nos indica o caminho de nós que somos frágeis e pecadores: ‘Eu vim chamar, não vim chamar os justos, mas os pecadores’”, disse o cardeal.

Mateus, o pecador
A mensagem da vinda de Jesus para chamar os pecadores poderia ser o ensinamento do Evangelho narrado por Mateus. Segundo o cardeal, “Mateus sabia de seu pecado, da sua traição, do seu desalinho em relação à lei. Talvez até tenha se envergonhado ao ser chamado por Jesus”. No entanto, o próprio nome, que significa dom de Deus, sugere porque Mateus se “levantou da mesa dos impostos e seguiu Jesus, convidando depois a fazer refeição em sua casa.
“Ele desempenhava a função de cobrador de impostos em Cafarnaum. Ele era um dos que faziam pagar os impostos do povo de Israel para os romanos. Cobradores de impostos publicanos eram homens desprezados, às vezes até odiados. Eram considerados impuros, pecadores. E Jesus, ao olhar para Mateus, viu nele um anunciador, apesar de pecador e cobrador de impostos. Viu nele um propagador do Reino de Deus, um testemunhador da vida de Deus. O chamou e Mateus iniciou o caminho da redenção, da salvação, da santificação”, explicou o arcebispo.
Um Reino para todos
Ao ouvir o chamado de Jesus para segui-lo, Mateus se levanta imediatamente e deixa o lugar do “ganha-pão, o lucro seguro”. E mesmo pecador, convida Jesus “para tomar a refeição na sua casa”. O cardeal explica que o levantar-se do pecador é o caminho do seguimento do Reino oferecido por Jesus que “não distingue entre bons e maus, justos e injustos. É a proposta de sanação, de salvação, de eternidade”, pois em seu Reino há lugar para todos justamente porque “não existem desclassificados, não existem marginais, existem filhos e filhas de Deus”.
“Alegria de seguir, de encontrar a salvação. Porque segue e convida o mestre a fazer refeição em sua casa. Agora não mais impostos, não mais enganos a serviço do estrangeiro. Agora convívio, familiaridade, convivialidade. Jesus chama um publicano, um cobrador de impostos. Os cobradores de impostos eram gente desclassificada socialmente entre o povo judeu. Catalogada como pecadora sem qualquer possibilidade de salvação”, sublinhou o cardeal.
O homem novo
Na sequência de sua reflexão o cardeal recordou o ensinamento de Santo Ambrósio, comentando a vocação de Mateus, onde diz que Cristo não restaura o velho homem, mas cria o homem novo. A vida nova de Mateus reflete o desejo de Jesus de “salvá-los, devolver-lhes a dignidade”. Ao sentar-se com os transgressores indesejados Jesus estabelece o novo vínculo do Reino.
“Jesus entra na casa e deixa-se servir pelos pecadores. Senta-se à mesa, o banquete para o povo judeu é o lugar do encontro, da fraternidade, dos laços de familiaridade, de convivialidade, poderíamos dizer, de comunhão. Sentar-se à mesa com alguém significava estabelecer laços profundos, íntimos, familiares com essa pessoa. Jesus nos diz que o banquete é símbolo do reino da fraternidade e da comunhão do amor sem limites”, refletiu o arcebispo.
Misericórdia, não sacrifício
A presença de Jesus no entre os publicanos e pecadores é o cumprimento de sua vinda para resgatar os pecadores e oferecer-lhes a misericórdia do Reino. O cardeal reforça que Jesus vem para “dar saúde aos doentes, vim sanar, recuperar, devolver a saúde, reintegrar, levar uma vida ética, uma vida de gratidão, de gratuidade, nada mais de negócios a serviço dos outros”. É o convite para sentar-se “à mesa da misericórdia e buscar o perdão”.
“Agora, Reino de Deus. Jesus os busca, aqueles que tem saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Deus Jesus não se afasta de nós quando agimos mal, quando pecamos, mas nos convida a sentar à mesa da misericórdia e buscar o perdão. Quer a misericórdia o amor não os sacrifícios E Jesus mesmo no Evangelho nos afirma, quero misericórdia e não os sacrifícios”, recordou o presidente.
O olhar de Jesus
Para explicar a adesão de Mateus ao seguimento de Jesus, o arcebispo rememorou as palavras de Papa Francisco que indicam o olhar de Jesus como o despertar do pecador. Diante do amor e da misericórdia de Jesus se reconhece como pecador desprezado e se deixa tocar pela liberdade de segui-lo, “pois sentindo-se pecadores estavam prontos para o seguimento”.
“A primeira condição para ser salvo é sentir-se frágil, pecador, perceber-se pecador. A primeira condição para ser curado é sentir-se doente. No sentir-se pecador, recebe o olhar da misericórdia de Jesus. O olhar de Jesus misericordioso, afável, belo, bom, amorável. Também este olhar nos busca, queridos irmãos e irmãs. É o olhar da misericórdia, é o olhar do amor, é o olhar que salva e que nos sugere a nunca ter medo de Deus”, esclareceu o cardeal.
Misericórdia aos necessitados
No cotidiano somos convidados a nos reconhecermos como pecadores e necessitados da misericórdia de Deus. O cardeal Steiner reforçou que ao examinarmos nossa vida, nos deparamos com nossas fragilidades e transgressões, principalmente quando “excluímos as pessoas necessitadas que nos buscam, às vezes até nos incomodam”. Ele insistiu que Deus “aceita e busca esses irmãos e irmãs”.
“Ele não exclui porque cheiram a bebida, não excluem porque cheiram a droga. Não excluem porque cheiram a fezes, urina. Não excluem, não excluem mesmo os que têm uma percepção de viverem alheios à realidade. Então não nos assusta Jesus dizer, aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Levemos a misericórdia de Deus também para esses nossos irmãos e irmãs”, convidou o cardeal.
Necessitados de amor e compaixão
Ao final de sua reflexão, o arcebispo convidou-nos a reconhecer a nossa necessidade de “saúde espiritual”. Essa necessidade, é sanada quando permitimos que o olhar de amor e compaixão de Jesus alcance a cada um de nós. E, ao sermos alcançados, temos a possiblidade de aceitar o convite à radicalidade da adesão plena ao discipulado de Jesus.
“O olhar que convenceu a Mateus também nos tocará, como tocou a Mateus. Deixemo-nos tocar pelo olhar de Jesus. Diante do olhar, a resistência de Mateus, o homem que queria dinheiro, era escravo do dinheiro, cedeu. Levantou-se e o seguiu. Quando erramos, caímos, levantemo-nos. Sigamos a Jesus. Não tenhamos medo das nossas fraquezas, é levantar-se, é recomeçar de novo, é caminhar, jamais desistir a viver o Evangelho”.
- A Vocação de São Mateus ou Invocação de São Mateus é uma pintura realizada pelo o pintor barroco italiano Caravaggio concluída em 1599-1600 para a Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi, onde ainda se conserva em Roma. ↩︎



